“Dois meses de escuridão”: Residentes de Mariupol chegam a cidade ocupada pela Rússia

Habitantes da cidade sitiada de Mariupol, que estavam na usina siderúrgica de Azovstal, foram levados para Benzimenne

Mulher e filhos evacuados de Mariupol chegam à cidade de Benzemme, na região de Donetsk
Mulher e filhos evacuados de Mariupol chegam à cidade de Benzemme, na região de Donetsk REUTERS

Eliza Mackintoshda CNN

Em Londres

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Filmagens e fotos publicadas durante o final de semana mostram civis chegando de ônibus em Bezimenne – a cerca de 25 quilômetros da cidade sitiada de Mariupol – em um comboio de tanques marcados com a letra “Z” e veículos das Nações Unidas (ONU).

Nas imagens, publicadas pela Reuters no domingo (1), mulheres, crianças e idosos saem dos ônibus e vão para uma área com barracas brancas enfileiradas. Alguns seguram sacolas com seus pertences. Uma pessoa segura uma gaiola para gatos. Soldados uniformizados e sem identificação, carregam armas e patrulham a região.

Uma mulher, funcionária da usina siderúrgica de Azovstal, em Mariupol, disse que passou semanas se escondendo no labirinto de bunkers da era soviética no subterrâneo da planta – a última resistência na cidade arrasada. Ela disse que tentou escapar de Mariupol por corredores humanitários, mas não conseguiu por causa dos bombardeios ininterruptos.

Mulher que estava na usina de Azovstal reage ao chegar em campo na cidade de Benzemme, em 1º de maio de 2022 / REUTERS

“O bombardeio era tão forte, e atingia lugares perto da gente. Na saída do abrigo antibombas, nos últimos degraus ninguém conseguia respirar, pois não havia oxigênio o suficiente. Eu tinha medo até de sair para respirar ar fresco”, disse a funcionária.

Eu não consigo acreditar. Dois meses de escuridão. Quando estávamos no ônibus, eu disse ao meu marido: ‘Vasya, não teremos de usar o banheiro com uma lanterna? E não teremos que usar uma sacola, ou um balde (como sanitário) com uma lanterna’. Nós não víamos a luz do sol. Tínhamos medo.

Funcionária da usina de Azovstal, em Mariupol

Ao longo do final de semana, oficiais tanto ucranianos, quanto russos, disseram que dezenas de cidadãos foram retirados da usina e da área ao redor pelas Nações Unidas e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse no domingo (1) que cerca de 100 pessoas foram resgatadas de Azovstal e levadas para Zaporizhzhia, e há esperança de que mais civis poderão sair na segunda-feira (2).

O ministério da Defesa da Rússia reportou que 46 pessoas deixaram a região do complexo de Azovstal no sábado (30), e 80 civis foram “resgatados ” da usina no domingo, antes de serem levados para a autodeclarada República Popular de Donetsk (RPD). O ministério disse que uma grande quantidade de pessoas decidiu “ficar voluntariamente na RPD”, que tem sido controlada por separatistas apoiados por russos desde 2014.

Enquanto o ministério alerta de que civis retirados de Asovstal e que desejavam ser levados para regiões controladas por ucranianos foram “entregues a representantes das Nações Unidas e da Cruz Vermelha”, não está claro se a escolha de para onde ir foi dada a todos.

Uma investigação da CNN em abril revelou que forças russas e separatistas aliados estavam levando residentes de Mariupol para um local chamado de “centro de filtragem”, montado em Benzimenne, onde foram registrados antes de serem enviados para a Rússia – muitos contra a vontade. O governo ucraniano e oficiais locais de Mariupol dizem que dezenas de milhares de cidadãos ucranianos foram deportados forçosamente para a República Popular de Donetsk e para a Rússia desde que a guerra começou.

Em abril, a CNN entrevistou 10 pessoas, incluindo habitantes de Mariupol e seus entes queridos, que foram levados por soldados russos e da RPD a cidades tomadas pela Rússia contra sua vontade antes de serem deportados para a Federação Russa.

A CNN falou com pessoas que foram trazidas para Benzimenne antes de serem mandadas para a Rússia. Eles descreveram uma enorme tenda militar, onde soldados russos e da RPD estavam registrando centenas de pessoas – elas tiveram suas impressões digitais registradas, foram fotografadas, tiveram seus celulares revistados, foram interrogadas e seus passaportes foram revisados e registrados em bases de dados.

Imagens de satélite feitas pela Maxar Technologies de acampamento em Bezimenne, em 22 de março de 2022 / Maxar Techonologies

Imagens de satélite da Maxar Technologies, revisadas pela CNN, mostram um acampamento de tendas em Benzimenne. De acordo com o prefeito de Mariupol, Vady, Boichenko, é um dos quatro “campos de filtração” que a RPD e a Rússia operam ao redor da cidade.

Temos as estatísticas oficiais que verificamos junto ao registro da comunidade – mais de 40 mil moradores que passaram pela filtração foram levados para a suposta RPD ou para a Federação Russa. Alguns residentes de Mariupol conseguiram chegar a territórios controlados por ucranianos agora e testemunham sobre o processo.

Vadym Boichenko, prefeito de Mariupol, no dia 25 de abril

Um dia antes, em seu endereço noturno, Zelensky disse que o governo continuava a monitorar os “supostos campos de filtragem russos” próximos a Mariupol. “Deportações de nossos civis para o interior da Rússia, para a Sibéria, e mesmo para Vladivostok foram registradas”, disse. Crianças também foram deportadas. Eles esperam que as crianças esqueçam onde é sua casa, mas elas são da Ucrânia.”

A Quarta Convenção de Genebra proíbe que uma força de ocupação deporte ou transfira populações civis. O procurador-geral da Ucrânia e monitores do direito internacional disseram que a retirada forçada de civis exercida pela Rússia pode ser encarada como um crime de guerra.

Moscou continua clamando que está evacuando civis de áreas perigosas da Ucrânia. O coronel-geral da Rússia, Mikhail Mizintsev, disse no sábado que mais de 1 milhão de ucranianos, incluindo cerca de 200 mil crianças, foram evacuadas para a Rússia até o momento, de acordo com a agência de notícias TASS.

Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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