Corpos de prisioneiros da Etiópia aparecem flutuando em rio no Sudão

Os contornos fantasmagóricos de braços e pernas emergem através da névoa ao longo do rio Setit, no leste do Sudão

Corpos de prisioneiros etíopes foram encontrados no Sudão
Corpos de prisioneiros etíopes foram encontrados no Sudão Alex Platt/CNN

Nima ElbagirKatie PolglaseBarbara ArvanitidisGianluca Mezzofioreda CNN

Ouvir notícia

Os contornos fantasmagóricos de braços e pernas emergem através da névoa ao longo do rio Setit, no leste do Sudão. À medida que o curso do rio se estreita, os corpos à deriva ficam presos no banco de argila e suas formas aparecem mais claramente. São homens, mulheres, adolescentes e até crianças.

As marcas de tortura são facilmente visíveis em alguns, tais como os braços amarrados atrás, nas costas.

Em uma viagem a Wad El Hilou, uma cidade sudanesa perto da fronteira com a Etiópia, uma equipe da CNN avistou três corpos em um dia.

Testemunhas e autoridades locais no Sudão confirmaram que, nos dias seguintes à partida da equipe de reportagem, mais 11 corpos chegaram pela descida do rio.
Limpeza étnica

As evidências indicam que os mortos são da região de Tigré, na Etiópia. Testemunhas no local dizem que os corpos contam uma história sombria de detenções e execuções em massa na fronteira em Humera, uma cidade em Tigré.

A CNN falou com dezenas de testemunhas que recolheram os corpos no Sudão, bem como especialistas forenses locais e internacionais e pessoas presas e escondidas em Humera, para revelar o que parece ser uma nova fase de limpeza étnica na guerra da Etiópia.

Humera é uma das muitas cidades envolvidas no conflito que devastou o país de 112 milhões de habitantes da África Oriental desde que o governo etíope lançou uma ofensiva na região norte de Tigré em novembro de 2020.

Apesar da declaração inicial de vitória do primeiro-ministro Abiy Ahmed no final de novembro, a região ainda está sofrendo com os combates. A CNN já havia relatado várias atrocidades, incluindo tortura, assassinatos extrajudiciais e o uso de estupro como arma de guerra.

Retirada de militares

No final de junho deste ano, o equilíbrio de poder se alterou subitamente quando as forças de Tigré recapturaram a capital regional, Mekelle, e o governo etíope começou a retirar militares da região.

No entanto, a luta continuou. Em meados de julho, as forças tigrínias anunciaram uma nova ofensiva para recapturar áreas tomadas pelo governo etíope.
Segundo testemunhas, a nova ação foi o que levou as forças do governo e grupos de milícias que controlam a cidade de Humera, perto da fronteira com a Eritreia e o Sudão, a lançar uma nova fase de prisões em massa de residentes de Tigré.

As investigações da CNN indicam que a escolha pelo perfil étnico, seguida de detenção e assassinato, trazem as marcas do genocídio, conforme definido pelo direito internacional.

“Cuidar dos corpos”

Nas últimas semanas, uma comunidade de tigrínios que vive na cidade sudanesa de Wad El Hilou, 65 quilômetros rio-abaixo de Humera, assumiu o papel de coveira para os corpos à deriva no rio conhecido no Sudão como Setit e na Etiópia como Tekeze.

É um trabalho árduo e angustiante. O fedor dos corpos toma o ar quando cada cadáver é retirado do leito do rio. Em seguida, são cavadas novas sepulturas e, por fim, realizados os rituais de sepultamento

Gebretensae Gebrekristos, conhecido como “Gerri”, é um dos líderes da comunidade, ajudando a coordenar a árdua tarefa com uma determinação solene.

O líder comunitário tigrínio Gebretensae Gebrekristos, também conhecido como Gerri, ajuda a coordenar e documentar a recuperação dos corpos no Sudão.
O líder comunitário tigrínio Gebretensae Gebrekristos, também conhecido como Gerri, ajuda a coordenar e documentar a recuperação dos corpos no Sudão / Alex Platt/CNN

No total, a comunidade estima que pelo menos 60 corpos foram encontrados até agora. Ele explicou como o grupo tem certeza de que os corpos são de tigrínios de Humera.

Recebemos ligações de pessoas em Humera contando que testemunhas, muitas delas fugitivos, viram pessoas marcharem até o rio e ouviram tiros, ou que várias pessoas foram tiradas por soldados das prisões e nunca mais voltaram.  Falaram para cuidarmos de seus corpos descendo o rio

Gerri, um dos líderes da comunidade

Os cadáveres apareceram pela primeira vez no Sudão em julho, quando o volume do rio estava mais alto devido à estação das chuvas.

Engenheiros hídricos sudaneses disseram à CNN que a velocidade do fluxo do rio permitia que os corpos fossem transportados de Humera para Wad El Hilou em aproximadamente duas a três horas.

Wad El Hilou é um ponto de estreitamento natural no curso do rio – e assim, quando os corpos chegaram, eles flutuaram em direção às margens.

Fuga dos campos de prisioneiros

Natay, de 16 anos, e Gebrey, de 17, cujos nomes foram mudados para sua segurança, estão entre os tigrínios que disseram ter fugido dos campos de prisioneiros em Humera.

Agora vivendo na região de Wad El Hilou, eles confirmaram à CNN que souberam de homens, com as mãos amarradas, marchando em fila indiana em direção à margem do rio Humera, na área entre duas igrejas católicas. Os dois adolescentes disseram que ouviram tiros e os homens não voltaram.

Natay disse que ficou paralisado: “Eu fiquei com muito medo, achava que eles iam me matar e me jogar no rio também”.

Evidências de tortura

Autoridades sudanesas em Wad El Hilou apresentaram relatórios à polícia e ao serviço médico legal para cada corpo encontrado em seu território.
Eles documentam evidências de tortura extensa e ferimentos de bala em “estilo de execução” em muitos dos corpos, como contaram à CNN.

Tanto as autoridades sudanesas locais quanto os especialistas forenses dizem que todas as vítimas recuperadas até agora estavam provavelmente mortas antes de caírem na água.

Em um comunicado divulgado pela empresa de relações públicas Mercury, o governo etíope disse que estava investigando os casos.

“À luz de várias inconsistências nas alegações, estamos trabalhando com as autoridades competentes para reunir evidências e processar qualquer indivíduo que tenha cometido crimes em toda a extensão da lei”, afirmou um porta-voz.

“O governo deseja reiterar nosso desejo de garantir uma solução pacífica para o conflito em Tigré e está trabalhando ativamente para garantir um cessar-fogo”.

“Todo mundo estava doente”

Muitos tigrínios no Sudão sabem que esses corpos podem ser de pessoas que eles conheciam. Muitos fugiram de Humera e ainda têm famílias lá.

Temesgen, 24, e Yonas, 25, dizem que escaparam juntos de um armazém em Humera, chamado Enda Yitbarek, que eles descrevem como sendo usado como um campo de detenção em massa improvisado para milhares de tigrínios. A CNN mudou seus nomes para sua segurança. Ambos ficaram presos por pouco mais de duas semanas.

“Eu estava jogando do lado de fora minha casa, e eles me pegaram e levaram porque sou tigrínio”, lembrou Temesgen. “A gente não fez nada, eles simplesmente pegaram a gente e prenderam”.

Dentro do armazém, as pessoas estavam amontoadas no chão, sem quartos ou divisórias para criar privacidade, disse ele.

“Eles não deram comida nem acesso ao banheiro”, contou Yonas. “Algumas pessoas faziam suas necessidades dentro do armazém”.

Para Temesgen, o verdadeiro horror foi a falta de assistência médica. “Todo mundo estava com gripe e não recebia ajuda médica. Eles não mandaram ninguém para o hospital.”

Corpos recuperados no Sudão
Corpos recuperados no Sudão são levados para barco / Barbara Arvanitidis/CNN

Ex-detentos descreveram que viram prisioneiros de todas as idades em um espaço muito apertado – de mães com filhos pequenos a adolescentes e homens na casa dos 70 anos.

Temesgen e Yonas dizem que escaparam durante um raro intervalo para o banheiro permitido pelos guardas e fizeram a jornada para o Sudão. Ambos falaram sobre vários campos de prisioneiros espalhados pela cidade de Humera.

A CNN conversou com dezenas de outros fugitivos desses campos e, com base em seus relatos, estima que haja até nove locais onde milhares de tigrínios estariam detidos.

Perfil étnico

Os tigrínios ainda em Humera disseram à CNN que vivem com medo constante de serem presos ou mortos. Eles contaram que o perfil étnico dos detidos é evidente: pessoas da etnia tigrínia são visadas e os de outras etnias estão seguros, particularmente os da etnia amhara. A milícia de Amhara lutou ao lado das forças do governo etíope em Tigré.

Pessoas de etnia mista enfrentam um destino incerto. Moradores disseram à CNN que um cartão de identificação de Amhara pode ser suficiente, mas ser visto socializando com tigrínios colocará alguém em risco mesmo assim.

Alem, cujo nome também foi alterado por razões de segurança, é meio tigrínio, mas tem uma carteira de identidade que não é de Tigré e tem ajudado pessoas a se esconder em sua casa em Humera enquanto as prisões continuam.

Parentes no exterior pediram que ele fugisse, mas ele insiste que é seu dever ficar e ajudar aqueles que são procurados pelas autoridades.

Rahel, nome fictício, também de Tigré e com identidade de outro local, diz que tem visitado amigos e parentes nos campos de prisioneiros, apesar das perguntas feitas pelos guardas. Ela está horrorizada com as condições dos detidos.

Eles não podem se mexer, não têm saneamento, nem comida, água e remédios. Se eles passam mal e morrem, ninguém se importa. Eles estão com fome e sede. Como podem se sentir bem pensando que talvez seja a vez deles no dia seguinte, sabendo que seus amigos foram mortos ontem? Os guardas não se importam com a vida

Rahel

 

Desaparecidos

Moradores de Humera que falaram com a CNN mencionaram repetidamente o desaparecimento de membros da comunidade tigrínia. Eles podem estar detidos nos campos, mas aqueles que escaparam das prisões disseram à CNN que as pessoas levadas pelos guardas nunca voltariam. Outros falaram de raros avistamentos de corpos sendo jogados no rio.

Do outro lado do rio, no Sudão, Yonas relembrou os desaparecimentos do armazém Enda Yitbarek.

“Eles não nos torturavam, mas sim tiraram os prisioneiros do campo à noite, que nunca mais voltavam”, disse Yonas.

“Não sabemos se eles os mataram ou não, mas, depois que os levaram, eles nunca mais voltaram e suas famílias relataram seus desaparecimentos.”

Corpos

Moradores de Humera com quem a CNN falou acreditam firmemente que os corpos que chegam a Wad El Hilou são de sua cidade.

Vários mantêm contato regular com aqueles que escaparam pela fronteira com o Sudão e, quando os corpos começaram a chegar, a notícia se espalhou rapidamente.

Um homem foi identificado localmente como Misganawu, um barbeiro conhecido em Humera.

“Ele tinha dois apelidos, Totit e Gundi”, lembra Alem. “Conheci muito bem o Totit quando ele trabalhava em Humera num salão de cabeleireiros. Ele nasceu e cresceu em Humera.”

Sinais de tortura

Investigações independentes em andamento por especialistas forenses locais e internacionais não encontraram evidências de que as vítimas tenham se afogado.

Os especialistas, que pediram para não serem identificados por questões de segurança, disseram que os corpos foram todos expostos a alguma forma de agente químico após a morte, levando a um processo que os preservou efetivamente antes de serem lançados na água.

Para os especialistas, o fato de todos os corpos estarem em um estado semelhante indica que eles foram armazenados em um ambiente semelhante, possivelmente um depósito ou uma vala comum, antes de serem jogados no rio.

O estado de preservação facilita a identificação das marcas nos corpos e o que as pode ter causado, afirmam os especialistas.

Alguns dos encontrados estavam com os braços amarrados nas costas, de acordo com uma técnica de tortura chamada “tabay”.

Vários tiveram as mãos amarradas com um fio elétrico amarelo, e as quebras e luxações ósseas indicam que uma pressão adicional foi colocada em seus corpos antes da morte.

Os especialistas dizem que estão em uma corrida contra o tempo para preservar as evidências, caso sejam necessárias para possíveis processos por crimes de guerra no futuro.

Eles também confirmaram os sinais de tortura aparentes para o grupo no Sudão que está recolhendo os cadáveres.

Luta contra os abusos

Enquanto os investigadores no Sudão continuam a examinar os corpos, os tigrínios e aqueles que os ajudam em Humera enfrentam uma luta diária para se manterem livres de detenções e abusos.

Do outro lado da fronteira, tigrínios como Gerri lamentam e cavam covas rasas pelos corpos que flutuam rio abaixo.

Falando perto da primeira sepultura à beira do rio que cavou, marcada com uma cruz de madeira improvisada, Gerri disse que doía não poder dar a eles um enterro adequado.

Deixar seu povo à beira do rio? Sua irmã, seu irmão, não serem enterrados corretamente para descansar? Quando a gente vê isso, dói, dói no coração, mas o que a gente pode fazer? É a isso que fomos condenados

Gerri, um dos líderes comunitários

(Laura Smith-Spark, da CNN, também contribuiu para esta reportagem)

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês).

Mais Recentes da CNN