Corrêa do Lago: ações de Trump influenciam investimentos climáticos

Presidente designado da COP30 cita impactos das mudanças políticas nos EUA no resto do mundo e nas negociações sobre o clima

Vinícius Murad, da CNN Brasil, em São Paulo
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O embaixador André Corrêa do Lago, presidente designado da COP30, avaliou que o Brasil vive um momento de “grande expectativa” internacional e defendeu que o país conduza as negociações climáticas com transparência e diálogo. Em entrevista à CNN em Nova York, o diplomata disse que o governo brasileiro quer evitar “surpresas” e trabalhar de forma aberta com os demais países antes da conferência de Belém, em novembro.

Corrêa do Lago também comentou o impacto político da nova retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris, e afirmou que a eleição de Donald Trump tem efeitos indiretos sobre o financiamento climático global. Segundo ele, o cenário internacional é de incerteza, mas o compromisso multilateral em torno do clima permanece — mesmo com tensões econômicas e geopolíticas.

Embaixador, quais são as expectativas do senhor para essa reta final das negociações antes da COP30 e, com relação especificamente às NDCs, as agendas de Nova York durante a Semana do Clima conseguem incentivar e acelerar as contribuições?

Eu acho que sim. A reunião que o secretário-geral da ONU, António Guterres, e o presidente Lula presidiram está tendo uma resposta muito positiva. É a segunda — já tivemos outra, online, em maio — e é uma forma de indicar a importância de as NDCs serem anunciadas o quanto antes. Isso tem um efeito não apenas simbólico, mas realmente funciona como um incentivo para que os países tragam esses números para a Assembleia Geral.

Por outro lado, as consultas que estamos fazendo são entre negociadores. E por que essas consultas? Porque a maneira do Brasil fazer diplomacia é com transparência. Eu não gosto que pareça que estamos inventando tudo — não estamos. Mas estamos conduzindo o processo de forma a aumentar ainda mais a confiança.

Há uma grande expectativa do Brasil, e também do presidente Lula. Estamos em uma circunstância internacional em que o presidente tem um perfil absolutamente único. Precisamos aproveitar esse momento para mostrar o quanto o Brasil quer transparência e não quer aparecer com surpresas na COP. Queremos combinar com os países, ouvi-los e entender suas preocupações. A situação global é de muita incerteza, e é natural que os países queiram compreender melhor o cenário. É nesse sentido que estamos trabalhando.

Sobre os Estados Unidos — sabemos que eles não estão mais participando de boa parte das negociações oficiais sobre o clima. O senhor acha que existe um “efeito Trump” contaminando outras nações, ou até o setor privado e financeiro?

Eu acho que o presidente Trump está mudando a política americana em muitas áreas, e isso provoca reações diversas. Por exemplo, vários países estão tendo que aumentar seus gastos militares — e gasto militar é caro. Isso acaba reduzindo os recursos disponíveis para cooperação internacional e para o combate à mudança do clima.
Esse tema está muito presente, mas não houve uma reação direta de outros países acompanhando os Estados Unidos na saída do Acordo de Paris. Isso aconteceu em janeiro, e estamos em setembro — ninguém mais saiu do acordo.

Então, as consequências para o clima são indiretas. Elas decorrem de fatores como comércio, prioridades orçamentárias e gastos militares. Não há, até o momento, uma reação direta em cadeia.

Mas vocês esperam a presença de Trump na COP30, que tem como objetivo principal acelerar a implementação das metas do Acordo de Paris?

Os Estados Unidos já se retiraram do Acordo de Paris, mais uma vez. A formalização será apenas em janeiro, mas o país não tem muito incentivo a participar de uma reunião sobre algo do qual, a partir de janeiro, não será mais parte. Precisamos pensar nos países que vão cumprir o que for negociado.

O governo americano está desenvolvendo uma agenda que não é favorável ao combate às mudanças climáticas — e isso tem consequências. Vemos grupos financeiros diminuindo seu nível de comprometimento, e a própria Europa reagindo a circunstâncias como o aumento de gastos militares e pressões políticas internas que podem ter impacto eleitoral.

Ou seja, há várias indicações de que essa agenda atingiu um nível de relevância que hoje influencia decisões políticas, econômicas e de investimento. E agora, precisamos responder a isso.