À CNN, embaixador do Brasil no Irã diz que acesso a informações é limitado
Em entrevista exclusiva, André Veras Guimarães fala sobre as dificuldades com bloqueio da internet, a situação pelas ruas de Teerã e sobre o plano de retirada de cidadãos brasileiros do país
O embaixador do Brasil no Irã, André Veras Guimarães, revelou em entrevista exclusiva à CNN que o acesso a informações no país está severamente limitado devido ao corte de internet imposto pelo regime iraniano. Falando diretamente de Teerã, capital que tem sido palco de protestos, o diplomata comentou a atual situação no país.
Segundo Guimarães, a realidade que ele observa nas ruas de Teerã é menos violenta do que o retratado pela mídia internacional. "De fato, nós estamos também seguindo aqui as manifestações, mas eu tenho a impressão de que a visão que nós podemos ter é muito menos rigorosa no aspecto da violência das manifestações e da ação do governo do que se está mostrando na mídia internacional", explicou.
O embaixador afirmou que circulou por diferentes áreas da capital para verificar pessoalmente a situação, mas não presenciou o nível de violência mostrado em imagens que circulam internacionalmente. "Eu vi protestos, sim, pessoas que foram em suas janelas e protestaram, eu vi situações em que carros passam buzinando, pessoas gritam ordens, frase de slogans contra o regime, contra as suas autoridades, mas eu não vi esse nível de violência e de destruição que essas imagens mostram", relatou o embaixador.
Comunicação restrita e reunião com autoridades
O diplomata explicou que a embaixada brasileira está operando com severas restrições de comunicação e que é difícil ter informações sobre áreas fora da capital do país. "Nós estamos sem conexão de internet e tampouco temos acesso à mídia iraniana", disse, acrescentando que isso dificulta qualquer avaliação precisa da situação além de Teerã.
Guimarães relatou que o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, convocou uma reunião com diplomatas, no último domingo (11), para explicar a situação no país, justamente porque os representantes estrangeiros foram surpreendidos com o corte da internet. Segundo o embaixador, as autoridades iranianas afirmaram que os protestos começaram com comerciantes do bazar reclamando sobre inflação e desvalorização da moeda, mas escalaram para manifestações mais amplas.
"Na explicação das autoridades iranianas, nessa última fase em que as manifestações se tornaram mais violentas, houve a infiltração de agentes externos, de terroristas que vieram dificultar e gerar violência", disse o embaixador sobre a versão oficial. "Eles nos pediram desculpas pelos cortes, mas alegaram que era necessário esse corte justamente para poder impedir que essas incitações continuassem."
Comunidade brasileira e plano de contingência
Questionado sobre a situação dos brasileiros no Irã, o embaixador informou que a comunidade é pequena e consiste, principalmente, de famílias estabelecidas há muito tempo no país. Segundo ele, a embaixada mantém contato com esses cidadãos, mesmo com as dificuldades de comunicação.
"Nós já temos um plano de contingência que foi inclusive utilizado durante a guerra. Nós temos já traçado planos de evacuação, mas até o momento não houve nenhuma indicação da comunidade brasileira aqui", afirmou Guimarães, explicando que a maioria dos brasileiros optou por permanecer no país mesmo durante períodos anteriores de tensão.
O embaixador também mencionou que, apesar das dificuldades de comunicação, a embaixada continua recebendo brasileiros que solicitam ajuda para avisar suas famílias no Brasil que estão bem. "Isso eu estou fazendo em comunicação direta com o próprio Itamaraty. Como eu não tenho dificuldade aqui de falar, eu estou mandando todas as informações sobre essas pessoas e estamos fazendo essa ponte de comunicação", explicou.
Sobre as ameaças de possíveis ataques americanos ao Irã, Guimarães relatou que, segundo o ministro iraniano, o país "em nenhum momento deseja a guerra, deseja atacar nenhum país e não fará, mas ele deixou bem claro que há a preparação e há a decisão de retalhar ou revidar qualquer tipo de ataque que possa acontecer no país".


