Análise: Trump e Irã levam economia global à beira do precipício

EUA anunciam novo bloqueio a portos iranianos enquanto tráfego no estreito cai 50% em uma semana, elevando preços do petróleo

Da CNN Brasil
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Os Estados Unidos voltaram a atacar o Irã na noite de segunda-feira (13) com o anúncio de um novo bloqueio a portos iranianos. O presidente americano, Donald Trump, ameaçou cobrar uma taxa de 20% sobre o valor da carga de navios que os EUA ajudarem a cruzar o Estreito de Ormuz, acirando ainda mais a disputa pelo controle da passagem estratégica.

A declaração foi feita por Trump nas redes sociais, em que afirmou que os Estados Unidos seriam os "guardiões" do estreito. A CNN questionou o Comando Central dos EUA sobre como funcionaria a cobrança, e um porta-voz respondeu que perguntas sobre possíveis taxas deveriam ser direcionadas à Casa Branca.

Disputa pelo controle do estreito

Estados Unidos e Irã travam uma intensa disputa há uma semana sobre quem, de fato, exerce poder sobre o Estreito de Ormuz. Navios comerciais que tentam atravessar a passagem por uma rota próxima a Omã, apoiada por Washington e sem coordenação com autoridades marítimas iranianas, relatam ataques.

Militares americanos têm realizado operações praticamente diárias contra alvos ao longo da costa sul do Irã, sob a justificativa de reduzir a capacidade de Teerã de interromper o tráfego marítimo.

Do lado iraniano, o ministro das relações exteriores Abbas Araghchi afirmou que o Irã "sempre será o guardião do Estreito" e sugeriu que Teerã, ao propor oficializar um regime de taxas e licenças na passagem, seria mais justa do que Washington.

O analista de Internacional da CNN Lourival Sant'Anna destacou que a proposta de Trump não tem respaldo: "A comunidade internacional não aceita, não importa quem vai cobrar, se é o Irã, se são os Estados Unidos. A lei internacional não permite isso."

Para Lourival, a declaração foi voltada ao público interno americano, "para dar a impressão de que ele está zelando pelos interesses americanos".

Impacto econômico e queda no tráfego

As incertezas geradas pelo conflito já se refletem nos mercados globais. O preço do barril de petróleo tipo Brent subiu quase 10% na segunda-feira (13), a maior alta desde o início de abril. Dados de empresas de rastreamento como Kepler e Marine Traffic indicam que o tráfego de embarcações no estreito caiu cerca de 50% em uma semana.

O economista e professor sobre Oriente Médio Najad Khouri ressaltou a importância estratégica do estreito para o Irã: "As guardas revolucionárias descobriram que o Estreito de Ormuz é muito mais importante para a revolução do que o acordo nuclear, pois por meio dele podem controlar o tráfego de energia mundial e provar que têm força contra os Estados Unidos."

Khouri também apontou uma divisão interna no Irã, com as guardas revolucionárias agindo de forma independente em relação à ala política que negociou o memorando de entendimento.

 

Rotas alternativas e negociações em curso

Diante da instabilidade, países da região buscam alternativas ao estreito. Lourival Sant'Anna informou que os Emirados Árabes estão ampliando a capacidade de um oleoduto que leva petróleo a um porto fora do Estreito de Ormuz, com escoamento direto pelo Golfo de Omã.

A Arábia Saudita, por sua vez, está duplicando a capacidade do oleoduto que liga o Golfo Pérsico ao Mar Vermelho. Rotas do Kuwait e do Bahrein ao Mediterrâneo também estão sendo exploradas. Contudo, o analista advertiu que "com exceção dos Emirados Árabes, as outras soluções levam anos e não meses".

Lourival revelou que estão em curso tratativas para o estabelecimento de uma linha direta de comunicação militar entre Estados Unidos e Irã — a primeira desde a invasão da embaixada americana em Teerã, em 1979.

"Está se tentando estabelecer uma 'hotline' entre os militares americanos e iranianos para troca de garantias, que seria o ponto de partida para uma negociação e a estabilização do Estreito de Ormuz", afirmou, ao mesmo tempo em que ressaltou que os ataques americanos continuam.

Caminho para uma solução

Para Lourival Sant'Anna, uma solução passa por endereçar as demandas de segurança da Guarda Revolucionária iraniana. Segundo ele, embora o memorando de entendimento já contemple interesses do governo civil iraniano — como o fluxo de dólares, a criação de um fundo de US$ 300 bilhões para reconstrução do país, a suspensão de sanções e o descongelamento de depósitos bancários —, os militares da Guarda Revolucionária exigem garantias de que o Irã não voltará a ser atacado.

"Há uma crise de confiança", disse Sant'Anna, lembrando que o Irã foi atacado enquanto negociava e que Trump rompeu o acordo nuclear em 2018. O analista afirmou ainda que será necessário "um grande arranjo securitário, uma nova ordem securitária regional" para aplacar a Guarda Revolucionária, envolvendo todos os países da região.

Najad Khouri, por sua vez, alertou que a situação permanece imprevisível: "Temos acordo, mas vamos um atacar o outro e vamos ver quem vai prevalecer no final, ou se realmente pode escalar para um confronto maior".

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