Entenda o que são submarinos de propulsão nuclear e quais as ambições da Austrália

Austrália, Estados Unidos e Reino Unido começam programa para esse tipo de submarino

O USS Indiana, um submarino de ataque movido a energia nuclear parte de Port Canaveral, na Flórida, em 1º de outubro de 2018.
O USS Indiana, um submarino de ataque movido a energia nuclear parte de Port Canaveral, na Flórida, em 1º de outubro de 2018. Shutterstock

Brad Lendonda CNN

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Com o acordo fechado entre Austrália, Estados Unidos e Reino Unido para começar um programa de submarino com propulsão nuclear, podemos esperar que os submarinos australianos se pareçam muito com as versões mais recentes dos arsenais norte-americanos e britânicos.

As frotas da Marinha dos Estados Unidos e da Marinha Real têm dois tipos de submarinos, categorizados como mísseis de ataque e mísseis balísticos.

Ambos são movidos por reatores nucleares, que convertem água em vapor de alta pressão que gira turbinas para impulsionar os submarinos.

Mas os submarinos de ataque e os submarinos de mísseis balísticos – frequentemente chamados de “boomers” – servem a propósitos muito diferentes.

A Austrália está optando pela propulsão nuclear, ou submarino de ataque, em vez dos boomers, que possuem armas nucleares, com ogivas nucleares em seus mísseis balísticos.

A diferença entre os dois

Submarinos de ataque

O governo da Austrália quer submarinos de ataque, a espinha dorsal das frotas de submarinos dos EUA e do Reino Unido.

“Os submarinos de ataque são projetados para buscar e destruir submarinos inimigos e navios de superfície; projetar energia em terra com mísseis de cruzeiro Tomahawk e Forças de Operação Especial (SOF); realizar missões de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (ISR); apoiar operações de grupos de batalha; e se envolver em guerra contraminas”, detalha a Marinha dos Estados Unidos no topo de seu folheto informativo sobre submarinos de ataques.

Os EUA têm três classes de submarinos de ataque em sua frota de 53. Os mais novos são os 19 da chamada classe Virginia.

Armados com dezenas de mísseis de cruzeiro Tomahawk e torpedos, os submarinos da classe Virginia de 8.000 toneladas e 377 pés (115 metros) podem navegar a mais de 46 km/h e permanecer submersos indefinidamente. Seu tempo debaixo d’água é limitado apenas pela necessidade de reabastecimento de provisões para a tripulação de 132 membros.

A CNN deu uma olha dentro do USS John Warner, da classe Virginia, em uma visita em 2015.
O submarino não tinha nem periscópio.

Em vez disso, ele usa um mastro fotônico – uma peça de magia eletrônica que inclui vídeo infravermelho e de alta definição – para monitorar o campo de batalha. As informações são exibidas em telas grandes na central de comando, com um joystick controlando todo o show.

O USS Indiana, um submarino de ataque movido a energia nuclear parte de Port Canaveral, na Flórida, em 1º de outubro de 2018. / Shutterstock

Os quatro submarinos de ataque da classe Astute do Reino Unido são ainda mais rápidos do que os submarinos dos Estados Unidos, capazes de alcançar mais de 56 km/h e, como os dos Estados Unidos, carregam o míssil de cruzeiro Tomahawk.

“O Tomahawk IV é a versão mais recente do míssil. Ele tem um alcance maior do que seus predecessores (bem acima de 1.600 quilômetros), pode ser direcionado a um novo alvo em plena navegação e também enviar imagens do campo de batalha para seu submarino-mãe”, escreveu o site da Royal Navy, a Marinha Real do Reino Unido.

É o tipo de poder de fogo e resistência que a Austrália deseja ao tentar proteger suas águas do norte de quaisquer ameaças navais e projetar seu poder naval no Mar da China Meridional, onde, junto com os Estados Unidos, visa diminuir a influência chinesa e proteger a liberdade de navegação

Um submarino da classe Astute operado pela Marinha Real do Reino Unido, descendo o Firth of Clyde, em setembro de 2020 / Alamy Stock Photo

Submarinos de mísseis balísticos

Os boomers do Reino Unido e dos EUA carregam mísseis balísticos Trident armados com várias ogivas nucleares. Sua missão, essencialmente, é permanecer no mar por meses a fio, a grande maioria submersa, e estar preparado para lançar um ataque nuclear de retaliação caso um adversário lance um seu próprio contra o Reino Unido ou os EUA.

O submarino de mísseis balísticos USS Pennsylvania retorna ao seu porto natal no estado de Washington após uma patrulha de dissuasão estratégica em 2015 / U.S. Navy

Submarinos de mísseis balísticos são silenciosos sob as ondas e extremamente difíceis de detectar. Eles são o ápice da dissuasão, garantindo que um adversário dos EUA ou do Reino Unido pagaria um preço horrível caso fizesse um ataque nuclear primeiro.

Cada um dos submarinos de mísseis balísticos dos EUA pode transportar 20 mísseis Trident (16 para os submarinos do Reino Unido) com até oito ogivas (três para os submarinos do Reino Unido) por míssil. Eles podem ser disparados em um alcance de 7.400 quilômetros.

As ogivas nucleares têm rendimentos de explosão entre 100 e 475 quilotons. Em contraste, a bomba atômica lançada em Hiroshima, Japão, durante a Segunda Guerra Mundial, teve um rendimento de 15 quilotons.

Os EUA têm 14 submarinos com mísseis balísticos, enquanto a Grã-Bretanha tem quatro. Esses não são os submarinos que a Austrália está contratando.

Quando a Austrália colocará submarinos no mar?

Leva muito tempo (possivelmente décadas) para desenvolver um submarino com propulsão nuclear e colocá-lo em funcionamento.

O acordo anunciado na quarta-feira (15) prevê apenas um estudo de 18 meses para ver a melhor forma de construir submarinos movidos a energia nuclear para a Austrália.

O primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, disse os novos submarinos podem entrar na frota australiana por volta de 2040.

Thomas Shugart, um ex-comandante de submarino da Marinha dos EUA que agora é membro do Center for a New American Security, disse que, com a situação de segurança no Indo-Pacífico, a Austrália deve estar esperando que seus submarinos possam estrear mais cedo.

“Há uma série de compensações que precisarão ser consideradas que podem afetar o cronograma: conteúdo local versus uso de fornecedores estabelecidos, um novo projeto com características mais avançadas versus projetos existentes de submarinos ou plantas de propulsão dos EUA e Reino Unido etc.”, afirmou Shugart.

“Dado o desgaste do equilíbrio militar no Indo-Pacífico, espero que 2040 seja um prazo máximo. Ao mesmo tempo, tenho dificuldade em imaginar um cronograma de implantação de menos de cerca de uma década, mesmo se movendo com a velocidade da urgência e usando muitos projetos e fornecedores existentes”.

(Texto traduzido. Clique aqui para acessar o original em inglês).

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