À CNN, Lula diz que Conselho de Segurança da ONU "não resolve nada"

Presidente concedeu entrevista exclusiva à âncora Christiane Amanpour

Leticia Martins e João Scavacin, da CNN, São Paulo
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À CNN, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a criticar o Conselho de Segurança da ONU, dizendo que a entidade "não resolve nada" ao comentar sobre os conflitos no Oriente Médio.

"O que o Conselho de Segurança está fazendo agora? Os membros plenos do Conselho de Segurança — o que estão fazendo? Eles não resolvem nada. Quem eles estão ouvindo? Com quem estão conversando?", disse Lula.

"Todo dia eu leio o jornal. Alguém pede o cessar-fogo e, no dia seguinte, o Netanyahu mata mais mulheres e crianças lá. Agora, ele acabou de matar crianças que estavam tentando pegar comida, não armas", completou à CNN.

No início deste mês, Lula já havia criticado a guerra na Faixa de Gaza e atuação da ONU diante do conflito.

"Vamos ser francos, o que está acontecendo em Gaza já passou da capacidade de compreensão de qualquer mortal desta terra. Só se mata inocentes, mulheres e crianças", afirmou o petista durante uma coletiva de imprensa na Cúpula do Brics.

"E cadê a instituição multilateral para colocar fim nisso? Não existe. A ONU deveria estar coordenando, mas a ONU não pode coordenar porque ela está envolvida nisso", adicionou.

Nesta quinta-feira (17), o presidente brasileiro afirmou ainda que Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, "não respeita a ONU, os Estados Unidos, ele não respeita ninguém, nada".

"E para continuar governando, ele precisa da guerra. Ele tem que matar um monte de criança. Esse é o mundo que queremos?", prosseguiu.

A entrevista exclusiva de Lula à Christiane Amanpour foi exibida pela CNN Internacional.

Trump X Lula

Em outro momento da conversa à CNN, o presidente da República declarou que o presidente dos Estados Unidos não foi eleito "para ser o imperador do mundo".

Segundo Lula, o anúncio do tarifaço foi uma surpresa, não apenas pelo valor, mas pela forma como foi anunciada — com a publicação de uma carta nas redes sociais de Trump.

"Não podemos deixar o Presidente Trump esquecer que ele foi eleito para governar os EUA. Ele não foi eleito para ser o imperador do mundo", enfatizou.

"Seria muito melhor estabelecer uma negociação primeiro e depois chegar a um possível acordo, porque somos dois países com quem tivemos reuniões muito boas e temos boas relações há 200 anos. E então ele está rompendo com qualquer protocolo, qualquer liturgia que deva existir nas relações entre dois chefes de Estado. Foi muito desagradável", acrescentou.

Lula afirmou que, enquanto o Brasil tenta contato com os Estados Unidos para negociar as tarifas, "também estamos nos preparando para dar uma resposta".

"O que tenho dito é que usaremos todas as palavras que existem no dicionário para tentar negociar", comentou.

"Posso garantir que o Brasil, no momento certo, dará a resposta certa à carta do presidente Trump", concluiu.

Tarifas de 50%

Na terça-feira (15), questionado sobre a justificativa para o tarifaço contra o Brasil, Trump simplesmente argumentou ter a capacidade para fazê-lo.

"Porque eu sou capaz de fazer isso. Ninguém mais seria capaz", destacou Trump na Casa Branca. Questionado se havia algum motivo de segurança nacional, o presidente norte-americano respondeu que "temos tarifas em vigor porque queremos tarifas e queremos que o dinheiro entre nos EUA".

Para Trump, o mais importante é o efeito que as tarifas podem gerar: "convencer um país ou uma empresa a construir nos EUA, fabricar seus produtos nos EUA, e isso cria empregos".

O analista da CNN Caio Junqueira apurou que o governo Lula busca o interlocutor ideal para endereçar a negociação com os EUA, na tentativa que Trump reveja a medida.

O vice-presidente Geraldo Alckmin, que lidera as negociações no Brasil, afirmou em reuniões com empresários que encontrar esse canal de diálogo é hoje uma das maiores dificuldades para resolver o impasse.

Em carta enviada ao governo americano, assinada por Alckmin e revelada em primeira mão pela âncora da CNN Tainá Falcão, o governo federal manifestou "indignação" com a tarifa de 50%.

Na carta, o governo brasileiro afirma que a medida trará impactos econômicos significativos para ambos os países.

As autoridades destacam que, desde o primeiro anúncio de Trump sobre tarifas — quando o Brasil foi atingido por uma alíquota de 10% — o Executivo tem buscado manter um diálogo com Washington.

Lei da Reciprocidade Econômica

No início da semana, o presidente Lula assinou um decreto que regulamenta a Lei da Reciprocidade Econômica.

O decreto do governo brasileiro permite a suspensão de "concessões comerciais, de investimentos e obrigações relativas a direitos de propriedade intelectual em resposta a ações unilaterais de países ou blocos econômicos que afetem negativamente a sua competitividade internacional".

Aprovada pelo Congresso Nacional em 2 de abril, a Lei da Reciprocidade estabelece critérios de proporcionalidade para a adoção de medidas em resposta a barreiras impostas a produtos e interesses brasileiros.

Pela norma, o Brasil poderá oferecer a cidadãos e governos estrangeiros o mesmo tratamento que esses países conferem ao Brasil — em áreas como comércio, concessão de vistos, relações econômicas ou diplomáticas.

A legislação autoriza o Executivo a reagir a ações externas consideradas prejudiciais à inserção internacional da economia brasileira.

Casa Branca

A Casa Branca rebateu a declaração do presidente Lula à CNN de que Donald Trump "não foi eleito para ser imperador do mundo". A porta-voz do governo americano, Karoline Leavitt, afirmou que o republicano é, na verdade, "o líder do mundo livre".

"O presidente [Donald Trump] certamente não está tentando ser o imperador do mundo; ele é um presidente forte dos Estados Unidos da América e também o líder do mundo livre. E vimos uma grande mudança em todo o mundo devido à forte liderança deste presidente", comentou Leavitt.

A resposta da Casa Branca veio durante uma entrevista coletiva com a porta-voz nesta quinta.

Além de reforçar que Trump é o líder do mundo livre, Karoline Leavitt também reafirmou as ações dos Estados Unidos contra o Brasil: "O presidente enviou uma carta ao Brasil anunciando a nova porcentagem de tarifa. Ele também orientou o embaixador do USTR, Jamieson Greer, a iniciar uma investigação sobre o Brasil sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, projetada para lidar com práticas estrangeiras desleais que estão afetando o comércio dos EUA".

A Casa Branca chegou a criticar as regulamentações digitais do Brasil e o que chamou de "fraca proteção à propriedade intelectual". De acordo com o governo americano, esses fatores prejudicam empresas americanas.

Leavitt também acusou o Brasil de tolerar o desmatamento ilegal e outras práticas ambientais que colocam produtores americanos em desvantagem.

"O presidente sempre age no melhor interesse do povo americano e dos Estados Unidos da América e continuará fazendo isso", completou.

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