Acordo com Irã pode prejudicar relação entre EUA e Israel, diz especialista

Especialista aponta pontos inegociáveis para o Irã e alerta para impacto de eventual acordo nuclear na parceria com Israel

Da CNN Brasil
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As negociações entre os Estados Unidos e o Irã avançam em meio a um cenário de alta complexidade no Oriente Médio. Enquanto o presidente Donald Trump demonstra otimismo em relação a um possível memorando de entendimento, o chanceler iraniano não confirmou a assinatura iminente do documento, sinalizando que ainda há pontos sensíveis a serem resolvidos.

Em entrevista ao Agora CNN, Vitelio Brustolin, pesquisador de Harvard e professor da UFF (Universidade Federal Fluminense), analisou o impasse e como a relação entre Estados Unidos e Israel pode ser prejudicada.

Ele destacou que o memorando em discussão funcionaria como uma forma de abrir o Estreito de Ormuz, postergando as negociações mais substantivas.

"Esse memorando é uma forma de abrir o Estreito de Ormuz e jogar todas as negociações relevantes para frente, inclusive do programa nuclear", afirmou Brustolin.

Segundo Brustolin, permanecem sem definição questões cruciais, como o destino dos 441 quilos de urânio enriquecido a 60% em posse do Irã — teor que, conforme o especialista, não possui finalidade civil, já que programas civis utilizam enriquecimento de até 20% para uso medicinal.

Além disso, outras 11 toneladas de urânio enriquecido em diferentes teores também aguardam solução. O programa de mísseis iraniano e o financiamento do Irã a grupos como Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica e Houthis são outros pontos sem resposta.

O descongelamento de ativos iranianos, estimados em cerca de US$ 24 bilhões, é apontado como um elemento de pressão dos Estados Unidos. "O que os Estados Unidos têm pressionado é que, se o Irã não cumprir esses termos, os recursos congelados do Irã não seriam liberados", explicou Brustolin, acrescentando que a economia iraniana atravessa dificuldades e que esses recursos seriam fundamentais para reanimar o país.

Israel fora da mesa e ofensiva no Líbano intensificada

Paralelamente às negociações, as forças israelenses intensificaram sua ofensiva na região sul do Líbano, controlada pelo Hezbollah. Os bombardeios resultaram na morte do prefeito de uma cidade libanesa, além de outras duas vítimas em ataques paralelos.

As forças israelenses afirmam ter destruído mais de 70 infraestruturas do Hezbollah nas últimas 24 horas, enquanto o grupo libanês reivindicou 19 ataques contra tropas israelenses no mesmo período.

A ONU alertou para o risco de que as ordens de retirada emitidas pelo Exército de Israel possam constituir deslocamento forçado, considerado crime contra a humanidade.

Brustolin ressaltou que nem Israel nem o Hezbollah estão presentes nas negociações, o que torna o cenário ainda mais instável. O especialista apontou que Benjamin Netanyahu enfrenta quatro acusações de corrupção e a responsabilização pelo atentado de 7 de outubro de 2023, além de uma desvantagem nas pesquisas eleitorais — contexto que, segundo Brustolin, o leva a não ter interesse em encerrar a ofensiva no Líbano.

Relação EUA-Israel sob tensão

A possibilidade de um acordo entre Washington e Teerã lança sombras sobre a histórica parceria entre Estados Unidos e Israel. Brustolin lembrou que os Estados Unidos transferem US$ 3,8 bilhões por ano para Israel e fornecem aeronaves como o F-35 e o F-15I, além de terem participado da construção do sistema de defesa antiaérea Domo de Ferro. "É muito ruim que a relação dos dois líderes acabe prejudicando os dois estados", afirmou o especialista.

Brustolin também mencionou declarações públicas de Trump nas quais ele teria chamado Netanyahu de "louco" e afirmado que Netanyahu "estaria preso" se não fosse por seu apoio.

Para o especialista, a situação é delicada porque afeta uma parceria histórica que não é do interesse de nenhum dos dois países ver rompida, sendo Israel considerado uma base estratégica dos Estados Unidos na região do Oriente Médio.

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