"Dois meses de escuridão": Residentes de Mariupol chegam a cidade ocupada pela Rússia
Habitantes da cidade sitiada de Mariupol, que estavam na usina siderúrgica de Azovstal, foram levados para Benzimenne

Filmagens e fotos publicadas durante o final de semana mostram civis chegando de ônibus em Bezimenne – a cerca de 25 quilômetros da cidade sitiada de Mariupol – em um comboio de tanques marcados com a letra "Z" e veículos das Nações Unidas (ONU).
Nas imagens, publicadas pela Reuters no domingo (1), mulheres, crianças e idosos saem dos ônibus e vão para uma área com barracas brancas enfileiradas. Alguns seguram sacolas com seus pertences. Uma pessoa segura uma gaiola para gatos. Soldados uniformizados e sem identificação, carregam armas e patrulham a região.
Uma mulher, funcionária da usina siderúrgica de Azovstal, em Mariupol, disse que passou semanas se escondendo no labirinto de bunkers da era soviética no subterrâneo da planta – a última resistência na cidade arrasada. Ela disse que tentou escapar de Mariupol por corredores humanitários, mas não conseguiu por causa dos bombardeios ininterruptos.

"O bombardeio era tão forte, e atingia lugares perto da gente. Na saída do abrigo antibombas, nos últimos degraus ninguém conseguia respirar, pois não havia oxigênio o suficiente. Eu tinha medo até de sair para respirar ar fresco", disse a funcionária.
Eu não consigo acreditar. Dois meses de escuridão. Quando estávamos no ônibus, eu disse ao meu marido: 'Vasya, não teremos de usar o banheiro com uma lanterna? E não teremos que usar uma sacola, ou um balde (como sanitário) com uma lanterna'. Nós não víamos a luz do sol. Tínhamos medo.
Ao longo do final de semana, oficiais tanto ucranianos, quanto russos, disseram que dezenas de cidadãos foram retirados da usina e da área ao redor pelas Nações Unidas e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse no domingo (1) que cerca de 100 pessoas foram resgatadas de Azovstal e levadas para Zaporizhzhia, e há esperança de que mais civis poderão sair na segunda-feira (2).
O ministério da Defesa da Rússia reportou que 46 pessoas deixaram a região do complexo de Azovstal no sábado (30), e 80 civis foram "resgatados " da usina no domingo, antes de serem levados para a autodeclarada República Popular de Donetsk (RPD). O ministério disse que uma grande quantidade de pessoas decidiu "ficar voluntariamente na RPD", que tem sido controlada por separatistas apoiados por russos desde 2014.
Enquanto o ministério alerta de que civis retirados de Asovstal e que desejavam ser levados para regiões controladas por ucranianos foram "entregues a representantes das Nações Unidas e da Cruz Vermelha", não está claro se a escolha de para onde ir foi dada a todos.
Uma investigação da CNN em abril revelou que forças russas e separatistas aliados estavam levando residentes de Mariupol para um local chamado de "centro de filtragem", montado em Benzimenne, onde foram registrados antes de serem enviados para a Rússia – muitos contra a vontade. O governo ucraniano e oficiais locais de Mariupol dizem que dezenas de milhares de cidadãos ucranianos foram deportados forçosamente para a República Popular de Donetsk e para a Rússia desde que a guerra começou.
Em abril, a CNN entrevistou 10 pessoas, incluindo habitantes de Mariupol e seus entes queridos, que foram levados por soldados russos e da RPD a cidades tomadas pela Rússia contra sua vontade antes de serem deportados para a Federação Russa.
A CNN falou com pessoas que foram trazidas para Benzimenne antes de serem mandadas para a Rússia. Eles descreveram uma enorme tenda militar, onde soldados russos e da RPD estavam registrando centenas de pessoas – elas tiveram suas impressões digitais registradas, foram fotografadas, tiveram seus celulares revistados, foram interrogadas e seus passaportes foram revisados e registrados em bases de dados.

Imagens de satélite da Maxar Technologies, revisadas pela CNN, mostram um acampamento de tendas em Benzimenne. De acordo com o prefeito de Mariupol, Vady, Boichenko, é um dos quatro "campos de filtração" que a RPD e a Rússia operam ao redor da cidade.
Temos as estatísticas oficiais que verificamos junto ao registro da comunidade – mais de 40 mil moradores que passaram pela filtração foram levados para a suposta RPD ou para a Federação Russa. Alguns residentes de Mariupol conseguiram chegar a territórios controlados por ucranianos agora e testemunham sobre o processo.
Um dia antes, em seu endereço noturno, Zelensky disse que o governo continuava a monitorar os "supostos campos de filtragem russos" próximos a Mariupol. "Deportações de nossos civis para o interior da Rússia, para a Sibéria, e mesmo para Vladivostok foram registradas", disse. Crianças também foram deportadas. Eles esperam que as crianças esqueçam onde é sua casa, mas elas são da Ucrânia."
A Quarta Convenção de Genebra proíbe que uma força de ocupação deporte ou transfira populações civis. O procurador-geral da Ucrânia e monitores do direito internacional disseram que a retirada forçada de civis exercida pela Rússia pode ser encarada como um crime de guerra.
Moscou continua clamando que está evacuando civis de áreas perigosas da Ucrânia. O coronel-geral da Rússia, Mikhail Mizintsev, disse no sábado que mais de 1 milhão de ucranianos, incluindo cerca de 200 mil crianças, foram evacuadas para a Rússia até o momento, de acordo com a agência de notícias TASS.






