COP 26: Novo rascunho de acordo mantém referência inédita a combustíveis fósseis

Texto foi atenuado, em comparação com primeiro esboço apresentado na quarta-feira (10), após pressão de produtores de carvão, petróleo e gás

COP26 apresentou novo rascunho de acordo nesta sexta, com atenuações em partes do texto, mas mantendo referência a combustíveis fósseis
COP26 apresentou novo rascunho de acordo nesta sexta, com atenuações em partes do texto, mas mantendo referência a combustíveis fósseis Kiara Worth - 11.nov.2021/UNFCCC

Ivana KottasováAngela DewanHelen Reganda CNN

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Uma nova versão do rascunho do acordo COP26 foi publicada na manhã desta sexta-feira (12) e mantém uma referência sem precedentes aos combustíveis fósseis, apesar de uma ampla campanha dos principais produtores de carvão, petróleo e gás para sua remoção completa.

O conteúdo deste rascunho, no entanto, é mais fraco do que a anterior, usando uma linguagem mais atenuada que, em alguns casos, pode estar aberta a diferentes interpretações.

O rascunho foi divulgado no último dia da Cúpula do Clima em Glasgow, realizada ao longo de quase duas semanas, mas ainda não é o texto final – é necessário que todas as 197 partes presentes concordem com ele, e é possível que outros trechos sejam atenuados.

Manter alguma menção aos combustíveis fósseis, no entanto, aumenta a pressão sobre os principais produtores de carvão, petróleo e gás, como Arábia Saudita, China, Rússia e Austrália, que tentam enfraquecer ou remover esse ponto, de acordo com duas fontes familiarizadas com as conversas.

Funcionários dos quatro países não responderam ao pedido da CNN para comentar o assunto.

A pressão sobre os produtores de combustíveis fósseis, no entanto, para que o tom do documento nessa questão não seja alterado está aumentado.

O novo texto da COP26 pede a aceleração da “eliminação progressiva da energia a carvão sem emissões compensadas e de ineficientes subsídios para os combustíveis fósseis”.

O acréscimo do termo “sem emissões compensadas” significa essencialmente que os países podem continuar a usar carvão se forem capazes de capturar grandes quantidades do dióxido de carbono que emitem.

O conceito é controverso, pois a tecnologia para capturar totalmente os gases do efeito estufa ainda está em desenvolvimento. E “ineficiente” também foi adicionado, deixando essa parte do acordo bastante aberta a interpretação.

No entanto, se alguma linha sobre combustíveis fósseis for mantida, seria o primeiro acordo climático da Conferência das Partes a fazer qualquer menção ao papel do carvão, petróleo e gás, os maiores contribuintes para a crise climática de origem humana.

Membros da sociedade civil fazem protesto na COP26 pedindo saída de representantes de países poluidores das negociações
Membros da sociedade civil fazem protesto na COP26 pedindo saída de representantes de países poluidores das negociações / Kiara Worth – 11.nov.2021/UNFCCC

“É sempre uma espécie de troca, equilíbrio. O fato de incluirmos a eliminação dos subsídios aos combustíveis fósseis e o carvão no texto é realmente novo e importante”, disse Helen Mountford, vice-presidente de clima e economia da World Resources Institute, em um briefing.

“O fato de eles terem adicionado ‘sem emissões compensadas’ na frente do carvão e ‘ineficiente’ na frente dos subsídios aos combustíveis fósseis, em comparação com o texto de alguns dias atrás, definitivamente leva o texto negociado para um tom confortável de outros fóruns. Portanto, eu esperaria que alguns países como a Arábia Saudita estivessem pressionando para adicionar o ineficiente antes dos subsídios aos combustíveis fósseis.”

Embora seja um progresso no nível político, o acordo é muito mais fraco do que o que os cientistas dizem ser necessário para que o mundo contenha o aquecimento global a 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais.

O mais recente relatório de ciências climáticas da ONU mostrou que o mundo precisa reduzir quase pela metade as emissões nesta década para manter esse limite dentro do alcance.

Diminuição do tom

A linguagem do novo projeto de acordo é mais suave em comparação com a primeira iteração em várias seções. Isso normalmente é esperado nas negociações climáticas, e o acordo final pode ser ainda mais fraco.

Enquanto o primeiro rascunho do acordo “instava” os países a voltarem com metas mais rígidas de corte de emissões até o final do ano que vem, o novo apenas “pede” que o façam.

E enquanto o primeiro rascunho “observou com séria preocupação” que o dinheiro fornecido aos países em desenvolvimento para lidar com a crise climática era insuficiente, o último rascunho apenas omite a palavra “séria”. A questão de quem deve pagar pelos impactos da crise tornou-se o principal obstáculo das negociações.

Os apelos para que os países mais ricos do mundo forneçam mais dinheiro se fortaleceram um pouco na segunda versão preliminar, no entanto, estabelecendo prazos mais específicos e exortando os países desenvolvidos a pelo menos dobrar a quantia de dinheiro transferida para o mundo em desenvolvimento até 2025 para ajudá-los a se adaptar à crise.

O dinheiro para adaptação havia se tornado o principal obstáculo para as negociações.

O rascunho de acordo desta sexta, publicado pela presidência da COP26, também mantém no texto o trecho que diz que o mundo deveria ter como objetivo limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais.

O documento “reconhece que os impactos das mudanças climáticas serão muito menores no aumento da temperatura de 1,5°C em comparação com 2°C e resolve buscar esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C”.

Para fazer isso, “reduções rápidas, profundas e sustentadas nas emissões globais de gases de efeito estufa” são necessárias, diz o documento.

Esse tom está em linha com os últimos dados da ciência, que mostram que o mundo deve limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais para evitar que a crise climática se agrave e se aproxime de um cenário catastrófico.

Uma análise publicada na terça-feira indicou que o mundo está no caminho para um aquecimento de 2,4 graus Celsius. Isso significaria que os riscos de secas extremas, incêndios florestais, inundações, aumento catastrófico do nível do mar e escassez de alimentos aumentariam dramaticamente, dizem os cientistas.

(Texto traduzido; leia o original em inglês)

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