Autor de dossiê sobre Trump e Rússia reafirma denúncias em 1ª grande entrevista

Dossiê não verificado de Steele se tornou um dos aspectos mais controversos da investigação do FBI sobre Trump e a Rússia

Ex-presidente dos EUA Donald Trump durante conferência em Orlando
Ex-presidente dos EUA Donald Trump durante conferência em Orlando REUTERS

Aaron PellishJeremy Herbda CNN

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O ex-oficial da inteligência britânica Christopher Steele, o homem por trás do “dossiê Steele”, ou “dossiê Trump”, que alegava que as autoridades russas detinham informações comprometedoras sobre o ex-presidente Donald Trump, defendeu as afirmações feitas no documento em sua primeira entrevista para a câmera desde que os arquivos foram revelados, em 2017.

Em um clipe de um documentário da rede de televisão ABC News lançado neste domingo (17), Steele diz que decidiu dar uma entrevista agora porque queria “esclarecer as coisas” sobre seu papel na investigação em torno da interferência russa nas eleições de 2016.

A ABC exibiu uma parte do documentário com pedaços da entrevista de Steele no domingo, e o programa completo deve ser lançado no Hulu na manhã da segunda-feira.

“A maior parte do mundo ouviu seu nome pela primeira vez há cerca de cinco anos, mas você ficou em silêncio esse tempo todo. Por que falar agora?”, perguntou o apresentador George Stephanopoulos.

“Acho que o primeiro e mais importante [motivo] é que os problemas que identificamos em 2016 não foram embora e, na verdade, pioraram, então achei que era importante esclarecer tudo”, disse Steele.

O dossiê não verificado de Steele se tornou um dos aspectos mais controversos da investigação do FBI sobre Trump e a Rússia, que levou à investigação do procurador especial Robert Mueller.

Muitas das afirmações, como a do caso que ficou conhecido como “fita do xixi”, nunca foram provadas, apesar dos esforços do FBI em verificar as acusações e de anos de investigações no Congresso sobre as denúncias envolvendo o ex-presidente e a Rússia.

O relatório de Mueller também concluiu que outra alegação feita por Steele – que o ex-advogado de Trump, Michael Cohen, viajou para Praga em 2016 para se encontrar com autoridades russas – era falsa.

Steele reforçou sua crença de que a maioria das afirmações feitas no dossiê são precisas. “Eu garanto o trabalho que fizemos, as fontes que tivemos e o profissionalismo que aplicamos a ele”, disse Steele.

O uso do dossiê de Steele pelo FBI para obter um mandado de vigilância sobre o ex-assessor de campanha de Trump, Carter Page, foi o assunto de um contundente relatório do Departamento de Justiça divulgado em 2019.

O relatório concluiu que a investigação do FBI na Rússia foi iniciada de maneira adequada, mas levantou sérias questões sobre as fontes de Steele para o dossiê, incluindo o fato de que sua fonte primária disse ao FBI que eles podem ter falado sobre as supostas atividades sexuais de Trump “em tom de brincadeira” e que a fita era “boato e especulação”.

Steele reafirmou sua confiança na denúncia mais polêmica do dossiê – que a Rússia tinha um vídeo de Trump assistindo a prostitutas urinarem em uma suíte de hotel, de acordo com o portal BuzzFeed News, que publicou o dossiê completo.

Em janeiro de 2017, a CNN relatou que altos funcionários da inteligência levaram ao então presidente Trump as informações do dossiê Steele. Não há evidências de que a fita exista, e Trump negou que o suposto incidente tenha ocorrido.

Steele disse acreditar que é muito provável que a Rússia mantenha informações comprometedoras contra Trump, e, quando perguntado pela ABC se realmente acredita que a Rússia tenha uma fita de Trump com prostitutas em um hotel russo, Steele disse que a gravação “provavelmente” existe, mas que a Rússia avaliou que “não precisava ser divulgada”.

“E hoje, você ainda acredita que essa fita existe?” Stephanopoulos perguntou.

“Eu acho que provavelmente sim, mas não colocaria 100% de certeza”, diz Steele.

“Então como você explica o fato de a fita não ter vindo a público, se ela realmente existe?” Stephanopoulos pergunta.

“Bem, não foi necessário que fosse divulgada”, responde. “Acho que os russos julgavam que já tinham conseguido bastante de Donald Trump quando ele foi presidente dos Estados Unidos.”

Steele também defendeu muitas das afirmações colocadas em seu dossiê inicial, incluindo a viagem de Cohen a Praga. Cohen negou sob juramento ter viajado para a República Tcheca durante uma audiência no Congresso em 2019 e tem cooperado com os investigadores que estão investigando Trump. O relatório de 2019 do inspetor-geral do Departamento de Justiça mostrou que o FBI provou que Cohen não viajou para Praga em 2016.

Steele ponderou que Cohen ainda pode estar mentindo sobre a viagem a Praga, apesar de cooperar com os investigadores em outros assuntos, dizendo que a viagem a Praga seria “autoincriminadora em um grau muito grande”.

“Desde que ele foi para a prisão, depois que se voltou contra o presidente Trump, ele contou todas as histórias. Por que não admitiria isso?”, perguntou Stephanopoulos.

“Eu acho que é muito incriminador e degradante”, disse Steele. “E a outra razão é que ele pode estar com medo das consequências.”

Em uma declaração à CNN, Michael Cohen refutou as afirmações de Steele, dizendo: “Aguardo ansiosamente seu próximo dossiê secreto provando a existência do Pé Grande, o monstro de lago Ness e que Elvis ainda está vivo.”

Quando perguntado se a credibilidade de seu dossiê ficou abalada depois de o Departamento de Justiça não conseguir comprovar as alegações sobre a viagem de Cohen para Praga, Steele diz que ainda “está para ser convencido” de a viagem não existiu.

“Eu estou preparado para aceitar que nem todas as coisas no dossiê são 100% precisas. Preciso ainda ser convencido de que esta é uma delas”, disse Steele.

(Matéria traduzida, clique aqui e leia a original em inglês)

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