Diplomata com experiência em Rússia será indicado por Biden para chefiar CIA

“O povo norte-americano vai dormir tranquilamente com ele como nosso próximo diretor da CIA”, escreveu Biden em um comunicado

O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden
O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden Foto: CNN (08.jan.2021)

Jeff Zeleny,

da CNN, em Washington

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O presidente-eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, indicará William Burns como diretor da Agência Central de Inteligência, a CIA, segundo descobriu a CNN. O anúncio será feito na segunda-feira (11). Com isso, o governo contará com um respeitado diplomata norte-americano que serviu em postos em todo o mundo, desde o governo de Ronald Reagan até o de Barack Obama.

“O povo norte-americano vai dormir tranquilamente com ele como nosso próximo diretor da CIA”, escreveu Biden em um comunicado.

Se confirmado após a indicação, Burns se tornará o primeiro líder na história da CIA cuja experiência profissional vem do Departamento de Estado.

“Bill Burns é um diplomata exemplar com décadas de experiência no cenário mundial em manter nosso povo e nosso país seguro e protegido”, disse Biden. “Ele compartilha minha profunda convicção de que a inteligência deve ser apolítica e que os profissionais de inteligência dedicados que servem nossa nação merecem nossa gratidão e respeito”.

Biden foi atraído por Burns por causa de sua experiência diplomática e sua possível capacidade de restaurar a credibilidade da agência de inteligência na era pós-Trump, além de ter uma boa experiência na Rússia. Sua escolha deixa para trás outros candidatos com experiência mais formal no campo da inteligência.

Connhecido como Bill, ele é presidente do Carnegie Endowment for International Peace, uma respeitada organização de assuntos internacionais em Washington. Burns atuou como vice-secretário de Estado no governo Obama depois de trabalhar por mais de três décadas em cargos no serviço de relações exteriores, para o qual ingressou em 1982.

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Burns também serviu sob cinco presidentes dos EUA, democratas e republicanos, e dez secretários de Estado em uma variedade de cargos, incluindo como embaixador na Jordânia no governo Clinton e na Rússia sob George W. Bush.

O diplomata foi bastante incisivo sobre os danos que acredita que o governo Trump infligiu à política externa dos Estados Unidos. Ele alertou sobre as consequências perigosas de o presidente Donald Trump não aceitar a derrota nas eleições em um artigo visionário publicado em agosto passado na revista “The Atlantic”.

“Se ele perder, duvido que de repente vá abraçar o compromisso bipartidário tradicional com transições eficazes. Na melhor das hipóteses, ele será consumido pelos esforços para racionalizar sua derrota e pintar a eleição como fraudulenta; na pior das hipóteses, ele tentará contestar ou minar o resultado”, escreveu Burns. “Como tantas outras características da era Trump, a transição teria pouca semelhança com qualquer outra anterior, ou qualquer uma das muitas pelas quais servi como diplomata de carreira. Os custos de confusão, sinais mistos e turbulência burocrática podem ser muito altos”.

Burns também tem uma longa história no centro das negociações de paz no Oriente Médio e trabalhou próximo ao governo Obama no acordo nuclear com o Irã. Sua experiência na China é limitada, mas, fora isso, possui um extenso portfólio de trabalho nas principais regiões do mundo.

Enquanto todos os indicados de Biden enfrentam um caminho mais fácil para confirmação em um Senado controlado pelos democratas, o papel de Burns na investigação dos ataques terroristas de Benghazi, Líbia, em 2012, pode causar algum debate. Ele depôs em uma audiência na Câmara em 2012, depois que a então secretária de Estado, Hillary Clinton, não foi capaz por causa de uma concussão.

“Aprendemos lições muito difíceis e dolorosas em Benghazi”, disse Burns. “Já estamos agindo sobre eles. Nós temos que fazer melhor. Devemos isso aos nossos colegas que perderam a vida em Benghazi”.

A decisão de selecionar Burns para liderar a CIA veio depois que outros candidatos importantes foram criticados por seu apoio anterior a programas de tortura. O ex-diretor interino da CIA Michael Morell, que estava sendo considerado por Biden, foi atacado como inaceitável pelos principais democratas do Comitê de Inteligência do Senado.

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O senador Ron Wyden, do Oregon, membro do Comitê de Inteligência, criticou Morell como um “apologista da tortura” por suas sugestões anteriores de que o “interrogatório intensificado” de terroristas era eficaz e moral.

Respeitado por democratas e republicanos na arena da política externa, Burns deve receber uma confirmação muito mais fácil. Não se espera que o cargo de diretor da CIA seja um membro formal do gabinete de Biden, o que representa uma mudança em relação ao governo Trump, mas um retorno ao status que tinha no governo Obama.

Avril Haines, indicada por Biden como diretora de Inteligência Nacional, representará a comunidade de inteligência no Gabinete. Haines e Burns têm um relacionamento de longa data. Durante uma palestra no ano passado na Universidade de Columbia, ela elogiou Burns por ser conhecido por fornecer comentários atenciosos durante seu tempo no governo.

“Todo mundo sempre queria enviar seus memorandos para Bill [para receber os comentários dele]”, disse Haines na palestra.

Quando Burns foi inicialmente mencionado como uma possível indicação de secretário de Estado de Biden, um analista de longa data da CIA defendeu sua escolha para liderar a CIA.

“A nomeação de Burns enviaria um sinal importante a respeito do renascimento do serviço público, que foi rebaixado nos últimos quatro anos, e da importância de toda a comunidade de inteligência, não apenas da CIA”, escreveu Melvin Goodman, que atuou como analista da CIA por três décadas, no blog Counterpunch.

“Muitas das dificuldades da CIA nos últimos 40 anos podem ser atribuídas à liderança medíocre. A CIA seria a principal beneficiária de uma nomeação tão exemplar para uma instituição que se tornou muito insular e paroquial”.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).

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