Com independência, Rússia não esconderá soldados em regiões separatistas, diz cientista

Em entrevista à CNN, Vicente Ferraro afirmou que já havia presença militar direta e indireta da Rússia nas regiões, mas agora ela poderá ser mais exposta

Ludmila Candal e Luana Franzão, da CNN, Em São Paulo
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O presidente russo Vladimir Putin reconheceu a independência de duas regiões separatistas da Ucrânia, Donetsk e Luhansk, nesta segunda-feira (21). A atitude provocou sanções do Ocidente e permite maior liberdade das forças russas na região, de acordo com Vicente Ferraro, mestre em Ciência Política e pesquisador do Laboratório de Estudos da Ásia da USP.

Ferraro destacou que já havia presença militar da Rússia nessas áreas, e "não teriam se sustentado independentes até o momento sem a ajuda russa" – ou seja, a guerra entre separatistas russos e a Ucrânia já era uma realidade no Leste do país. "A grande preocupação do Ocidente é a expansão [do conflito] para além dessas regiões".

"O que muda, principalmente, é que a Rússia não precisa mais esconder os seus militares. Ela pode inclusive, através de um acordo de defesa, instalar bases militares oficiais nessas regiões separatistas. Ou seja, haveria um processo de legitimar e até mesmo acirrar a presença militar russa nessas regiões".

Poucas horas depois de reconhecer a independência de Donetsk e Luhansk, Putin ordenou o envio do que classificou como "forças de paz" para a região.

O especialista afirmou que para o Direito Internacional, e consequentemente para a Ucrânia, a chegada dessas tropas poderia ser classificada como invasão, uma vez que a maior parte dos países não reconhece as regiões como repúblicas independentes, e sim como uma fatia do território ucraniano.

"A questão muda dentro da própria Rússia. Uma vez que a Rússia reconheceu essas duas regiões como independentes, para a população russa, essa intervenção do governo e dos militares russos teria uma legitimidade maior", disse.

Ferraro delineou quatro cenários possíveis para o futuro das tensões entre Rússia, Ucrânia e o Ocidente.

O primeiro seria uma presença militar e política maior da Rússia no Leste da Ucrânia e nas regiões separatistas. "O conflito passaria a não ser mais entre Ucrânia e separatistas, mas sim entre, possivelmente, o exército ucraniano e o russo."

Uma segunda possibilidade seria a expansão das fronteiras administrativas desses territórios reconhecidos como independentes. Um terceiro cenário seria semelhante: a tentativa de incorporação de outras regiões com ideias separatistas russas. "Apesar de a polarização na sociedade ucraniana ter diminuído desde 2014, ainda há sentimentos pró-Rússia em algumas outras regiões do Leste, cuja a população é de língua ou de etnia russa. Pode ser que os separatistas tentem se expandir para essas outras regiões com o apoio da Rússia, e isso seria uma guerra de proporções maiores [com a Ucrânia]", esclareceu.

"Um último cenário que eu avalio seria a incorporação dessas regiões à Rússia, como ocorreu com a Crimeia em 2014, com a condução de referendos e outros procedimentos. Vale lembrar que a Rússia já emitiu cerca de 800 mil documentos de cidadania para residentes desssas duas regiões, e cerca de 1 milhão e 200 mil cidadãos dessas regiões já pediram o ingresso na obtenção da cidadania russa. Seria algo não tão viavel a longo prazo, mas que não é descartável".