Chefe do exército dos EUA temia que Trump tentasse um golpe após a eleição

Jornalistas premiados contam como membros do Estado-Maior consideravam ideias do ex-presidente ilegais, perigosas ou imprudentes

Jamie Gangel, Jeremy Herb, Marshall Cohen e Elizabeth Stuart, da CNN
15 de julho de 2021 às 14:52 | Atualizado 15 de julho de 2021 às 21:57
Mark Milley testemunhou durante uma audiência do Comitê de Serviços Armados do S
Foto: Mark Milley testemunhou durante uma audiência do Comitê de Serviços Armados do Senado em 4 de março de 2020/Getty Images

A principal autoridade militar dos EUA, o chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, general Mark Milley, ficou tão preocupado que o então presidente Donald Trump e seus aliados pudessem tentar um golpe ou tomar outras medidas perigosas ou ilegais após a eleição de novembro que Milley e outras autoridades planejaram informalmente maneiras diferentes de parar Trump. As revelações estão em um novo livro a ser lançado nos Estados Unidos.

Escrito pelos repórteres do “The Washington Post” Carol Leonnig e Philip Rucker, ganhadores do Prêmio Pulitzer, a obra descreve como Milley e os outros membros do Estado-Maior discutiram um plano para renunciar, um por um, em vez de cumprir ordens de Trump que consideravam ilegais, perigosas ou imprudentes.

“Foi uma espécie de Massacre de Sábado à Noite ao contrário”, escrevem Leonnig e Rucker. (Eles fazem referência a um fato de 1973, quando o então presidente Richard Nixon causou renúncias no judiciário numa noite de sábado em meio ao escândalo do Watergate).

O livro, chamado “I Alone Can Fix It” (algo como “Só eu posso consertar”, ainda sem edição no Brasil), programado para ser lançado na próxima terça-feira (20), narra o último ano de Trump como presidente. A obra traz os bastidores de como autoridades do alto escalão do governo e o círculo interno de Trump lidaram com seu comportamento cada vez mais desequilibrado após perder a eleição de 2020. Os autores entrevistaram Trump por mais de duas horas.

Na obra, é relatado como, pela primeira vez na história moderna dos Estados Unidos, a principal autoridade militar do país, cujo papel é aconselhar o presidente, estava se preparando para um confronto com o comandante-chefe porque temia uma tentativa de golpe após Trump perder as eleições de novembro.

Segundo o livro, Milley ficou cada vez mais preocupado com as trocas de pessoal que colocaram aliados de Trump em posições de poder no Pentágono após a eleição de novembro de 2020. Entre elas estão a demissão do secretário de Defesa Mark Esper e a renúncia do procurador-geral William Barr, que seriam o sinal de algo sinistro no horizonte.

Milley conversou com amigos, congressistas e colegas sobre a ameaça de um golpe. O chefe do Estado-Maior sentiu que deveria estar “em guarda” para o que poderia acontecer.

“Eles podem tentar, mas não vão conseguir, p****”, Milley disse a seus subordinados, de acordo com os autores. “Não dá para fazer isso sem os militares. Não dá para fazer isso sem a CIA e o FBI. Nós somos os caras com as armas”.

Os autores contam que, nos dias que antecederam 6 de janeiro (quando o Capitólio foi invadido), o general Milley estava preocupado com a convocação de Trump para a ação. “Milley disse a sua equipe que acreditava que Trump estava fomentando uma agitação, possivelmente na esperança de uma desculpa para invocar a Lei de Insurreição e convocar os militares”.

Milley via Trump como “o líder autoritário clássico, sem nada a perder”, escrevem os autores. O general enxergou paralelos entre a retórica de Adolf Hitler como vítima e salvador e as falsas alegações de Trump sobre fraude eleitoral.

“Este é um momento Reichstag”, disse Milley a assessores, de acordo com o livro. “É verdadeira Bíblia do Führer”. (O Reichstag, o parlamento alemão, sofreu um incêndio criminoso em 1933, logo após a eleição de Hitler, que culpou e condenou “os comunistas” pelo ataque).

Antes de uma “Marcha do Milhão MAGA” pró-Trump em novembro, feita para protestar contra os resultados das eleições, Milley disse a assessores que temia que o momento “podia ser o equivalente americano moderno dos ‘camisas-marrons nas ruas’”. Foi uma referência à milícia pró-nazista que alimentou a ascensão de Hitler ao poder.

“Isso tudo é de verdade, cara”

Rucker e Leonnig entrevistaram mais de 140 fontes para o livro, embora a maioria tenha pedido anonimato para falar abertamente e reconstruir eventos e diálogos. O general Milley é citado extensivamente e sai sob uma luz positiva como alguém que tentou manter a democracia viva. Ele acreditava que ela estava à beira do colapso depois de ser avisado por um velho amigo, uma semana após a eleição.

“O que eles estão tentando fazer aqui é derrubar o governo”, disse o amigo do general, que não foi identificado, segundo os autores. “Isso tudo é de verdade, cara. Você é um dos poucos que estão entre nós e algumas coisas muito ruins”.

A reputação de Milley sofreu um grande golpe em junho de 2020, quando ele se juntou a Trump durante sua polêmica sessão fotográfica na Igreja de St. John. O presidente foi a pé ao local após forças federais dispersarem de forma violenta uma multidão pacífica de manifestantes pela justiça social. O caso aconteceu na Lafayette Square, em frente à Casa Branca. Para piorar a situação, Milley usava uniformes militares camuflados durante o incidente. Mais tarde, ele se desculpou, dizendo: “Eu não deveria ter ido lá”.

Mas, nos bastidores, o livro diz que Milley estava na linha de frente ao tentar proteger o país, incluindo um episódio em que tentou impedir Trump de demitir o diretor do FBI Chris Wray e a diretora da CIA Gina Haspel.

Leonnig e Rucker recontam uma cena em que o general estava com Trump e seus principais assessores em uma suíte, assistindo a uma partida de Exército x Marinha de futebol americano, em dezembro, quando confrontou publicamente o chefe de gabinete da Casa Branca, Mark Meadows.

“O que está acontecendo? Vocês vão se livrar Wray ou Gina?”, perguntou Milley. “O que é isso, chefe? Que diabos está acontecendo aqui? O que vocês estão fazendo?”

“Não se preocupe com isso”, respondeu Meadows. “São só umas trocas de pessoal”.

“Tome cuidado”, Milley retrucou, o que teria sido visto como um aviso de que o general estava prestando atenção nos movimentos.

Foto: Presidente da Junta de Chefes de Estado-Maior General Mark Milley e Secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo chegam para a cerimônia da Medalha Presidencial da Liberdade para o general aposentado s Jack Keane no Salão Leste da Casa Branca/Getty Images

“Isso não faz nenhum sentido”

O livro também lança uma nova luz sobre a descida de Trump nas profundezas de teorias da conspiração e delírios egoístas depois que ele foi declarado o perdedor da eleição de 2020.

Após a insurreição de 6 de janeiro, o livro diz que Milley fez teleconferências diárias com Meadows e o então secretário de Estado Mike Pompeo. Os repórteres relatam que as autoridades usaram as ligações para comparar observações e “pesquisar coletivamente o horizonte em busca de problemas”.

“O tema geral dessas chamadas era, aconteça o que acontecer, teremos uma transição pacífica de poder no dia 20 de janeiro”, disse um membro do alto escalão aos autores. “Temos um avião, nosso trem de pouso está preso, temos só um motor e estamos sem combustível. Temos que pousar”.

O general Milley disse a assessores que viu as ligações como uma oportunidade de manter o controle sobre Trump.

O livro também conta uma cena em que o ex-secretário de Estado Pompeo visitou Milley em casa nas semanas antes da eleição, e os dois tiveram uma conversa franca sentados à mesa do general. Pompeo teria dito: “Você sabe que os malucos estão assumindo o controle”, de acordo com pessoas familiarizadas com a conversa.

Os autores escrevem que Pompeo, por meio de uma pessoa próxima a ele, negou ter feito tais comentários e disse que eles não refletiam suas opiniões.

Nas últimas semanas, Trump atacou Milley, que ainda é o chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos no governo Biden, depois de o general testemunhar no Congresso sobre os eventos de 6 de janeiro.

“Você fez isso, p****”

O livro também contém várias histórias pesadas sobre como o governo Trump tratava as mulheres proeminentes, incluindo a deputada do Partido Republicano Liz Cheney, a presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, a chanceler alemã Angela Merkel e a ex-primeira-dama Michelle Obama.

O livro detalha um telefonema um dia após a insurreição de 6 de janeiro entre Milley e Liz Cheney, a republicana do Wyoming que tem fortes laços com os militares. Cheney votou pelo impeachment de Trump e tem criticado abertamente suas mentiras na eleição, o que levou à sua demissão da liderança do Partido Republicano na Câmara.

O general perguntou à deputada como ela estava.

“Aquele m**** do Jim Jordan. Aquele filho da ****”, disse Cheney, de acordo com o livro.

Cheney relatou sem rodeios a Milley o que viveu no plenário da Câmara em 6 de janeiro, enquanto manifestantes pró-Trump invadiam o prédio do Capitólio. Ele teria tido um confronto com o deputado Jim Jordan, um fiel aliado de Trump na Câmara que tentou incansavelmente reverter o resultado da eleição.

Cheney contou a Milley: “Enquanto esses maníacos percorriam o prédio, eu estava no corredor e Jordan disse: ‘Precisamos tirar as mulheres do corredor. Deixe-me ajudar você’. Eu empurrei a mão dele e disse: ‘Afaste-se de mim. “Você fez isso, p****”

Louco, perigoso, maníaco

O livro revela conversas privadas da presidente do congresso, Nancy Pelosi, com o general Milley durante esse período. Quando Trump demitiu o secretário de Defesa Mark Esper em novembro, Pelosi foi um dos vários congressistas que ligaram para o general Milley. “Estamos todos confiando em você”, disse. “Lembre-se de seu juramento”.

Após a insurreição de 6 de janeiro, Pelosi disse ao general que estava profundamente preocupada que um Trump “louco’, “perigoso” e ‘maníaco” pudesse usar armas nucleares durante seus últimos dias no cargo.

“Senhora, garanto que esses processos são muito bons”, Milley a tranquilizou. “Não vai haver um disparo acidental de armas nucleares”.

“Como você pode me garantir?”, perguntou Pelosi.

“Senhora, há um processo”, respondeu. “Seguiremos apenas ordens legais. Só faremos coisas que sejam legais, éticas e morais”.

Uma semana após a insurreição, Pelosi liderou o segundo impeachment dos democratas na Câmara de Trump por incitar a insurreição. Em entrevista aos autores, Pelosi disse temer que outro presidente possa tentar retomar de onde Trump parou.

“Podemos pegar alguém de sua laia que seja são, e isso seria realmente perigoso, porque pode ser alguém que seja inteligente, que seja estratégico e tudo mais”, opinou Pelosi. “É um desleixo. Ele não acredita em ciência. Ele não acredita em governança. Ele é um vendedor de ilusões. E é esperto. É preciso dar crédito a ele por sua esperteza”.

“Aquela v***”

O livro cita Trump, que tinha um relacionamento tenso com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, dizendo a seus assessores durante uma reunião do Salão Oval sobre a OTAN e a relação dos EUA com a Alemanha: “Aquela v*** da Merkel!”.

“'Eu conheço os malditos chucrutes’, acrescentou o presidente, usando um termo depreciativo para os soldados alemães da Primeira e da Segunda Guerra Mundial”, diz um trecho do livro. “Trump então apontou para uma fotografia emoldurada de seu pai, Fred Trump, exibida na mesa atrás do Resolute Desk, e disse: ‘Fui criado pelo maior chucrute de todos”.

Trump, por meio de um porta-voz, negou aos autores que tenha dito isso.

“Ninguém tem um sorriso maior”

Depois de 6 de janeiro, Milley participou de um exercício com líderes militares e policiais para se preparar para a posse do presidente Joe Biden em 20 de janeiro. A capital Washington estava bloqueada por temores de que grupos de extrema direita como os Proud Boys tentassem interromper violentamente a transição de poder.

O general disse a um grupo de líderes seniores: “O negócio é o seguinte, pessoal: esses caras são nazistas, eles são [do movimento] Boogaloo, são os Proud Boys. São as mesmas pessoas que combatemos na Segunda Guerra Mundial. Vamos colocar um anel de aço em torno desta cidade e os nazistas não vão entrar”.

Trump não compareceu à posse, em notável ruptura com a tradição, e o evento transcorreu sem incidentes.

Quando a cerimônia de posse terminou, Kamala Harris, que acabara de tomar posse como vice-presidente, fez uma pausa para agradecer ao general Milley. “Todos nós sabemos o que você e alguns outros fizeram”, ela teria dito. “Muito obrigada”.

O livro termina com Milley descrevendo seu alívio por não ter havido um golpe, pensando consigo mesmo: “Graças a Deus Todo-Poderoso, pousamos o navio em segurança”.

O general Milley expressou seu alívio momentos após Biden tomar posse, falando ao casal Obama, todos sentados assistindo à cerimônia. Michelle Obama perguntou a Milley como ele estava se sentindo.

“Ninguém tem um sorriso maior hoje do que eu”, disse Milley, de acordo com Leonnig e Rucker. “Não dá para ver sob a minha máscara, mas eu vejo”.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês aqui.)