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    Análise: Aumento das exportações de grãos pela Rússia é arma silenciosa contra a Ucrânia

    Apesar das alegações de Moscou de que as sanções ocidentais estrangularam as suas exportações de alimentos, a participação da Rússia no mercado global de trigo cresceu dramaticamente desde a invasão da Ucrânia

    Presidente russo Vladimir Putin em Moscou
    Presidente russo Vladimir Putin em Moscou 18/9/2023 Sputnik/Mikhail Metzel/Pool via REUTERS

    Clare Sebastianda CNN

    Em abril de 2022, o ex-presidente russo Dmitry Medvedev, agora vice-chefe do Conselho de Segurança da Rússia, disse no seu canal no Telegram: “Os nossos alimentos são a nossa arma silenciosa. Silenciosa, mas formidável”.

    No entanto, agora, esse arma deixou de ser silenciosa. Espera-se que a Rússia obtenha uma colheita de trigo historicamente elevada pelo segundo ano consecutivo e que utilizará cada vez mais essa recompensa para minar a Ucrânia e ganhar influência global.

    Apesar das alegações de Moscou de que as sanções ocidentais estrangularam as suas exportações de alimentos, a participação da Rússia no mercado global de trigo cresceu dramaticamente desde a invasão em grande escala da Ucrânia.

    A previsão é exportar 52 milhões de toneladas de trigo na atual temporada, que começou no verão, segundo dados da S&P Global partilhados com a CNN. Isto representará 22,5% das exportações globais de trigo, uma participação líder de mercado. Há dois anos, a Rússia exportava 32,6 milhões de toneladas, 16% do mercado.

    No mesmo período, a cota da Ucrânia nas exportações globais de trigo diminuiu de 9% para um nível esperado de pouco mais de 6% para esta época.

    As palavras e ações de Moscou sugerem uma determinação em retirar da Ucrânia a posição de um dos maiores exportadores de trigo do mundo, restringindo a sua economia e, por extensão, o seu potencial de combate à guerra.

    “O nosso país tem a capacidade de substituir os cereais ucranianos e, até mesmo, como ajuda gratuita aos países necessitados”, disse o presidente russo, Vladimir Putin, no encontro com os países integrantes do BRICS, no final de Agosto.

    Esses comentários surgiram poucas semanas depois de a Rússia ter abandonado a Iniciativa de Cereais do Mar Negro, que garantia a passagem segura dos navios que transportavam cereais dos portos ucranianos.

    Desde o fracasso do acordo, Moscou intensificou os ataques militares às instalações de exportação da Ucrânia. Os ataques danificaram silos de cereais e infraestruturas tanto nos portos marítimos da Ucrânia como nos portos fluviais do Danúbio, que constituem uma rota alternativa importante para as exportações e não servem para qualquer finalidade militar.

    “Eles pretendem destruir completamente o setor agrícola da Ucrânia”, disse Caitlin Welsh, diretora do programa global de segurança alimentar e hídrica do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, à CNN.

    Fazer isso seria um grande prêmio para Moscou, dada a importância da agricultura para a economia da Ucrânia. Antes da invasão, o setor respondia por 11% do produto interno bruto do país.

    “As exportações [de cereais] da Ucrânia são vitais para a sua economia e para alimentar o mundo”, escreveu Bridget A. Brink, embaixadora dos EUA na Ucrânia, na segunda-feira (2) no X, anteriormente conhecido como Twitter.

    Trigo: uma commodity estratégica

    Os especialistas dizem que as ações da Rússia vão além de travar uma guerra econômica contra o seu vizinho.

    A “ajuda gratuita aos países necessitados” destacada por Putin, dizem, reflete o desejo de Moscou de continuar a cultivar alianças com o mundo em desenvolvimento – especialmente com nações africanas, muitas das quais até agora se recusaram a condenar a guerra da Rússia na Ucrânia, mas desaprovaram a sua decisão de sair do acordo de grãos.

    No entanto, trata-se mais de relações públicas do que de generosidade genuína, segundo Andrey Sizov, que dirige a SovEcon, uma consultoria para as indústrias do trigo e do milho.

    Ele salienta que as 300.000 toneladas métricas de cereais que a Rússia prometeu no final de Julho como ajuda a um punhado de países africanos representam uma pequena fração das exportações mensais da Rússia e das necessidades de África. Estas últimas somam 8 milhões de toneladas por mês, estima.

    “A Rússia quer uma boa imprensa, mas os volumes são extremamente pequenos”, disse ele à CNN.

    A retirada de Moscou do acordo de cereais também representou um novo e importante teste à frente unida da Europa no apoio à Ucrânia.

    Três dias após a partida da Rússia, que causou o desmoronamento do acordo, cinco países da União Europeia na fronteira da Ucrânia ou perto dela escreveram à Comissão Europeia, o braço executivo da União Europeia (UE), pedindo-lhe que prorrogasse uma proibição temporária às importações de grãos ucranianos para esses países até o final do ano.

    Essas nações, incluindo a Polônia, temiam que de outra forma seriam inundadas com cereais ucranianos, uma vez que uma maior quantidade seria agora exportada por terra para os vizinhos e vizinhos próximos da Ucrânia e — como aconteceu antes de a UE bloquear os carregamentos — alguns dos cereais em trânsito podem acabar sendo vendidos nesses países. Isto, por sua vez, ameaçou os meios de subsistência dos agricultores locais.

    Quando a UE se recusou a prolongar as restrições, vários países emitiram proibições unilaterais de importação, algo que se transformou em um raro episódio de difamação pública entre a Ucrânia e a sua aliada Polônia.

    “A Rússia se beneficia da potencial desunião”, disse Welsh, “e também da drenagem dos recursos da UE, uma vez que a UE pode apoiar as rotas alternativas [para os cereais da Ucrânia]”.

    Desde então, as tensões entre a Ucrânia e a Polônia diminuíram.

    Preços em queda

    As exportações de trigo da Rússia podem atingir máximas históricas. Em Maio, o Departamento de Agricultura dos EUA previu que Moscou exportaria “um recorde” de 45 milhões de toneladas métricas de trigo no período 2022-2023.

    Isso está de acordo com os dados da S&P Global, que estimou 46,1 milhões para aquela temporada, número que deverá ser superado pela quantidade a ser embarcada em 2023-2024.

    No entanto, os preços do trigo têm caído desde a invasão da Ucrânia, atingindo o seu nível mais baixo em mais de três anos no final do mês passado (embora os preços ainda estejam mais elevados do que durante a maior parte da última década). Isto significa que as exportações recordes da Rússia não podem garantir receitas recordes.

    Sizov, da SovEcon, observa que Moscou tem tentado impor um piso não oficial aos preços de exportação do trigo. Em Março, a Reuters informou, citando duas fontes, que o governo russo queria que os exportadores garantissem que os preços pagos aos agricultores fossem suficientemente elevados para cobrir os custos médios de produção.

    Mas outros interventores podem começar a minar a Rússia. De acordo com Sizov, um recente concurso para vender trigo ao Egito, observado de perto, foi ganho pela Romênia, que ofereceu um preço de 256 dólares para cada tonelada, enquanto os vendedores russos ofereceram 270 dólares.

    Paul Hughes, economista-chefe agrícola da S&P Global, acredita que o maior desafio da Rússia surgirá se os vendedores na UE – outro grande exportador de trigo – baixarem os seus preços.

    “Nesse ponto, a Rússia terá uma escolha”, disse ele à CNN. “Primeiro, manter o piso [do preço de exportação] e abrir mão da participação nas exportações para a UE ou, segundo, abandonar o piso, reduzir o preço e manter o ritmo de exportação”, disse ele em comentários enviados por e-mail, chamando tal cenário de “momento de ajuste de contas”.

    Mas a Ucrânia, onde cerca de 8% das terras agrícolas estão fora de ação por causa da guerra, já se encontra em uma situação difícil. A S&P Global espera que as suas exportações de trigo caiam 3,7 milhões de toneladas, para 13,4 milhões, em 2023-2024, o valor mais baixo em nove anos. E uma redução significativa na oferta global de trigo ainda poderá elevar os preços, sugere Welsh.

    “A Ucrânia começa a colher as suas colheitas do final do verão até ao outono e exporta as suas colheitas em novembro, dezembro, janeiro e fevereiro”, disse ela. “Portanto, se a Ucrânia continuar a ter apenas acesso limitado aos seus portos à medida que a temporada de exportações aumenta, é aí que se poderão ver maiores impactos nos mercados globais.”

    E se os preços do trigo subirem, a Rússia estará bem posicionada para colher os benefícios.

    Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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