Alguns jovens ativistas não estão empolgados com a chapa Biden-Harris; entenda

Progressistas que lideram a campanha pela reforma da polícia não vão votar com entusiasmo para a chapa presidencial democrata em novembro

Jasmine Wright, Rachel Janfaza e Gregory Krieg, da CNN

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O primeiro debate entre Joe Biden e Donald Trump está marcado para a próxima terça-feira, 29 de setembro, na Universidade Case Western Reserve, na cidade de Cleveland, em Ohio. Os brasileiros poderão acompanhar o encontro entre os dois candidatos por meio da CNN Brasil, a partir das 22h do horário de Brasília. A transmissão acontecerá pela TV, pelo site e pelo YouTube.

Eles passaram o verão do Hemisfério Norte na linha de frente de um movimento histórico de protesto contra a violência policial. Mas muitos jovens ativistas pela justiça criminal — que lideram a campanha pela reforma da polícia — não vão votar com entusiasmo para a chapa presidencial democrata em novembro.

Ao longo dos últimos anos, o candidato Joe Biden e senadora da Califórnia Kamala Harris, sua companheira de chapa, entraram em confronto com os progressistas.

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Tal histórico alimentou a desconfiança de que a campanha em andamento não está em sintonia com a perspectiva deles.

Embora a chapa democrata seja a escolha da maioria dos ativistas, Biden e Harris ainda são vistos com cautela por aqueles que mais pressionam por reformas significativas no sistema de justiça criminal.

Em uma série de entrevistas nas últimas semanas, ativistas revelaram à CNN a angústia com o histórico de Biden, que redigiu o projeto de lei criminal de 1994, e de Harris, uma ex-promotora, além da retórica de ambos de apoio à polícia.

Mesmo que Biden tenha escolhido Harris, filha de imigrantes indianos e jamaicanos, um pouco para agradar mulheres negras influentes que queriam ver um reflexo de si mesmas (negras e altamente qualificadas) no cargo mais alto do país, os jovens ativistas acham que essa representação por si só não é suficiente.

A chapa democrata à presidência dos EUA, Joe Biden e Kamala Harris
A chapa democrata à presidência dos EUA, Joe Biden e Kamala Harris
Foto: Reprodução/Instagram @schultzinit (11.ago.2020)

A ampla primária que mostrou a diversidade do Partido Democrata terminou com a nomeação de Biden, de 78 anos. Biden é um moderado cujo projeto de lei de 1994 é frequentemente citado como um impulsionador do encarceramento em massa, em parte por causa da “lei das três rebatidas”, que garante prisão perpétua para réus com pelo menos três condenações federais por crimes violentos ou drogas.

Mesmo assim, democratas de todos os matizes deixaram de lado suas dúvidas sobre Biden para se concentrar em derrubar Donald Trump. Esse foco foi ampliado após a morte da juíza da Suprema Corte Ruth Bader Ginsburg e a corrida dos republicanos para ocupar seu lugar.

A situação ficou ainda mais premente nesta semana pela falta de acusações contra três policiais pelo assassinato de Breonna Taylor (a mulher negra de 26 anos baleada em sua própria casa enquanto a polícia de Louisville executava um mandado de busca), sinalizando os limites da campanha de pressão dos últimos meses nas mudanças legislativas e judiciais.

Jovens ativistas progressistas estão argumentando que há uma chance maior de pressionar Biden a assumir elementos-chave da causa do que com Trump, que criticou manifestantes pacíficos e se recusou a condenar todos os atos de violência policial, exceto os mais flagrantes.

“Há muitas pessoas, inclusive eu, que não estão animadas”, contou Gicola Lane, uma mulher negra de 31 anos e organizadora do movimento de justiça criminal em Nashville, à CNN. “Isso é pelo que vimos acontecer nos tribunais, em nosso próprio bairro e em todo o país. E sabemos que Joe Biden e Kamala Harris desempenharam um papel nesse sistema”.

Ainda assim, ela planeja votar na chapa democrata em novembro.

A falta de entusiasmo por Biden e Harris indica preocupações mais profundas sobre a capacidade dos candidatos de unir o partido contra a ameaça existencial representada por mais quatro anos de Trump.

Manifestantes na linha de frente veem Biden e Harris como peças mais maleáveis, enquanto o atual governo se assemelha a um muro de pedra bloqueando o impulso por mudanças.

“Votar não é uma expressão dos meus valores morais, é uma decisão de escolher o terreno político no qual lutamos”, disse Aaron Bryant, um homem negro de 28 anos de Durham, Carolina do Norte, à CNN. Organizador do Movement for Black Lives (Movimento para Vidas Negras, ou M4BL), ele planeja votar em Biden e Harris, mas apenas como um meio para um fim maior.

“Queremos lutar em um terreno político que beneficia o pior entre a classe capitalista e a direita? Ou queremos lutar no terreno que privilegia o meio termo da opção moderada centrista? Acho que uma dessas opções nos dá, como movimento, uma oportunidade melhor de traçar estratégias e seguir em frente”, explicou Bryant.

Um projeto

Simran Chowla, uma indiana de 20 anos cujos pais são descendentes das etnias punjabi e bengali, disse que até hoje não havia visto uma mulher do sul da Ásia como Harris chegar a esta altura da política norte-americana.

“Foi algo monumental para mim, como jovem indiana”, ressaltou Chowla à CNN.

Ainda assim, apesar de suas origens semelhantes, Chowla disse não ter total confiança de que uma vice-presidente como Harris (em quem ela planeja votar) representaria seus interesses se eleita.

Organizadora da March For Our Lives DC (Marcha pelas Nossas Vidas, no português) e líder de influência da Team ENOUGH (Equipe Já Basta, em tradução livre), duas organizações de prevenção da violência armada, Chowla espera apresentar suas propostas ao governo Biden-Harris. Entre outras iniciativas, ela gostaria de ver a retirada dos fundos ou a redistribuição dos fundos dados à polícia.

Mas nem Biden nem Harris apoiam o esvaziamento da polícia, ao contrário do que diz Trump com tanta insistência.

Biden expressou apoio ao condicionamento da ajuda federal à polícia com base no comportamento e na intervenção do Departamento de Justiça contra departamentos que violam as normas de direitos civis. Já a senadora Harris sempre disse que os EUA precisam “reimaginar” a segurança pública e a forma como a polícia interage com as comunidades, mas também defende que os crimes violentos permaneçam sob a competência de policiais treinados.

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O ex-vice-presidente também expressou apoio à proibição dos estrangulamentos cometidos por policiais em nível federal. Para isso, convocou um painel de supervisão do Departamento de Justiça que investigou as práticas policiais estabelecidas durante o governo Obama para aumentar a responsabilidade policial. 

Ao lado de Cory Booker, senador de Nova Jersey, Kamala Harris apresentou a proposta de Lei de Justiça no Policiamento, em junho, no auge de uma revolta nacional contra o racismo e a morte de George Floyd e outros negros desarmados pela polícia.

O projeto criaria um Registro Nacional de Conduta Imprópria da Polícia, forneceria incentivos para que os governos locais conduzissem treinamento de preconceito racial para oficiais e estabeleceria limites para a transferência de equipamento de nível militar para a polícia, entre outras iniciativas.

Durante a campanha das primárias, a senadora da Califórnia lançou um plano que buscava eliminar as sentenças mínimas obrigatórias em nível federal, legalizar a maconha, acabar com a pena de morte e com as prisões privadas — algo bem distante das políticas que uma vez impôs como procuradora-geral da Califórnia e procuradora distrital de São Francisco, posições que a levaram a ser rotulada de “policial” por jovens ativistas negros.

Entre uma série de questões, Kamala Harris foi criticada por discordar de um projeto de lei que exigia que seu gabinete da promotoria nomeasse um procurador especial para investigar todos os tiroteios fatais com envolvimento policial em 2015.

Na época, ela disse que a decisão deveria ser mantida nas mãos dos promotores locais. Um ano depois, ela aprovou uma lei para expandir a capacidade do procurador-geral de nomear promotores especiais se os procuradores dos distritos concordassem.

Questão ambiental

Alguns ativistas da justiça criminal dizem ter ficado animados com a disposição da campanha de Biden de assumir posições cada vez mais progressistas sobre as mudanças climáticas. Eles acreditam que, com tempo e pressão, poderiam empurrar o governo Biden-Harris na mesma direção.

Zina Precht-Rodriguez, vice-diretora de criação do Sunrise Movement Sunrise, liderado por jovens, destacou a reforma na plataforma de mudanças climáticas de Biden. O projeto é produto de um profundo engajamento com ativistas e progressistas como a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, que copresidiu uma força-tarefa sobre a questão que reuniu aliados de Biden e apoiadores de Bernie Sanders, senador de Vermont.

“O plano climático final de Biden fica irreconhecível quando comparado ao do início da corrida eleitoral e isso se estende à sua retórica e à forma como ele conversa com os jovens”, afirmou Precht-Rodriguez.

No entanto, questionada se a chapa Biden-Harris está fazendo o suficiente, ela disse: “Acho que a resposta mais curta seria: eles sempre poderiam fazer mais”..

“Creio que é uma questão de levar a chapa mais para a esquerda. Votar é apenas uma parte básica da organização e não ganharemos o ‘New Deal Verde’ apenas votando em um presidente ou congressista”.

‘Não lutam pela minha revolução’

Os organizadores destacaram a posição de Joe Biden de que “nem todos os policiais são maus”, como parte de sua crítica de que a chapa democrata não “escutou profundamente” aqueles que são vítimas da polícia. Segundo eles, isso é uma evidência de que Biden e Harris estão mais preocupados em resistir aos ataques de Trump e do Partido Republicano do que representar as prioridades de seus movimentos.

“É muito claro que o que eles estão dizendo é completamente o oposto do que o movimento está afirmando agora”, disse Lane, de Nashville.

Lane trabalha para a Free Hearts (Corações Livres, em português), uma organização do Tennessee dirigida por ex-presidiárias que oferece apoio a famílias afetadas.

Apoiadora de Sanders durante as primárias, Lane desafiou a dupla a se abrir para uma série de políticas construídas pelo grupo durante o verão para combater o atual estado carcerário, como a Lei BREATHE (Respirar, em tradução libre), que secaria os fundos federais do encarceramento e policiamento e investiria na segurança das comunidades.

Esse projeto de legislação tem o apoio das deputadas progressistas Ayanna Pressley, de Massachusetts, e Rashida Tlaib, de Michigan.

“Eu gostaria que eles não falassem mal do movimento. Em vez de fazer com que o projeto pareça afrontoso, queria que eles ouvissem e adotassem o projeto em nível federal para realmente ganhar a confiança do povo”, opinou Lane.

Rukia Lumumba, codiretora do Projeto de Justiça Eleitoral do Movement for Black Lives (M4BL), deu crédito a Harris por se encontrar com os organizadores da M4BL para ouvir sobre a Lei BREATHE antes de ser escolhida como companheira de chapa de Biden. Mas nem Harris nem Biden a endossaram.

Ty Hobson Powell, um homem negro de 25 anos e fundador da Concerned Citizens DC (Cidadãos Preocupados, em português), disse que a mensagem atual dos democratas não lhe dá “fé de que eles estão lutando pela minha revolução neste momento”.

Embora Hobson Powell diga que Biden e Harris não tenham se alinhado com as mudanças de política desejadas, ele reconhece que o outro lado está ainda mais longe de sua visão de reforma. “Quando falamos em votar em alguém, isso é um entendimento de que concordo com a pessoa”, disse ele.

Em resposta às críticas dos jovens organizadores sobre a falta de formulação de políticas para atender às suas necessidades, a assessora de imprensa de Harris, Sabrina Singh, disse à CNN que a campanha entende “a necessidade de abordar as injustiças sistêmicas enfrentadas pelas comunidades não brancas na justiça criminal, habitação, saúde e outros aspectos da sociedade”.

“Eles fizeram sessões de escuta e reuniões virtuais com ativistas e líderes comunitários para ouvir e aprender e estão comprometidos em transformar suas preocupações em mudanças sistêmicas reais e significativas para alcançar a justiça racial”, acrescentou a assessora.

Além disso, tanto Biden quanto Harris visitaram o campo de batalha do estado de Wisconsin, conversando com Jacob Blake — um homem de 29 anos que foi baleado sete vezes pela polícia por um policial da cidade de Kenosha — por telefone e em reunião com sua família.

Biden participou ainda de uma reunião comunitária em 3 de setembro, onde condenou o ataque da polícia a Blake, bem como a violência e os danos causados à cidade durante os protestos que vieram em seguida.

Votar para tirar Trump

O presidente da União de Estudantes Negros da Wayne State University, Jeremiah Wheeler, de 22 anos, perguntou a Harris como ela resolveria as injustiças na comunidade negra em um recente evento de campanha em Detroit.

“Vou precisar de sua ajuda”, respondeu Harris aos organizadores e participantes do encontro na 7 Mile Road.

Wheeler contou à CNN que, mais tarde, Harris reiterou a necessidade de trabalhar tanto dentro quanto fora do sistema para criar mudanças, algo que a senadora disse ter feito ao longo de sua carreira como promotora. Ele deu crédito à candidata por seu envolvimento, mas disse que este momento tem menos a ver com as experiências individuais dos candidatos do que com sua visão política.

Como tantos outros, Wheeler disse que votará em Biden e Harris e que vai incentivar pessoas próximas a fazerem a mesma coisa, mas essa decisão se deve mais à necessidade de tirar Trump do governo e endossar a chapa democrata.

“Precisamos votar”, disse Wheeler, que apoiou Sanders nas primárias. “Não quero dar mais razões para não votar, independentemente de estar recebendo a refeição gourmet que merecemos por direito ou um prato de fast food. A participação é a chave”.

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Chelsea Miller, uma mulher negra de 24 anos e cofundadora da organização de direitos civis Freedom March NYC (Marcha da Liberdade de Nova York, em português), aplaudiu Harris por convocar uma videoconferência “íntima” com organizações de justiça racial de todo o país.

“Ela fez perguntas, nós fizemos perguntas. Veio de um entendimento. Acho que é louvável que Harris entre nesse espaço e crie esta oportunidade para ativistas e organizadores”, afirmou Miller. “Ela apareceu para tratar dessas questões”.

Questionada sobre o que Biden e Harris poderiam fazer para provar que levam a sério essas mudanças, Porche Bennett, ativista, mãe e dona de uma pequena empresa que falou com paixão na reunião comunitária com Biden em Kenosha, disse que o tempo do candidato na cidade “mudou a forma como as pessoas o veem”, e pediu a Biden e Harris que saíssem às ruas para apresentar sua plataforma.

“Venha para cá e passe por esses bairros. Sem câmeras”, ela pediu. “Trate-nos como se a gente importasse”.

Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês.

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