Mar-a-Lago: Moradores de Palm Beach não querem Trump como vizinho

Presidente americano pretende fixar residência no clube quando sair da Casa Branca, em janeiro de 2021

Kate Bennett e Betsy Klein, da CNN
17 de dezembro de 2020 às 11:51

O atual presidente dos EUA, Donald Trump
Foto: Carlos Barria - 11.nov.2020 / Reuters

(CNN) - A primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump, planeja viajar para Palm Beach usando um jato do governo na sexta-feira (18) e passar o final de semana observando as reformas em andamento nos aposentos privados da família Trump em Mar-a-Lago, disse uma fonte familiarizada com os seus planos.

Melania quer ter certeza de que tudo está de seu agrado antes que ela e o presidente Donald Trump se mudem para o clube privado após 20 de janeiro, quando o presidente eleito Joe Biden se muda para a Casa Branca.

No entanto, além da nova pintura, tecidos de revestimento e acabamentos e da expansão geral das áreas privadas da família, com cerca de 280 metros quadrados, há um problema muito maior com a mudança permanente: se ela é legal ou não. Quando transformou a residência em um clube, Trump concordou com a prefeitura em limitar suas estadas ali. Agora, alguns residentes de Palm Beach dizem que ele pode estar violando esse acordo.

A primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump
Foto: Jonathan Ernst/Reuters (31.out.2020)

Trump comprou a antiga propriedade de Marjorie Merriweather Post em 1985 e, posteriormente, transformou-a em um clube exclusivo para membros em 1993. O plano era – como acontece com a maioria dos negócios da Trump – obter lucro. No entanto, para transformar o imóvel privado em um negócio gerador de receita, Trump teve que concordar com certas limitações, com condições obrigatórias apresentadas pela prefeitura da cidade de Palm Beach.

O clube, por exemplo, não pode ter mais de 500 membros, possui regras relativas a estacionamento e tráfego, e os membros do clube (incluindo Trump) não podiam passar mais de sete dias consecutivos em Mar-a-Lago, por não mais do que três semanas ao longo de um ano. Na época, após várias aparições em reuniões do conselho (equivalente a uma câmara municipal) da cidade por Trump e seus advogados para pleitear seu caso pela aprovação da evolução da propriedade, Trump concordou em cumprir a regra dos 21 dias.

No entanto, ele excedeu esse limite de dias ficando em Mar-a-Lago com muito mais frequência enquanto presidente e aparentemente espera fazer do clube seu lar permanente depois de deixar o cargo. A mudança, no entanto, é algo em que os residentes da elegante Palm Beach não estão interessados em apoiar de maneira amigável.

Mar-a-Lago: a propriedade foi comprada por Trump em 1985 e transformada em clube em 1993
Foto: Reprodução/Mar-a-Lago

O advogado de West Palm Beach Reginald Stambaugh escreveu para autoridades da cidade na terça-feira (15) dizendo que Trump já violou o acordo para estadas de visitantes em Mar-a-Lago, observando os planos do presidente de se mudar para o clube em janeiro. A carta foi revelada pela primeira vez pelo jornal “The Washington Post”.

Stambaugh disse que representa um cliente que pode ter sido exposto a uma barreira de microondas, um dispositivo usado para proteger a propriedade. Há preocupações com a segurança dessa barreira e de como o uso de Mar-a-Lago por Trump pode desvalorizar os imóveis vizinhos. 

“É responsabilidade do Conselho Municipal consertar esses erros e restaurar a segurança e a proteção do bairro, mantendo o Acordo de Uso”, escreveu Stambaugh. “Para evitar uma situação embaraçosa para todos e dar ao presidente tempo para fazer outros arranjos de moradia na área, esperamos que os senhores trabalhem com suas equipes para lembrá-los dos parâmetros do Contrato de Uso”.

“Palm Beach tem muitas propriedades lindas à venda e com certeza ele encontrará uma que atenda às suas necessidades”, continua a carta.

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De acordo com Brian Seymour, advogado e especialista em uso de terras do condado de Palm Beach, as concessões que a prefeitura deu a Trump durante sua presidência podem acabar quando ele se tornar um cidadão privado novamente.

Se o clube não cumprir as normas de limites de residência, a prefeitura pode forçar a aplicação dos regulamentos, como processando ou multando Mar-a-Lago, disse Seymour.

Mas, em última análise, caberia a Trump obedecer. “Pode ficar muito complicado se a prefeitura resolver cumprir tudo”, disse Seymour.

Quando questionadas sobre a resposta da cidade à reclamação na manhã de quarta-feira (16), as autoridades de Palm Beach não responderam imediatamente. A CNN também entrou em contato com a Casa Branca para comentar e não recebeu um retorno.

“Não há nenhum documento ou acordo em vigor que proíba o presidente Trump de usar Mar-A-Lago como sua residência”, disse uma porta-voz da Trump Organization em um comunicado. A CNN também perguntou ao gabinete da primeira-dama, que ainda não respondeu.

Vizinhos frustrados

Os vizinhos em Palm Beach deixaram claro que estão frustrados com as táticas de Trump.

“Aquele lugar tem sido um circo por quatro anos e eles estão fartos disso”, disse um proprietário de Palm Beach ciente do pensamento dos vizinhos à CNN.

Outro vizinho com conhecimento dos esforços para legalizar a residência permanente contou que as queixas sobre a interrupção da vida normal quando Trump fica em Mar-a-Lago foram apresentadas ao conselho municipal e ao prefeito por anos. Elas incluem questões sobre segurança reforçada, congestionamento de tráfego e violações de ruído.

No entanto, os pedidos de ajuda do governo local foram esquecidos, disse o vizinho, porque Trump era o presidente. Em pouco tempo, esse não será mais o caso, e o homem afirma que é em parte por isso que há um esforço renovado para destacar o acordo que foi selado quando Trump foi autorizado a criar seu clube. “Tem sido um pesadelo”, desabafou o vizinho.

O morador acrescentou a mistura de antigos residentes de Palm Beach e a personalidade inflamável de Donald Trump sempre foi “como óleo e água, simplesmente não se misturam”. Nos últimos 30 anos, Trump levou a cidade à beira da frustração com vários confrontos legais, incluindo desrespeito às regulamentações de altura para um mastro gigante que ele instalou no terreno de Mar-a-Lago, que tinha 24 metros de altura e ostentava uma bandeira dos Estados Unidos com 35 metros quadrados.

Depois de entrar com um processo contra a cidade, que cobrava uma multa diária para cada dia que o mastro permanecesse, Trump finalmente concordou com um acordo (e em baixá-lo um pouco). Com o tempo, Trump reclamou na prefeitura sobre rotas de tráfego aéreo, regras de expansão do imóvel, proibições de membros e outras queixas.

O presidente Donald Trump pretende usar Mar-a-Lago como sua residência depois que sair da Casa Branca
Foto: Reprodução/Mar-a-Lago

Já a prefeitura reclamou de volta – uma vez, até por causa de uma sessão de fotos nos anos 90 para uma campanha publicitária da Versace com Madonna filmada em Mar-a-Lago, citando restrições de zoneamento que não permitiam a fotografia comercial em residência particular, válidos na época. As demandas mais recentes de Trump por um heliporto também consumiram vários meses de idas e vindas polêmicas antes que a Comissão de Preservação de Marcos da cidade permitisse que um fosse instalado em 2017. O heliporto não existirá mais quando a presidência de Trump terminar.

Para muitos dos habitantes superricos de Palm Beach, ajudar a se livrar de Trump, e usar um documento com o qual ele mesmo concordou em fazê-lo, seria a cereja no topo de anos de dores de cabeça induzidas por magnatas. “É o que diz a lei", diz Larry Leamer, que escreveu "Mar-a-Lago: Inside the Gates of Power at Donald Trump's Presidential Palace” (“Mar-a-Lago: Dentro dos portões do poder no palácio presidencial de Donald Trump”, sem edição no Brasil), que tem uma casa em Palm Beach. “É um acordo. Agora, se a cidade vai adiante com a aplicação dos regulamentos, ainda veremos”.

Trump tem um punhado de aliados em Palm Beach, a maioria membros de seu clube, alguns dos quais são política e financeiramente influentes. A equipe da pós-presidência e a estrutura de segurança também são menores, o que poderia ajudar a aliviar algumas das interrupções dos últimos quatro anos e induzir outros vizinhos a possivelmente ignorar os detalhes do acordo, mas Leamer disse que “isso parece improvável”.

Leamer observou que Trump também se envolveu em outra questão delicada para Palm Beach: ele legalmente reivindicou a Flórida como seu estado de residência e até listou Mar-a-Lago como seu endereço para votar este ano, o que significa que ele deve provar que está lá por seis meses fora do ano.

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“Não há nada que os residentes de Palm Beach odeiem mais do que as pessoas de Nova York que vêm e afirmam que vivem aqui para obter incentivos fiscais”, contou Leamer. Se Trump vai ficar em Palm Beach mais do que em qualquer uma de suas outras residências por ano, conforme exigido por lei, é algo incerto, mas Leamer observou, “eles vão observar”, referindo-se aos vizinhos descontentes.

Trump, que por vários anos desafiou a adesão às normas e costumes, e sua esposa parecem estar demonstrando pouca preocupação com o acordo assinado em 1993. De acordo com uma fonte familiarizada com o aparato de segurança em andamento para acomodar o novo local de residência de um ex-presidente, o Serviço Secreto do Estado dos Estados Unidos tem nos últimos meses organizado e elaborado um plano para proteger a pós-presidência de Trump em Mar-a-Lago.

Em sua viagem à Flórida, a primeira-dama também planeja dar uma olhada na suíte ocupada por seus pais, que também está passando por uma reforma. Além de colocar sua decoradora de interiores pessoal no comando da renovação, ela também fez reformas nos banheiros dos aposentos.

Em um esforço para utilizar mais espaço da propriedade além dos 280 metros quadrados da residência, Trump também autorizou a aquisição do que era uma das “salas baixas” do Serviço Secreto, um lugar próximo aos aposentos do presidente onde os agentes podem descansar, assistir televisão, usar um computador ou se atualizar entre os turnos. De acordo com uma fonte familiarizada com a expansão, a metragem quadrada adicional foi solicitada pelo casal Trump, o que significa que o Serviço Secreto terá que encontrar outro lugar para descanso.

Jamie Gangel e Cristina Alesci contribuíram para esta reportagem.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).