Análise: Tensão entre líderes deve marcar cúpula da Otan
Reunião em Ancara debate rearmamento europeu, guerra na Ucrânia e o futuro da aliança militar diante do afastamento americano
Os líderes dos países-membros da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) iniciam, nesta terça-feira (7), a cúpula da aliança em Ancara, na Turquia, em um encontro marcado por tensões acumuladas entre os Estados Unidos e seus aliados europeus.
A reunião coloca em pauta questões como o futuro da aliança militar, o conflito na Ucrânia e a capacidade dos países europeus de garantirem sua própria defesa com menor dependência americana.
O encontro ocorre após meses de atritos entre Donald Trump e líderes europeus, relacionados, entre outros fatores, à condução americana no conflito com o Irã, iniciado sem coordenação prévia com os aliados da Otan.
O presidente americano teria solicitado que países da aliança liberassem bases aéreas para ações ofensivas e se unissem à Marinha americana no enfrentamento a bloqueios marítimos iranianos.
Rearmamento europeu e iniciativas de defesa
Em meio à cúpula, países europeus buscam estreitar laços de defesa independentes dos Estados Unidos. Reino Unido, Holanda, Finlândia e Polônia reiteraram, em comunicado divulgado na segunda-feira (6), que estão fazendo "progressos significativos" para criar um mecanismo de aquisição conjunta de equipamentos militares até 2027.
O Canadá, por sua vez, deve anunciar durante o encontro uma lista de dez países fundadores de um banco voltado ao financiamento da renovação das capacidades defensivas de nações aliadas. Na véspera da cúpula, os canadenses já haviam anunciado a compra de 12 submarinos alemães para reforçar a segurança do país no Ártico.
Para Augusto Teixeira, professor de Relações Internacionais da UFPB, a realização da cúpula na Turquia não é casual. "A ideia, ao meu ver, é uma tentativa de criar um ambiente muito favorável para que a indústria de defesa turca possa ser um importante apoio dentro do processo de rearmamento europeu", afirmou.
Ele destacou que a cooperação com os Estados Unidos enquanto aliança militar defensiva "se encontra profundamente fraturada", tanto do ponto de vista simbólico quanto material, especialmente no que diz respeito ao auxílio financeiro e ao suporte de meios americanos.
Ucrânia no centro das discussões
A guerra na Ucrânia também ocupa lugar central na agenda da cúpula. O presidente do país, Volodymyr Zelensky, deve participar do encontro e realizar uma reunião bilateral com Trump para tratar do conflito com a Rússia, que já se arrasta há quatro anos.
Na segunda-feira (6), a capital ucraniana foi alvo de ataques que mataram mais de 20 pessoas, enquanto forças ucranianas atingiram com drones a maior refinaria da Rússia, localizada na Sibéria, a mais de 2.500 quilômetros do território controlado pelos ucranianos.
Zelensky também busca mais recursos do sistema antimíssil "Patriot" e afirma que a Ucrânia teria condições de produzi-lo por conta própria caso recebesse uma licença de Washington.
O analista de Internacional da CNN Lourival Sant'Anna destacou a dimensão estratégica do ataque ucraniano à refinaria siberiana. O alcance da operação foi comparado a um disparo hipotético que sairia de São Paulo para acertar um alvo em Recife (PE).
Lourival também apontou que a Ucrânia recuperou 400 quilômetros quadrados em abril e maio, segundo o Instituto para o Estudo da Guerra, e que o país "reescreveu a história das guerras com o uso dos drones aéreos e marítimos".
Os ataques às instalações petrolíferas russas, segundo ele, estão causando escassez de combustível tanto para civis quanto para militares da Rússia.
Desafios políticos e o futuro da Otan
Além das questões militares imediatas, a cúpula expõe um desafio político mais amplo para os membros da aliança: convencer suas populações da necessidade de aumentar os gastos com defesa em detrimento do estado de bem-estar social.
"É uma demanda muito forte por liderança neste momento", avaliou Lourival Sant'Anna, acrescentando que líderes europeus precisam demonstrar que "existe uma ameaça existencial" e que a defesa pode ser "um motor de crescimento econômico".
Augusto Teixeira reforçou que o panorama geopolítico "não tende a melhorar", citando a expansão da Otan para Finlândia e Suécia, a possibilidade do chamado "teste de Narva" e a "sensação de solidão europeia em relação aos Estados Unidos".
Para o professor, esses fatores podem impulsionar o que chamou de "keynesianismo militar", fundamental para a integração da indústria de defesa europeia.
Apesar dos avanços registrados — incluindo mudanças orçamentárias significativas, como no caso da Alemanha —, a dependência em relação aos Estados Unidos ainda é considerada "profundamente robusta", embora progressos estejam sendo feitos.


