Na Nicarágua, sete líderes da oposição são presos em menos de uma semana

Com eleições em novembro, presidente Daniel Ortega busca reeleição para o quarto mandato; políticos presos anunciaram intenções de concorrer ao pleito

Ivana Kottasová, CNN
10 de junho de 2021 às 14:15 | Atualizado 10 de junho de 2021 às 14:24
Daniel Ortega – Nicarágua
O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega
Foto: Gregorio Marrero/LatinContent via Getty Images (10.janeiro.2013)

Em menos de uma semana, e apenas a alguns meses antes de uma eleição crucial, a polícia da Nicarágua deteve sete líderes da oposição, segundo declarações oficiais. As prisões são vistas como arbitrárias e resultaram em sanções impostas pelos Estados Unidos ao país.

A prisão mais recente, ocorrida nesta quarta-feira (9), é a de José Bernard Pallais Arana, líder do partido Coligação Nacional. A polícia disse que Arana foi preso por agir "contra a independência, soberania e autodeterminação" do país. A mesma justificativa se aplica aos demais detidos.

Nesta terça-feira (8), a polícia prendeu Félix Maradiaga Blandón, Juan Sebastián Chamorro García, José Adan Aguerri e Violeta Granera. Arturo Cruz havia sido preso no último sábado e Cristiana Chamorro, por sua vez, estava em prisão domiciliar desde a última quinta-feira.

Aguerri é um empresário reconhecido e ex-presidente do Conselho Superior de Empresas Privadas, uma federação empresarial nacional. Já Chamorro, Cruz, Maradiaga e Chamorro García anunciaram intenções de competir com o presidente Daniel Ortega nas próximas eleições. Ortega, um ex-revolucionário de esquerda, busca vencer um quarto mandato 7 de novembro.

No passado, o governo Ortega não hesitou em aplicar uma mão forte contra a oposição. Quando os protestos contra o governo eclodiram no país em 2018, pelo menos 322 pessoas foram mortas, milhares ficaram feridas e centenas foram detidas em apenas quatro meses.

Na época, especialistas em direitos humanos da ONU acusaram o governo de violações dos direitos humanos ao lidar com os manifestantes. Ortega disse que o relatório da ONU nada mais era do que "um instrumento da política da morte, da política do terror, da política da mentira, da política da infâmia".

Quando as prisões dos líderes foram divulgadas nesta terça-feira, a ex-presidente da Costa Rica, Laura Chinchilla, escreveu nas redes sociais: "Esta é uma noite das facas longas em uma versão tropical."

Sanções impostas pelos Estados Unidos

Nesta quarta-feira, os Estados Unidos impuseram sanções contra membros do alto escalão do regime de Ortega, incluindo sua filha e o presidente do banco central do país.

"Os Estados Unidos exortam o Presidente Ortega e o Governo da Nicarágua a libertarem imediatamente os candidatos presidenciais Cristiana Chamorro, Arturo Cruz, Félix Maradiaga, Juan Sebastián Chamorro e outros líderes da sociedade civil e da oposição detidos na semana passada, incluídas nas duras medidas da noite passada, que enviaram jornalistas e ativistas independentes a se esconderem por medo de represálias ", disse o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, em um comunicado anunciando as sanções.

“A região e a comunidade internacional devem estar com o povo nicaraguense em apoio ao seu direito de escolher livremente seu governo e sua liberdade de repressão e abusos dos direitos humanos”, completou Blinken.

As acusações contra os líderes presos na Nicarágua

Maradiaga, o primeiro dos três presos nesta terça-feira, estava participando de uma reunião na Procuradoria-Geral da República quando ele, seu motorista e seu advogado foram detidos, segundo nota do gabinete de Maradiaga.

Maradiaga "rejeitou a falsa acusação contra ele e exigiu sua libertação imediata", acrescentou seu escritório em um comunicado postado no Twitter horas após sua prisão.

As acusações policiais contra Maradiaga, Chamorro García, Adan Aguerri e Arana são semelhantes às enfrentadas por Cruz. Ele foi preso por "atos que ameaçam a soberania nacional", segundo a Polícia Nacional da Nicarágua e o Ministério Público.

Segundo nota divulgada nas redes sociais de Cruz, o ex-diplomata chegou à Nicarágua em um avião dos Estados Unidos na manhã do último sábado e foi detido no aeroporto Augusto César Sandino, em Manágua.

O partido de Cruz, o Alianza Ciudadanos por la Libertad, pediu sua libertação em um comunicado. “Exigimos a pronta libertação de Arturo Cruz e que sua integridade física e direitos constitucionais sejam respeitados”, disse o partido da oposição.

Cristiana Chamorro, por sua vez, foi acusada de lavagem de dinheiro e má gestão da Fundação Violeta Barrios, entidade sem fins lucrativos que presidia, segundo o Ministério Público.

A Fundação Violeta Barrios está fechada desde fevereiro por violar a Lei de Regulamentação de Agentes Estrangeiros promulgada em outubro de 2020. O Ministério Público solicitou medidas cautelares contra Chamorro, incluindo restrição de viagens e desqualificação para cargos públicos, segundo nota.

A CNN não conseguiu contato com as defesas de Aguerri, Chamorro García, Arana e Granera.

Reações em todo o mundo

As prisões geraram indignação entre organizações de direitos humanos e líderes estrangeiros. Na sexta-feira passada, o Departamento de Estado dos Estados Unidos pediu ao governo da Nicarágua que "libertasse imediatamente a líder da oposição Cristiana Chamorro e seus dois colegas", descrevendo sua detenção "sob falsas acusações" como "um abuso de seus direitos". 

O órgão disse ainda que a medida também "representa um ataque aos valores democráticos, bem como uma clara tentativa de impedir eleições livres e justas".

O porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, disse que "as atuais condições de repressão e exclusão não são consistentes com eleições confiáveis". Nesta terça-feira, a subsecretária interina do Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado, Julie Chung, disse que as prisões exigiam "uma resposta internacional urgente".

“O regime de Ortega é responsável pelo bem-estar dos detidos. Eles devem ser liberados imediatamente, afirmou Chung nas redes sociais.

A deputada da Flórida, María Elvira Salazar, também criticou a medida. Ele advertiu que o regime de Ortega "enfrentará todo o peso das sanções econômicas se não houver eleições livres e democráticas com observadores internacionais".

A Fundação de Direitos Humanos Bianca Jagger denunciou as prisões, disse sua presidente, a ex-nicaraguense Bianca Jagger, no Twitter. Jagger chamou Ortega de "ditador criminoso".

À CNN, José Miguel Vivanco, diretor da divisão das Américas da Human Rights Watch, pediu à comunidade internacional mais ações à luz da prisão de Chamorro.

Contribuíram para esta reportagem Gerardo Lemos e Stefano Pozzebon, em Bogotá; Natalie Gallon, na Cidade do México; Marlon Sorto, Kiarinna Parisi, Abel Alvarado e Philip Wang, em Atlanta. Jenny Hansler, Kylie Atwood e Nicole Gaouette de Washington.

(Este texto é uma tradução. Para ler o original, em espanhol, clique aqui)