Avanço das negociações de paz na Ucrânia é improvável, avalia professor

À CNN Rádio, Vitélio Brustolin explicou que russos não aceitam a adesão ucraniana na Otan e esperam que o inverno prolongue o conflito

Ricardo Gouveia, da CNN, Em São Paulo
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O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, apresentou nesta terça-feira (15) um plano com dez pontos para acabar com a guerra com a Rússia. O detalhamento foi feito virtualmente durante a cúpula do G20, realizada em Bali, na Indonésia. 

Apesar do plano, o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) Vitélio Brustolin considera improvável que as negociações de paz avancem entre ucranianos e russos no curto prazo.  

Entre as propostas de Zelensky, não há compromisso de neutralidade ucraniana em relação à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), nem reconhecimento da independência de territórios ocupados pelas forças russas.

“Moscou afirma que os termos de Zelensky não são realistas e que Kiev claramente não quer negociar”, alegou Brustolin à CNN Rádio. O professor ainda informou que existe uma negociação sendo feita a portas fechadas entre os países da Otan e a Rússia. 

Entre as propostas estão a de que o governo ucraniano reconheça uma parte de Donbass, onde já havia uma guerra civil, como território independente ou russo. Em contrapartida, a Ucrânia entraria na Otan. Até porque a desvinculação da Ucrânia de conflitos internos abriria caminho para a adesão à aliança militar, que só aceita países livres de guerras civis.

Outra proposta, favorável ao presidente russo, é de que Vladimir Putin não seria acusado de ter cometido crimes de guerra. “É muito provável que os russos não aceitem isso por enquanto”, analisa Brustolin. “A Rússia vem empurrando com a barriga porque Putin espera que o inverno vá literalmente congelar a situação desta guerra.  

Por outro lado, o professor afirma que os ucranianos vivem um momento favorável na guerra, principalmente depois da retomada de Kherson, no leste do país. A cidade tem posição estratégica e fica num dos territórios que os russos já consideravam anexados. Kherson tem um duto que fornece água para a Crimeia, e pode ser fechado pelos ucranianos. A proximidade também permite que a artilharia das Forças Armadas da Ucrânia atinja mais pontos da península, ocupada pela Rússia desde 2014. 

“Se a Ucrânia conseguir empurrar as tropas russas mais para trás e continuar os ganhos de território, vai conseguir acessar a Crimeia”, indica o professor de Relações Internacionais da UFF.  

Brustolin ressaltou que a população que havia deixado Kherson ainda não deve retornar por medo de bombardeios russos. Já população que permaneceu na cidade, até aqueles que apoiam a operação militar da Rússia, deve se voltar ainda mais contra o Exército de Putin, que se retirou promovendo saques.