EUA: Comitê da Câmara detalha insistência de Trump em ataques contra eleição de 2020

Painel investigativo do ataque ao Capitólio destacou como ex-presidente se recusou a ouvir pessoas próximas a ele que o aconselharam a aceitar a derrota

Bennie Thompson e Liz Cheney, presidente e vice do painel de investigação
Bennie Thompson e Liz Cheney, presidente e vice do painel de investigação Reuters

Jeremy HerbMarshall CohenZachary Cohenda CNN

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O comitê da Câmara que investiga o ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio dos Estados Unidos detalhou na segunda-feira (13) como aqueles em torno do então presidente Donald Trump lhe disseram que ele perdeu a eleição de 2020 – e como ele se recusou a ouvir, voltando-se para seu advogado Rudy Giuliani para abraçar falsas alegações de que a eleição foi roubada.

A audiência de segunda-feira teve uma testemunha a menos do que foi planejado, mas o painel ouviu depoimentos de um ex-editor de política digital da Fox News, um advogado conservador, um ex-procurador dos EUA e um ex-funcionário eleitoral republicano.

Todos disseram que era claro que o presidente Joe Biden ganhou a eleição e as alegações de fraude de Trump eram absurdas.

Aqui estão as principais conclusões da segunda audiência do painel este mês sobre os esforços de Trump para derrubar o resultado da eleição de 2020 e a violência no Capitólio em 6 de janeiro.

Ausência de Stepien

O comitê surpreendeu no domingo quando anunciou que o gerente de campanha de Trump, Bill Stepien, testemunharia pessoalmente na audiência de segunda-feira. Mas Stepien teve sua própria surpresa, quando descobriu que sua esposa entrou em trabalho de parto.

Este turbilhão de eventos obrigou o comitê a se virar- e eles lidaram com isso habilmente, apesar de um atraso de 45 minutos.

Os legisladores e a equipe do painel estavam obviamente preparados com vídeos do depoimento privado de Stepien. Foram exibidas muitas imagens de seu depoimento, que revelou novos detalhes sobre suas conversas com Trump e como ele aconselhou o presidente a não declarar vitória prematuramente na noite das eleições.

De certa forma, o comitê dirigido pelos democratas teve mais poder para controlar o que o público ouviu de Stepien. Ele não estava na sala para defender Trump ou criticar o comitê. Em vez disso, o painel escolheu quais clipes de depoimentos seriam reproduzidos.

Longos depoimentos

O testemunho de Stepien não foi o único uso de depoimentos do comitê na segunda-feira. O painel reproduziu longas partes do depoimento do ex-procurador-geral William Barr, onde ele descreveu em detalhes por que as alegações de fraude de Trump eram “falsas”.

“Nunca houve uma indicação de interesse em quais eram os fatos reais”, disse Barr no vídeo de seu depoimento exibido. “Fiquei um pouco desmoralizado, porque pensei: ‘Cara, se ele realmente acredita nessas coisas, ele perdeu contato com — ele se desvinculou da realidade se realmente acredita nessas coisas'”.

O comitê não convidou Barr para testemunhar publicamente na audiência de segunda-feira.

Os depoimentos em vídeo também deram ao comitê a chance de mostrar testemunhos de outras pessoas do círculo íntimo de Trump – incluindo sua filha Ivanka Trump e seu genro Jared Kushner – sem ter que trazê-los para testemunhar. Mostrando depoimentos em vídeo, o comitê controla quais trechos são transmitidos.

Ivanka e seu pai, Donald Trump / Reuters

A audiência ilustra o papel fundamental desempenhado por Barr em definir o tom da “Equipe Normal”, o grupo de funcionários de campanha e da Casa Branca que estava tentando aconselhar Trump que as alegações de fraude eram falsas.

O papel de Barr

Os democratas insultaram Barr quando ele estava no cargo – acusando-o de usar o Departamento de Justiça para cumprir as ordens de Trump, minando a investigação sobre a Rússia e promovendo teorias da conspiração.

Mas nas últimas semanas, Barr se tornou uma espécie de novo herói para os liberais, por desmascarar e condenar agressivamente as mentiras de Trump sobre a eleição de 2020.

O comitê democrata apresentou clipes do depoimento de Barr mais do que qualquer outra testemunha até agora, e entrevistou mais de 1.000 pessoas como parte de sua investigação de um ano. Barr foi o funcionário de mais alto escalão do governo Trump a afirmar a legitimidade dos resultados das eleições e repudiar o esforço incansável de alegar fraude.

Durante a audiência de segunda-feira, Barr desmantelou alegações específicas apoiadas por Trump sobre “despejos de votos” ilegais em Detroit, manipulação de votos em todo o país pela empresa Dominion com suas máquinas eleitorais e outras teorias da conspiração.

Barr disse que as teorias apoiadas por Trump eram “idiotas” e “amadoras” e “descoladas da realidade”. Essa retórica é surpreendentemente próxima do que os principais democratas disseram o tempo todo sobre as alegações do ex-presidente.

Para ser claro, Barr ainda é um conservador radical. Apenas algumas semanas atrás, ele fez várias alegações falsas em uma entrevista da Fox News sobre a investigação Trump-Rússia.

Má fé de Trump

Uma das principais áreas de foco da audiência de segunda-feira foi enfatizar a ideia de que Trump e alguns de seus aliados continuaram a divulgar falsas alegações de fraude eleitoral depois que foram informados pessoalmente que essas alegações não eram legítimas.

O comitê argumentou que Trump foi repetidamente informado por seus próprios altos funcionários, incluindo Barr e Stepien, que a miríade das teorias que ele estava promovendo eram infundadas e certamente não serviam como evidência.

Bill Stepien, Donald Trump e Matt Rosendale / Casa Branca

“Eu investiguei especificamente as urnas do Dominion, que achei uma das alegações mais perturbadoras – no sentido de que não vi absolutamente nenhuma base para as acusações, mas foram feitas de uma maneira tão sensacionalista que obviamente estavam influenciando muitas pessoas”, disse Barr.

No entanto, Trump e alguns de seus aliados continuaram a promover essas falsas alegações até janeiro, no que o comitê tentou mostrar como um esforço de má fé para derrubar a eleição.

Durante o confronto no Salão Oval de dezembro de 2020, Barr disse que Trump lhe deu um relatório que alegava “prova absoluta” de que as máquinas de votação do Dominion haviam sido manipuladas. Barr disse que o relatório “parecia muito amador” e “não viu nenhuma informação de apoio”.

Barr renunciaria em dezembro de 2020 logo após sua última reunião com Trump e foi substituído pelo procurador-geral interino Jeffrey Rosen, que também enfrentou uma enxurrada de pressão do ex-presidente para investigar as mesmas alegações de fraude eleitoral.

Ao mesmo tempo, os aliados de Trump estavam pressionando o Departamento de Justiça a levar as falsas alegações de Trump sobre eleições roubadas à Suprema Corte, em um esforço para impedir que o resultado de vários estados importantes fosse contabilizado.

O resumo enviado a Rosen e outros altos funcionários do DOJ pelo assistente pessoal de Trump na Casa Branca citou o mesmo relatório sobre irregularidades nas urnas de Michigan que Barr disse a Trump ser “amador”.

Impasse com Rudy Giuliani

O comitê se concentrou em depoimentos que distinguiam entre dois grupos que aconselhavam Trump nos dias após a eleição: “Equipe Normal” e aqueles que estavam com Rudy Giuliani, promovendo alegações infundadas de fraude eleitoral.

“Nós os chamamos de meu time e o time de Rudy”, disse Stepien no vídeo de depoimento reproduzido pelo comitê. “Eu não me importei em ser caracterizado como parte do Time Normal.”

O comitê rastreou a divisão até a noite da eleição, quando Stepien e outros disseram a Trump que era muito cedo para anunciar vitória, enquanto Giuliani lhe disse para declarar mesmo assim.

Donald Trump e Rudy Giuliani / Drew Angerer/Getty Images

“O presidente discordou disso. Não me lembro das palavras em particular. Ele achou que eu estava errado e me disse isso”, afirmou Stepien sobre uma conversa com Trump na noite da eleição. “E que ele iria em uma direção diferente.”

O comitê trabalhou para minar as declarações que Giuliani e Sidney Powell estavam fazendo sobre os votos serem alterados e os países estrangeiros envolvidos – todas as quais eram falsas. Eles mostraram vídeos de depoimentos de Giuliani e Powell justapostos a autoridades como Barr e Stepien dizendo que as alegações eram simplesmente absurdas.

O comitê até fez uma crítica a Giuliani e seu estado de espírito na noite da eleição, reproduzindo um vídeo do depoimento do porta-voz da campanha de Trump, Jason Miller, onde ele disse que o advogado “bebeu demais”.

“Quero dizer, o prefeito estava definitivamente embriagado”, disse Miller. “Mas eu não sabia o seu nível de intoxicação quando ele falou com o presidente, por exemplo.”

Finanças da campanha

Um dos principais detalhes que o painel revelou durante a audiência de segunda-feira foi como as mentiras de Trump sobre a eleição se transformaram em milhões de dólares em arrecadação de fundos para a campanha de ação política que ele criou após sua derrota, resultando em US$ 250 milhões recebidos.

“A ‘Grande Mentira’ também foi uma grande fraude”, disse a deputada Zoe Lofgren, democrata da Califórnia, durante a audiência de segunda-feira.

Durante a investigação do comitê, foi ao tribunal tentar desvencilhar documentos financeiros como registros bancários que estavam ligados ao dia 6 de janeiro. A audiência de segunda-feira foi a primeira indicação de como o painel planeja usar esses registros em suas audiências.

Ainda assim, o comitê não mostrou muitos detalhes sobre quais documentos financeiros obteve, e mais podem ser revelados nas próximas audiências.

Fraude e violência

Após uma audiência de duas horas focada em desmascarar as mentiras de Trump sobre a eleição, o comitê encerrou retornando à violência que ocorreu no Capitólio em 6 de janeiro.

O presidente do comitê, Bennie Thompson, apresentou um vídeo mostrando que aqueles que foram a Washington e invadiram o Capitólio o fizeram acreditando nas mentiras da eleição.

“Sabemos que eles estavam lá por causa de Donald Trump. Agora ouvimos algumas das coisas em que eles acreditavam”, disse Thompson.

No vídeo, os apoiadores de Trump disseram acreditar que as alegações infundadas sobre o software Dominion e sobre como os votos de Trump não foram contados. “Eu votei cedo, tudo correu bem, exceto que você não pode realmente confiar no software, software Dominion por toda parte”, disse uma pessoa.

O retorno à violência no Capitólio é um tema que provavelmente continuará durante a série de audiências de abertura, incluindo planejadas para esta semana sobre a campanha de pressão de Trump contra o Departamento de Justiça e seu vice-presidente Mike Pence.

O procurador-geral Merrick Garland disse na segunda-feira que planeja assistir a todas as audiências do comitê – e que os promotores que lidam com casos criminais decorrentes da insurreição de 6 de janeiro também estão assistindo.

Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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