De “emissões líquidas zero” a “mitigação”: conheça os termos do clima

Conheça termos fundamentais para acompanhar as discussões, entender o que está em jogo na COP 26 e, o mais importante, parecer inteligente na mesa de jantar quando alguém falar do tema

Emissões de gases afetam o meio ambiente e impactam diretamente nas mudanças climáticas
Emissões de gases afetam o meio ambiente e impactam diretamente nas mudanças climáticas Foto: SD-Pictures/Pixabay

Laura Smith-Sparkda CNN

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O mundo inteiro parece estar falando sobre a crise climática, depois de meses de clima descontrolado e novas evidências científicas mostrando que precisamos agir mais rápido do que pensávamos anteriormente para evitar o pior.

Líderes mundiais se preparam para se reunir em Glasgow, na Escócia, no mês que vem, para negociações críticas — e que serão repletas de muitos jargões técnicos. A terminologia não é particularmente comunicativa e pode ser assustadora.

Até mesmo o nome da cúpula — COP26 — soa mais como um drama policial ruim do que um evento climático. Segue, então, o primeiro ponto: COP é a abreviatura de Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Reúne líderes globais, cientistas e negociadores sobre clima e geralmente ocorre anualmente. O “26” significa que a reunião de Glasgow será o 26º encontro.

Abaixo, conheça outros termos fundamentais para acompanhar as discussões, entender o que está em jogo e, o mais importante, parecer inteligente na mesa de jantar quando alguém falar do tema.

Emissões líquidas zero

As emissões líquidas zero podem ser alcançadas removendo-se da atmosfera tanto gás de efeito estufa quanto o que é emitido, de modo que a quantidade líquida adicionada é zero. Para fazer isso, os países e as empresas precisarão contar com métodos naturais (como plantar árvores ou restaurar pastagens) para absorver o dióxido de carbono (CO2), o gás de efeito estufa mais abundante que emitimos, ou usar tecnologia para “capturar’ o gás e armazená-lo onde não escape para a atmosfera.

Dezenas de países já se comprometeram a atingir emissões líquidas zero até meados do século e há uma enorme pressão sobre os países que ainda não o fizeram até a COP26.

Emissões negativas

Para salvar o mundo dos piores efeitos da mudança climática, os cientistas dizem que provavelmente não é suficiente chegar às emissões líquidas zero. As emissões líquidas negativas são aquela situação em que a quantidade de gás de efeito estufa removida da atmosfera é realmente maior do que a quantidade que os humanos emitem em um determinado período.

Sumidouros de carbono

Árvores
Foto: @tbzr/Unsplash

Um sumidouro de carbono é um reservatório que absorve dióxido de carbono da atmosfera e o retém.

Sumidouros naturais, como árvores e outros tipos de vegetação, removem o CO2 da atmosfera por meio da fotossíntese – as plantas usam o dióxido de carbono da atmosfera para crescer. O oceano também é um grande sumidouro de carbono por causa do fitoplâncton que, como planta, também absorve dióxido de carbono.

Os cientistas dizem que a preservação e expansão de sumidouros naturais, como florestas, são cruciais para reduzir as emissões.
Existem também sumidouros artificiais de carbono que podem armazenar carbono e mantê-lo fora da atmosfera. Mais sobre isso abaixo.

Captura e armazenamento de carbono

A tecnologia para remover e conter o dióxido de carbono da atmosfera é conhecida como captura e armazenamento de carbono, ou CCS na sigla em inglês. O carbono é normalmente capturado na fonte (ou seja, diretamente do carvão, óleo ou gás enquanto é queimado), mas uma nova tecnologia está sendo desenvolvida para sugar literalmente o carbono do ar.

Em ambos os casos, o carbono pode ser armazenado: ele geralmente é enterrado em reservatórios subterrâneos ou abaixo do fundo do mar, nos chamados sumidouros artificiais de carbono. Alguns cientistas alertam que pode ser arriscado injetar tanto carbono no subsolo, e esse processo não é usado atualmente em grande escala.

O Global CCS Institute diz que apenas 27 instalações comerciais estão em pleno funcionamento em todo o mundo, enquanto mais de 100 outras estão em desenvolvimento. Mas outros especialistas dizem que o CCS é necessário para reduzir as nossas emissões.

Existem muitas maneiras de capturar e armazenar carbono; aqui estão algumas delas:

  • Captura e armazenamento de dióxido de carbono (CCS): é um processo no qual o CO2 produzido pela indústria pesada ou usinas de energia é coletado diretamente no ponto de emissão, comprimido e transportado para armazenamento em formações geológicas profundas;
  • captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS): refere-se à coleta de CO2 de fontes industriais, que é então usado para criar produtos ou serviços, como a fabricação de fertilizantes ou na indústria de alimentos e bebidas. Um fato curioso: Este CO2 pode ser bombeado em sua cerveja para torná-la borbulhante;
  • captura e armazenamento direto de ar (DACS, DAC ou DACC): é um processo químico que remove o CO2 diretamente do ar para armazenamento. Havia 15 usinas de captura direta do ar operando em todo o mundo, de acordo com o relatório de junho de 2020 da Agência Internacional de Energia (IEA).

NDCs

Contribuição Nacionalmente Determinada (ou NDC, na sigla em inglês) é um termo usado pela ONU para o plano nacional individual de cada país para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

No Acordo de Paris de 2015, que quase todo o mundo assinou, os países tiveram a liberdade de determinar por si próprios como fariam para cumprir as principais metas do acordo para desacelerar o aquecimento global.

As NDCs devem ser atualizados a cada cinco anos e submetidas à ONU, com a ideia de que a ambição de cada país crescerá com o tempo. Dezenas de países não enviaram suas atualizações antes da COP26.

Níveis pré-industriais

Planta de indústria química da ExxonMobil
Getty Images

O termo geralmente se refere à concentração média de dióxido de carbono na atmosfera antes da Revolução Industrial, que começou no final do século 18. Os níveis de CO2 daquela época são estimados em cerca de 280 partes por milhão. Em 2020, essa concentração aumentou para 412,5 partes por milhão, de acordo com dados do governo dos EUA.

Os cientistas também falam sobre níveis pré-industriais para temperaturas médias, usando o período de 1850-1900 para determinar o quão quente ou fria a Terra era antes de os humanos começarem a emitir gases de efeito estufa em volumes maiores, como os que vemos hoje.

1,5ºC

Um dos principais objetivos do presidente da COP26, Alok Sharma, um parlamentar britânico, é “manter vivo o 1,5”, referindo-se à meta de manter o aumento da temperatura média global em 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais.

É um alvo que alguns países produtores de combustíveis fósseis resistiram. Mas os cientistas alertaram sobre impactos significativamente piores se este limite for violado.

Os países que assinaram o Acordo de Paris em 2015 concordaram em limitar o aumento das temperaturas globais bem abaixo de 20 C acima dos níveis pré-industriais, mas preferencialmente a 1,50 C.

No entanto, uma análise divulgada no mês passado pelo Climate Action Tracker (CAT) descobriu que nenhuma grande economia — incluindo todos os países do G20 — tinha um plano climático que cumprisse suas obrigações sob o Acordo de Paris.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas disse em seu último relatório de estado da ciência que o mundo já aqueceu 1,10 C acima dos níveis pré-industriais, e está agora subindo rápido em direção a 1,5 grau.

Finanças climáticas

Mais de 10 anos atrás, na COP16, em Cancún, no México, o mundo desenvolvido concordou em transferir dinheiro aos países em desenvolvimento para ajudá-los a limitar ou reduzir suas emissões de gases de efeito estufa e se adaptar à crise climática.

Eles configuraram o Fundo Verde para o Clima (GCF na sigla em inglês) para facilitar parte dessa transferência, mas os países e doadores podem enviar dinheiro por qualquer meio que quiserem.

O dinheiro deveria aumentar e chegar a US$ 100 bilhões (cerca de R$ 548 bilhões) anuais até 2020, e esse compromisso foi reafirmado no Acordo de Paris. A quantia é geralmente conhecida como “financiamento climático”.

Mas a meta de 2020 foi perdida e preencher a lacuna é uma prioridade na agenda das negociações em Glasgow.

As nações em desenvolvimento, especialmente as do Sul Global, que são mais vulneráveis aos efeitos da mudança climática, argumentam que as nações industrializadas são historicamente mais responsáveis pelas mudanças climáticas e devem fazer mais para financiar as mudanças que as ajudem a se adaptarem.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, prometeu dobrar os planos de contribuição existentes no país, incluindo dinheiro para o Fundo Verde para o Clima, em discurso na Assembleia Geral da ONU em setembro. Alguns críticos dizem que ele deveria se comprometer mais para compensar os anos do governo de Donald Trump, quando nenhum dinheiro foi pago ao fundo.

Adaptação

O termo adaptação se refere à maneira como os humanos podem mudar suas vidas para lidar melhor com os impactos das mudanças climáticas. Isso pode incluir a construção de sistemas de alerta precoce para inundações ou barreiras para se defender contra a elevação do nível do mar, por exemplo.

Em alguns lugares onde as chuvas estão diminuindo, o plantio de variedades resistentes à seca pode ajudar a garantir que as comunidades tenham alimentos suficientes.

Mitigação

Energia eólica
Torrres de geração de energia eólica / Foto: Laurel and Michael Evans / Unsplash

Simplificando, o termo mitigação se refere a como os humanos podem reduzir as emissões de gases de efeito estufa, ou removê-los da atmosfera, para amenizar as consequências das mudanças climáticas.

Os exemplos incluem o uso de combustíveis fósseis como carvão, óleo e gás de maneira mais eficiente para processos industriais; troca de carvão e gás por fontes de energia renováveis, como eólica ou solar para eletricidade; escolha de transporte público para deslocamento no lugar de veículos particulares que funcionam com gasolina ou diesel; e expansão de florestas e outros meios de absorção de carbono.

Carvão que não compensa emissões

Você pode ter ouvido falar sobre o carvão que não compensa as emissões. Esse tipo de carvão é aquele queimado em usinas de energia onde nenhuma ação (ou “redução”) é tomada para reduzir os gases de efeito estufa emitidos por seu uso. Em suma, isso cria uma brecha para usinas termoelétricas em um mundo de emissões líquidas zero.

Muitas poucas usinas a carvão no mundo, entretanto, estão usando tecnologias de redução de emissão desse carvão, já que a transição para energias renováveis é frequentemente mais barata a longo prazo do que usar tais tecnologias.

No relatório “Net Zero by 2050” (“Emissão líquida zero até 2050”), de 2021, a Agência Internacional de Energia declara que uma “mudança rápida” será necessária longe dos combustíveis fósseis para atingir a meta, exigindo etapas como “eliminar gradualmente todas as usinas movidas a carvão e petróleo até 2040”.

EVs

Veículo elétrico da Mercedes-Benz no salão do automóvel de Toronto, Canadá / 13/02/2019 REUTERS/Mark Blinch

A sigla representa simplesmente veículos elétricos.

À medida que a eletricidade gerada por fontes renováveis, como eólica e solar, se torna mais disponível, espera-se que as pessoas comecem a comprar veículos elétricos em maior número, especialmente com os carros mais acessíveis. Isso significará menos automóveis movidos a petróleo nas estradas, que é outro tema da pauta da COP26.

Também pode haver referências a PHEVs, ou veículos elétricos híbridos plug-in, que são em sua maioria alimentados por uma bateria carregada de uma fonte elétrica, mas também têm um motor de combustão interna híbrido para permitir viagens em distâncias mais longas.
Transição justa

O termo explica a ideia de que as mudanças drásticas necessárias para combater as mudanças climáticas devem ser justas para todos.

Como o grupo de campanhas ambientalistas Greenpeace diz: “Simplificando, uma transição justa significa mudar para uma economia ambientalmente sustentável (essa é a parte da ‘transição’) sem abandonar trabalhadores de setores poluentes. Seu objetivo é apoiar empregos de boa qualidade e meios de subsistência decentes quando as indústrias poluentes diminuem e outras se expandem, criando uma sociedade mais justa e igualitária – isso é o que a torna ‘justa’”.

Biodiversidade

Amazônia
Floresta Amazônica / Corbis via Getty Images

A biodiversidade se refere a todos os sistemas vivos da Terra, na terra e no mar.

O relatório “Global Biodiversity Outlook”, publicado há pouco mais de um ano, avisou que a aceleração da crise climática estava piorando as perspectivas para a biodiversidade — um risco para todas as árvores, plantas e animais em uma floresta, ou todos os peixes e corais em um recife.

“A biodiversidade está diminuindo a uma taxa sem precedentes e as pressões que impulsionam esse declínio estão se intensificando”, afirmou o documento.

Os desafios incluem perda e degradação de habitat, extinção em massa de espécies, declínio dos pântanos e poluição por plásticos e pesticidas.
No início deste ano, os países do G7 (as sete maiores economias avançadas do mundo) concordaram em conservar 30% da terra e do mar em suas nações para proteger a biodiversidade, uma promessa que eles esperam que seja adotada por mais países na COP26.

Livro de Regras de Paris

Na COP24 de 2018, os líderes mundiais concordaram em apresentar um conjunto de regras destinadas a ajudar a conter o aquecimento global — o chamado Livro de Regras de Paris — que deve colocar em prática o Acordo de Paris. Mas eles não resolveram uma questão crítica, mas complicada, envolvendo como os países negociam e contabilizam certos tipos de poluição.

O presidente da COP26, Alok Sharma, tem se mostrado muito frustrado com o fato de, seis anos depois de Paris, o Livro de Regras ainda estar inacabado.

“Isso deve ser resolvido se quisermos liberar todo o poder do Acordo de Paris”, declarou no início de outubro.

Organizadores da COP26 dizem que as prioridades do Livro de Regras são:

  • encontrar uma solução para os mercados de carbono criando um sistema robusto de créditos de carbono;
  • resolver os problemas de transparência, estabelecendo um sistema que incentive todos os países a cumprirem seus compromissos;
  • intermediar um acordo que estimule a ambição dos governos de atingir a meta de 1,5ºC.

Ivana Kottasova, da CNN, contribuiu para esta reportagem.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês).

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