Especialista: Papa vai continuar transmitindo mensagem por cessar-fogo
Em entrevista ao Hora H, analista de Vaticano Felipe Domingues avaliou a crise entre o pontífice e Donald Trump, que criticou as falas do líder católico contra a guerra no Irã
O papa Leão XIV deve continuar transmitindo sua mensagem de paz e defendendo o cessar-fogo, mesmo após as críticas recebidas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A avaliação é do analista de Vaticano Felipe Domingues, em entrevista ao Hora H nesta segunda-feira (13).
"Eu suspeito que ele não vai ser um comentarista do governo Trump, mas ele vai sim continuar transmitindo essa mensagem central de unidade, de paz, de reconciliação e de cessar-fogo em todas as situações de guerra que nós temos hoje, que são mais de 60 conflitos no mundo inteiro", disse o analista.
Segundo Domingues, a atual situação apresenta dois fatores novos no cenário internacional. "A primeira delas é que a gente tem um papa americano, num contexto em que o presidente americano é o principal ator dessa situação toda, das guerras", explicou o especialista, referindo-se principalmente ao conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã.
O analista destacou que o fato de Leão XIV ser americano traz uma diferença importante. "O fato de eu ser americano não permite que os outros digam que eu não sei o que é a Igreja e a realidade dos Estados Unidos", citou Domingues, reproduzindo uma declaração do próprio pontífice. Esta característica contrasta com o papado anterior de Francisco, que por ser argentino, às vezes era acusado de não entender as questões dos Estados Unidos.
Inversão de papéis no cenário internacional
O segundo fator novo, conforme Domingues, é a postura de Donald Trump, que não apenas criticou, mas fez ofensas diretas ao Papa, chamando-o de "fraco". "O que houve aí foi uma inversão de valores. Até o presidente Trump disse: eu estou respondendo ao papa. Quer dizer, já não é mais o papa que responde ao presidente e às suas ações. É o presidente que começa a responder ao discurso do papa Leão", analisou.
Questionado sobre o papel esperado do pontífice nesta situação inédita, Domingues explicou que a grande diferença do Papa em relação a outros líderes globais é seu papel principalmente moral. "Tanto entre os católicos como líder da igreja, de uma das maiores religiões do mundo, mas também uma figura moral que é respeitada no mundo inteiro", afirmou.
O especialista ressaltou que o discurso do papa para temas geopolíticos sempre coloca em primeiro lugar "a vida das pessoas, a dignidade humana e sentar-se de novo à mesa para dialogar". Ao ser criticado por Trump, o pontífice respondeu diretamente, afirmando não ter medo da administração americana, algo que, segundo Domingues, não é comum na postura papal.


