Biden prevê invasão russa à Ucrânia e diz que “incursão” pode ter resposta menor

Fontes na Ucrânia temem que avaliação do presidente americano dê "passe verde" para a invasão do país

Kevin Liptakda CNN

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O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, previu nesta quarta-feira (19) que a Rússia “vai atacar” a Ucrânia, citando preocupações existenciais do presidente do país, Vladimir Putin, mesmo alertando sobre consequências econômicas significativas caso isso ocorra.

Porém, Biden sugeriu que uma “pequena incursão” pode provocar uma resposta menor do que uma invasão em grande escala do país.

“Não tenho tanta certeza do que ele vai fazer. Meu palpite é que ele vai atacar. Ele tem que fazer alguma coisa”, disse Biden, descrevendo um líder em busca de relevância em um mundo pós-soviético. “Ele está tentando encontrar seu lugar no mundo entre a China e o Ocidente”, acrescentou

A previsão de Biden de uma invasão é o reconhecimento mais firme até o momento de que os Estados Unidos esperam que Putin aja depois de reunir 100 mil soldados ao longo da fronteira com a Ucrânia.

Depois de falar com Putin duas vezes no mês passado, Biden disse acreditar que seu colega russo tinha um bom entendimento das sanções econômicas que ele estava se preparando para decretar.

“Ele nunca viu sanções como as que prometi que serão impostas se ele agir, esse é o primeiro ponto”, disse ele, acrescentando que o nível de punição dependerá de como for a invasão da Rússia.

“Uma coisa é se for uma pequena incursão e acabarmos tendo que brigar sobre o que fazer e o que não fazer etc”, colocou.

“Mas se eles realmente fizerem o que são capazes de fazer com as forças acumuladas na fronteira, será um desastre para a Rússia se invadirem ainda mais a Ucrânia. E nossos aliados e parceiros estão prontos para impor medidas severas e prejudicar a Rússia e a economia russa”, disse ele.

Isso inclui limitar as transações russas em instituições financeiras dos EUA – “qualquer coisa que envolva denominações em dólares”, disse Biden.

Um oficial ucraniano disse a Matthew Chance, da CNN, que está “chocado que o presidente dos EUA, Biden, distinguiria uma incursão e uma invasão” ao sugerir que uma pequena incursão não desencadearia sanções, apenas uma invasão.

“Isso dá luz verde a Putin para entrar na Ucrânia como bem entender”, acrescentou.

O militar ucraniano disse que nunca ouviu nenhuma nuance como essa do governo dos EUA antes.

“Kiev está atordoada”, acrescentou, referindo-se ao governo ucraniano.

Ao explicar a referência a uma “pequena incursão”, que levou a uma discussão entre aliados ocidentais sobre como responder ao ataque, Biden sugeriu que a desunião na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) poderia levar a um debate sobre como punir a Rússia por ações na Ucrânia que não cheguem a uma invasão em grande escala.

“Se houver um ponto em que forças russas cruzem a fronteira, matem combatentes ucranianos etc., acho que isso muda tudo”, disse o presidente. “Mas depende do que ele fizer, até que ponto conseguiremos uma unidade total na frente da Otan”, completou.

Um membro das Forças Armadas ucranianas participa de exercícios militares em um campo de treinamento perto da fronteira com a Crimeia, anexada à Rússia na região de Kherson, Ucrânia, em 17 de novembro de 2021 / General Staff of The Armed Forces of Ukraine via Reuters

“É muito importante mantermos todos na Otan na mesma página. É isso que estou gastando muito tempo fazendo, e há diferenças. Existem diferenças na Otan quanto ao que os países estão dispostos a fazer, dependendo do que acontecer”, pontuou o presidente.

Emily Horne, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional de Biden, disse no Twitter que ele “estava se referindo à diferença entre ação militar e não militar/paramilitar/cibernética dos russos com aliados e parceiros”.

O presidente também alertou que vidas russas seriam perdidas em uma invasão, juntamente com possíveis baixas ucranianas.

“Há custo para entrar na Ucrânia em termos de perda física de vidas para os russos – eles poderão prevalecer com o tempo, mas será pesado”, disse. “Vai ser real. Vai ter consequências. Putin tem uma escolha difícil. Ou a desescalada [da violência] e diplomacia ou confronto e consequências.”

“Isso não será fácil para a Rússia”, continuou ele. “Militarmente, eles têm uma superioridade esmagadora. E no que diz respeito à Ucrânia, eles pagarão um preço alto imediatamente, no curto, médio e longo prazo, se o fizerem”.

Biden especulou que Putin não estava buscando “nenhuma guerra total”, mas disse acreditar que estava procurando algum tipo de confronto.

“Acho que ele vai testar o Ocidente? Testar os Estados Unidos e a Otan o mais significativamente que puder? Sim, acho que ele vai. Mas acho que ele vai pagar um preço alto e caro por isso”, afirmou Biden

“Ele não acha agora que vai lhe custar o que vai custar. E eu acho que ele vai se arrepender de ter feito isso”, pontuou.

Biden, mais tarde, reconheceu a incerteza em torno da situação.

“A única coisa em que estou confiante é que a decisão é totalmente, exclusivamente, completamente de Putin. Ninguém mais vai tomar essa decisão. Ninguém mais vai impactar ela. Ele está tomando essa decisão. E suspeito que importa qual lado da cama em que ele se levanta de manhã para saber exatamente o que vai fazer”, disse Biden.

O presidetne afirmou que altos funcionários dos EUA que se reuniram recentemente com seus colegas russos saíram das negociações sem saber se alguém além de Putin realmente sabia o que ele planejava fazer.

“Acredito que ele esteja calculando quais serão as consequências de curto, médio e longo prazo para a Rússia. E não acho que ele tenha se decidido ainda”, analisou.

A previsão de Biden veio depois que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, pediu, também nesta quarta-feira (19), aos ucranianos que não entrem em pânico e se “acalmem” com os temores de uma possível invasão russa.

“Todos os nossos cidadãos, especialmente os idosos, precisam entender isso: todos precisam respirar fundo. Acalme-se. Não corra para adquirir suprimentos de emergência, como trigo e fósforos. Para toda a mídia: permaneça como mídia, não se torne uma fonte de histeria coletiva. Não ajude o inimigo na busca por agitação informando diariamente que a guerra pode acontecer amanhã! Isso definitivamente não vai impedi-la”, colocou Zelensky.

“O que há de novo aqui? Essa não é a realidade dos últimos oito anos? A invasão não começou em 2014? A ameaça da guerra surgiu agora?”, indagou. A única razão para “pânico é que depois de oito anos ainda somos influenciados por ele”, acrescentou.

Zelensky disse que o “objetivo da Rússia é enfraquecer a Ucrânia” para forçar Kiev a ceder a Moscou e “criar um pano de fundo em que nosso ‘não’ pareça mais fraco”.

O líder ucraniano disse que Moscou está “atacando ativamente seus nervos, não nosso estado. Para que você tenha uma sensação constante de pânico”.

Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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