EUA têm oitavo dia de manifestações após morte de George Floyd

Protestos acontecem entre toques de recolher, temores a respeito da segurança pública e movimentação de autoridades em defesa de reformas na polícia

Guilherme Venaglia, da CNN em São Paulo

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Os Estados Unidos vivem nesta terça-feira (2) o oitavo dia consecutivo de manifestações após a morte de George Floyd. Os protestos se reivindicam como sendo antirracismo e contra a violência policial contra pessoas negras. 

Diversas cidades decretaram toques de recolher no país para a noite desta terça-feira. Na lista, a capital Washington (o Distrito de Columbia), a cidade de Nova York, o condado de Los Angeles e outros municípios da California, Cleveland, em Ohio, e Atlanta, na Georgia.

Com toques de recolher decretados, confrontos entre policiais e manifestantes vem sendo registrados, sobretudo na parte da noite. Em Nova York, as manifestações tiveram caráter eminentemente pacífico, mas foram muito mais numerosas — o número de marchas aumentou de três para catorze, a medida em que falas recentes do presidente Donald Trump foram consideradas pelos manifestantes como formas de provocação. 

O presidente vem condenando a morte de Floyd, mas adotando postura crítica aos protestos, prometeu usar militares caso governadores não tomem medidas efetivas contra o que chamou de “distúrbios”.

Equipes da CNN acompanharam os protestos no país nesta terça-feira. A reportagem verificou que a polícia metropolitana de NY obteve sucesso em implementar o toque de recolher, com alguns sobressaltos mais pontuais e empurra-empurra.

Em Los Angeles, o toque de recolher foi adotado às 19h no horário local, para evitar o risco de confusões com o escurecer do dia. Dezenas de manifestantes que se recusavam a deixar as ruas passam agora por averiguação por parte da polícia e podem ser presos.

Durante o dia, os protestos correram de forma pacífica e contaram com a participação do prefeito Eric Garcetti. “Eu estou orgulhoso dos manifestantes ao longo da cidade que estão se expressando de forma pacífica”, afirmou, em coletiva de imprensa.

O trabalho de contenção está sendo majoritariamente feito pelas polícias locais. A Guarda Nacional, corporação militar que pode ser empregada entre policiamento e conflitos armados, faz uma espécie de cordão de apoio.

O Pentágono decidiu enviar 1.600 tropas para a proteção da região de Washington. Em memorando, o secretário de Defesa, Mark Esper, defendeu a posição do presidente Donald Trump. “O pessoal do Departamento de Defesa fez um juramento de defender a Constituição dos Estados Unidos. Eu mesmo jurei diversas vezes nas minhas carreiras militar e civil, e acredito fortemente nisto. Como parte desse juramento, nós nos comprometemos a proteger o direito do povo americano de liberdade de expressão de reunião”, escreveu.

Em publicação na sua conta oficial do Twitter, Trump criticou o governador de Nova York, Andrew Cuomo, por não aceitar a ajuda federal. “Caos, ilegalidade e destruição tomam conta de Nova York”, replica o presidente, em afirmação atribuída à rede Fox News. “Quando o governador Cuomo ligará para o governo federal em busca de ajuda?”, questionou.

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos elevou para o segundo nível mais alto em momentos de conflitos civis as condições de segurança do Pentágono e outras instalações militares da capital americana. Chamado de “Charlie”, o novo protocolo é adotado quando um incidente ocorre ou há informações de inteligência indicando alguma forma de terrorismo contra autoridades ou instalações sendo considerada “provável”.

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Funeral

Medidas vem sendo adotadas como reação aos movimentos de rua. Primeiro, Derek Chauvin, policial que ajoelhou no pescoço de Floyd antes da morte do homem negro, foi preso. Segundo a família do homem, a autópsia de George Floyd indica homicídio por asfixia.

Segundo comunicado do advogado Benjamin Crump, que representa os familiares, as homenagens póstumas a ele serão prestadas em três estados, Minnesota, Carolina do Norte e Texas. O primeiro está previsto para quinta-feira (4), com um memorial na North Central University, em Minneapolis.

No sábado (6), uma visitação pública e novo memorial acontecerá em Raeford, na Carolina do Norte, em um centro de conferência, sendo sucedido de um velório fechado aos familiares. Por fim, um terceiro memorial ocorrerá em Houston.

Nesta terça, o Departamento de Direitos Humanos de Minnesota anunciou uma investigação sobre cumprimento de direitos civis na polícia de Minneapolis, cidade onde o homem morreu. A investigação será ampla e vai abordar os últimos dez anos.

“Calar é consentir. Os minnesotans podem esperar que o nosso governo usará todas as ferramentas a nossa disposição para desconstruir gerações de racismo sistêmico no nosso estado”, afirmou o governador Tim Walz, em comunicado.

O movimento do Minnesota teve eco em Illinois, onde o governador J.B. Pritzker defendeu a necessidade reforma policial. “Mudanças reais e estruturais, vindas de um protesto acompanhado por políticas. Isso significa uma reforma policial com investigações genuínas, transparência e fiscalização”, afirmou.

Política

A presidente da Câmara dos Deputados, a democrata Nancy Pelosi, condenou a posição do presidente Donald Trump, afirmando que ele “atravessou outro limite para diminuir a nossa democracia” com a sua visita à Igreja de St. John após manifestações pacíficas na segunda-feira à noite.

Críticos estão colocando a visita como uma “photo-op”, o que na cultura política americana é algo semelhante a uma foto produzida para ter um impacto político. A reverenda Gini Gerbasi afirmou à CNN ter visto o momento em que a polícia disparou balas de borracha para dispersar manifestantes e permitir que Trump entrasse no local para dar uma volta na igreja e tirar fotos. Para ela, Trump transformou “um local santo em uma photo-op”.

Republicanos saíram em defesa do presidente. Para o senador John Kennedy, da Louisiana, a visita de Trump à igreja, “não só é apropriada”, como era “necessária”. Ele afirmou que o presidente passou o recado de que “o governo vai proteger os inocentes”.

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