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    Entenda a relação do Brasil com a Turquia, que tem eleições presidenciais neste domingo (14)

    Países intensificaram comércio bilateral nos últimos anos e podem se unir para intermediar paz na Ucrânia

    Tiago Tortellada CNN

    em São Paulo

    Aliada de longa data do Brasil e com comércio bilateral crescente, a Turquia realiza eleições presidenciais e parlamentares neste domingo (14). O atual presidente, Recep Tayyip Erdogan, no poder há 20 anos, trava uma batalha pela reeleição.

    O terremoto que atingiu a região em fevereiro e deixou mais de 50 mil mortos e milhões de deslocados na Turquia e Síria será um fator que influenciará as eleições. Além disso, o país passa por uma crise econômica.

    Assim, analistas preveem número recorde de eleitores neste ano, além de uma corrida parelha pela Presidência.

    Pessoas olham para edifícios danificados e pilhas de escombros em Kahramanmaras, Turquia, após terremoto / 17/02/2023 REUTERS/Maxim Shemetov

    Relações com o Brasil

    Segundo Christopher Mendonça, professor de Relações Internacionais do Ibmec de Belo Horizonte, apesar da distância geográfica, Brasil e Turquia mantém relações “centenárias bastante amistosas”, dividindo espaço no G20 e outros sistemas multilaterais.

    “O ponto forte entre os dois países é o comércio internacional, que já extrapola os 5 bilhões de dólares ao ano, segundo levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior para 2022”, destaca.

    De acordo com dados da embaixada brasileira em Ancara, o valor total dos produtos vendidos do Brasil para a Turquia nos últimos anos aumentou de US$ 2,6 bilhões em 2019 para US$ 3,8 bilhões em 2021, por exemplo.

    As exportações turcas para o território brasileiro, por sua vez, passaram de US$ 500 milhões em 2019 para US$ 1 bilhão em 2021.

    Mendonça explica que o Brasil exporta principalmente matéria-prima para a Turquia, enquanto importa alguns produtos semimanufaturados.

    “Em 2010, houve uma grande aproximação entre os dois países, que selaram o acordo de Teerã, desenvolvido principalmente pelo chanceler brasileiro à época, Celso Amorim, que hoje integra a assessoria presidencial”, relembra. A declaração de Teerã juntou Brasil e Turquia para resolver um impasse quanto ao avanço da tecnologia nuclear no Irã.

    Leandro Consentino, especialista em Relações Internacionais, cientista político e professor do Insper, destaca o crescimento do comércio entre os países nos últimos anos e lembra que uma das dificuldades geopolíticas enfrentadas por ambas as nações é o posicionamento quanto à guerra na Ucrânia.

    Consentino avaliou como “ambíguo” o posicionamento brasileiro, o que pode impactar também nas relações com a Turquia, historicamente ligada à Rússia.

    Continuidade de Erdogan “precificada”

    Ambos os especialistas entendem que a continuidade de Recep Tayyip Erdogan como presidente turco pode significar a manutenção das relações entre os países. Leandro Consentino pontua que seria, de alguma forma, “precificada”.

    “Já está aí dentro das nossas expectativas, dado que é um governo que dura muitos anos e que o governo Lula já sabia lidar com ele”, afirma.

    O especialista levanta a questão, entretanto, de que “Erdogan se coloca como uma dessas forças e iliberais que o Brasil diz hoje combater no plano internacional”.

    “Então também é um ingrediente a mais, importante do ponto de vista de como que o Brasil se comporta diante de um [governante] que é autoritário. Mas sabemos também que o atual governo brasileiro exerce um pouco de seletividade nos governos que critica”, avalia.

    Citando as relações brasileiras com os governos de Cuba, Nicarágua e Venezuela, Consentino diz que, para o governo, não seria difícil “transformar” Erdogan em uma figura que não deva ser criticada frontalmente.

    Possível aliada para “planos de paz” do Brasil?

    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) falou em algumas oportunidades sobre criar um grupo de países para intermediar um acordo de paz entre Rússia e Ucrânia.

    O ex-chanceler e assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais Celso Amorim, inclusive, discutiu essa questão com autoridades ucranianas nesta semana, incluindo o presidente Volodymyr Zelensky.

    A Turquia faz parte da Otan e, historicamente, tem forte relação com a Rússia, sendo, por exemplo, um entrave para a adição de novos membros à aliança militar do Ocidente.

    Recentemente, o presidente russo, Vladimir Putin, participou virtualmente da inauguração de uma usina nuclear em Akkuyu, na Turquia. Ela é de propriedade russa e será operada pela estatal Rosatom.

    Esse movimento aumenta a dependência energética turca com relação aos russos, o que não é visto com bons olhos por potências do Ocidente. Especialistas avaliam que mesmo uma troca na Presidência, com a saída de Erdogan, pode não representar o fim dos laços com a Rússia.

    Entretanto, a Turquia pode ter papel importante na busca pela paz na Ucrânia. “Brasileiros e turcos já agiram em parceria no passado para buscar o entendimento entre países e essa cooperação pode ser reajustada para 2023, especialmente diante do interesse de ambos os países em se destacar na questão da segurança internacional”, diz Christopher Mendonça.

    Leandro Consentino também ressalta que a Turquia pode ser uma aliada para os planos brasileiros, mas acha difícil que esses países consigam exercer uma “posição de neutralidade”.

    “Eu acho que o Brasil flerta com essa neutralidade, mas, no fundo, o governo brasileiro se aproximou muito mais de Moscou do que de Kiev”, analisa.

    Como funcionam as eleições na Turquia

    As eleições para presidente e para o Parlamento na Turquia acontecem simultaneamente a cada cinco anos.

    Os partidos podem indicar candidatos à Presidência se tiverem ultrapassado a marca de 5% dos votos nas últimas eleições parlamentares ou caso tenham 100 mil assinaturas apoiando uma nomeação.

    O candidato que tiver mais de 50% dos votos no primeiro turno será eleito. Se isso não ocorrer, haverá segundo turno entre os dois nomes mais bem votados no dia 28 de maio.

    Já no caso do Parlamento, o país segue o sistema de representação proporcional, sendo que o número de assentos que um partido obtém — do total de 600 cadeiras — é diretamente proporcional aos votos que ganha.

    Entretanto, os partidos precisam conseguir pelo menos 7% dos votos — sozinhos ou em “aliança” — para poder colocar representantes no Congresso.

    Neste domingo (14), as urnas abriram às 8h e fecharam às 17h no horários local — das 2h às 11h, de Brasília. Os resultados devem sair por volta de 21h, também no horário local (15h de Brasília).

    *com informações da CNN internacional