Irlanda tem as maiores taxas de Covid-19 no mundo


Eoin McSweeney, da CNN
12 de janeiro de 2021 às 17:04 | Atualizado 12 de janeiro de 2021 às 17:05
A variante mais contagiosa do Reino Unido, foi descoberta pela primeira vez na I
A variante mais contagiosa do Reino Unido, foi descoberta pela primeira vez na Irlanda no dia de Natal
Foto: Pixabay

Quando a Irlanda saiu de um lockdown de seis semanas em dezembro, o país tinha um dos níveis mais baixos de casos de Covid-19 na Europa. Desde então, a situação mudou completamente. O país registrou as maiores taxas de infecção do mundo na semana passada, de acordo com a Our World in Data, uma publicação científica online com sede na Universidade de Oxford.

Nos sete dias anteriores a 10 de janeiro, a Irlanda reportou cerca de 1.323 casos de Covid-19 por milhão de pessoas, segundo as estatísticas, mais do que qualquer outro país no mesmo período. Na sexta-feira (8), o país registrou o maior aumento diário de infecções desde o início da pandemia, com 8.248 novos casos, de acordo com um comunicado do departamento de saúde irlandês.


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"Esse nível alarmante da doença nunca foi visto, com base em nossa experiência dos números de Covid-19 na comunidade", alertou o professor Philip Nolan, membro da Equipe Nacional de Emergência em Saúde Pública da Irlanda (NPHET, na sigla em inglês). "Estamos vendo uma quantidade de casos por dia e de hospitalizações que não poderíamos ter imaginado antes do Natal".

Especialistas médicos, políticos e membros da sociedade na Irlanda agora discutem o que deu errado. A sazonalidade do vírus, a presença da variante mais transmissível do Reino Unido e famílias que se encontraram durante as férias contribuíram para o aumento, de acordo com um porta-voz do gabinete do primeiro-ministro Micheál Martin.

O aumento não é "simplista", e vários fatores levaram a isso, disse o porta-voz à CNN nesta terça-feira (12). "Tivemos um aumento nos encontros sociais durante o Natal, e nossos especialistas em saúde pública disseram que a sazonalidade do vírus foi um fator enorme", comentou.

A Irlanda reabriu, com restrições, o setor de hospitalidade e alguns outros no dia 4 de dezembro. Defendendo essa decisão, o porta-voz disse que os setores envolvidos "em geral" aderiram às medidas de saúde pública e que a incidência de infecções foi "relativamente baixa" em ambientes de hotelaria, varejo e construção.

A variante mais contagiosa do Reino Unido, descoberta pela primeira vez na Irlanda no dia de Natal, "teve um impacto muito significativo [no] aumento dos casos, porque acredita-se que ela é entre 50% a 70% mais transmissível", acrescentou o porta-voz.

Cerca de 40% dos casos positivos de Covid-19 mais recentes na Irlanda foram causados pela variante mais contagiosa do Reino Unido, disse Cillian De Gascun, diretor do National Virus Reference Laboratory, em um comunicado na segunda-feira (11).

A partir de 18 de dezembro, as famílias irlandesas puderam se encontrar com pessoas de até duas outras famílias, apesar de outros países europeus terem cancelado as reuniões durante o Natal. Mais de 54 mil pessoas voaram para a República da Irlanda entre 21 de dezembro e 3 de janeiro, de acordo com o Departamento de Justiça.

"Não havia um sistema de isolamento devidamente em vigor", disse o presidente de epidemiologia e saúde pública da Royal Society of Medicine, Gabriel Scally, à CNN por telefone na terça-feira (11). "A Irlanda e a Grã-Bretanha são ilhas malsucedidas em termos de Covid, quando comparadas com outras. Havia um desejo compreensível de normalidade no Natal depois de um ano difícil, mas o vírus ignora disso".

A Irlanda fechou restaurantes, pubs que servem comida e algumas lojas na véspera de Natal e, desde então, endureceu ainda mais suas medidas de lockdown, incluindo o fechamento de canteiros de obras não essenciais, escolas e creches.

Atualmente, há 1.582 pacientes de Covid-19 hospitalizados na Irlanda, dos quais 146 estão em unidades de tratamento intensivo, número pouco abaixo dos 155 registrados durante o pico da pandemia em abril, de acordo com o departamento de saúde.

"Sabemos que as hospitalizações ocorrem algumas semanas depois que um caso confirmado é notificado, e o registro da mortalidade ainda depois disso", disse o médico-chefe da Irlanda, Tony Holohan, em um comunicado na segunda-feira (11). "Isso significa que, infelizmente, ainda teremos um período em que a situação de nossos hospitais vai piorar antes de melhorar".

A Irlanda tem apenas cinco leitos de terapia intensiva para cada 100 mil pessoas, muito abaixo da média de 12 da OCDE22, de acordo com dados da OCDE. Até agora, o país relatou um total de mais de 152 mil casos de Covid-19 e 2.352 mortes, de acordo com uma apuração da Universidade Johns Hopkins.

Quanto ao aumento recente, as ferramentas para lidar com "essa taxa de crescimento acelerada" estão nas mãos da Irlanda, de acordo com Nolan, que preside a Consultoria de Modelagem Epidemiológica da NPHET.

Ele acrescentou esperar que as medidas atuais "diminuam significativamente a transmissão do vírus".

Kara Fox, Ivana Kottasová, Niamh Kennedy e Blathnaid Healy da CNN contribuíram para esta reportagem.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês)