Geração do clima na COP26: como a crise levou os jovens até a mesa de discussões

Apesar da inclusão, eles querem ser reconhecidos como parceiros reais pelo clima e cobram ações imediatas para frear as mudanças climáticas

Jovens ativistas do clima reunidos na sede da COP26, a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2021
Jovens ativistas do clima reunidos na sede da COP26, a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2021 Foto: UNFCC/COP26

Rachel Ramirezda CNN

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A ativista Vanessa Nakate tinha 21 anos quando enchentes mortais inundaram vastas áreas de África Oriental em 2018. Ela não se considerava uma ativista do clima na época, mas, logo depois o desastre, ela e seus irmãos mais novos e primos decoraram cartazes e iniciaram protestos climáticos em sua cidade natal, Kampala, capital de Uganda.

Com a intensificação das tempestades, incêndios florestais devastadores e seca implacável causando estragos na África e em todo o mundo, Nakate acusou publicamente os governos de não fazerem o suficiente para tornar a Terra habitável para as gerações futuras.

Ela diz que os jovens entendem a urgência de se afastar dos combustíveis fósseis muito melhor do que as gerações anteriores.

“Quero ver líderes, governos e corporações erguendo suas vozes pelo povo”, disse Nakate à CNN. “E isso significa acabar com os projetos de combustíveis fósseis. Como eu sempre digo: não podemos comer carvão, não podemos beber petróleo e não podemos respirar o chamado gás natural”.

A geração de Nakate está amadurecendo em um mundo que está esquentando muito mais rápido do que os cientistas previram, e os jovens veem claramente a catástrofe climática que se aproxima.

Eles estão contestando as estruturas de poder das quais são alijados, abrindo caminho nas conversas para ter a palavra sobre seu próprio futuro. Eles estão canalizando sua energia ansiosa para organizar manifestações e protestos sobre o clima, faltar às aulas para sentar-se do lado de fora dos prédios do Parlamento e da sede da ONU por longas horas e responsabilizar os governos em fóruns públicos, como a cúpula do clima, a COP26, sobre o uso contínuo de combustíveis fósseis.

Eles há muito se sentem ignorados pela geração mais velha de líderes. Jovens ativistas que falaram com a CNN disseram que não achavam que demoraria tanto para os países se comprometerem a resolver a crise climática.

Jovens querem ser vistos como parceiros reais

Vladislav Kaim, um ativista moldavo de 26 anos, começou a defender a ação climática em 2014. Seis anos depois, ingressou no Grupo de Aconselhamento Juvenil do Secretário-Geral da ONU sobre Mudanças Climáticas.
Agora vestindo terno e caminhando ao lado de poderosos tomadores de decisão e influenciadores de políticas públicas no cenário internacional, ele sente que o jovem ainda precisa ser reconhecido como um parceiro de igual para igual.

“Se não implementarmos este princípio de coigualdade de especialização com os jovens, temo que não haverá nenhum diálogo intergeracional representativo e nenhuma mudança significativa na forma como as estruturas de poder operam”, disse Kaim à CNN.

“Interagir no trabalho com estruturas de poder e ao mesmo tempo contestá-las é andar na corda bamba”, acrescentou.

“Quando atuo nesses corredores de poder, fico pressionando especialmente os pontos que são importantes para minha região, mas também encontro aliados de outras regiões, as comunidades vulneráveis que compartilham a mesma causa”.

Apesar de se sentirem à margem, os jovens estão achando esses caminhos. Eles têm processado governos, apresentado queixas à ONU, exigindo a educação para a questão climática, feito greve de fome, instalado infraestrutura verde, testemunhado em agências governamentais e até mesmo ganhado eleições – tudo em nome da crise climática.

“Se os jovens ativistas sozinhos podem transformar comunidades, isso mostra que os governos são de fato capazes de transformar seus países ou o mundo”, opinou a ugandense Nakate, agora com 24 anos. “Mas o que falta é vontade política para isso”.

As ativistas pelo clima Greta Thunberg e Vanessa Nakate nos bastidores da COP26
As ativistas pelo clima Greta Thunberg e Vanessa Nakate nos bastidores da COP26 / Foto: Twitter/Vanessa Nakate

Nakate, que é negra, apareceu no cenário global em janeiro de 2020, quando a agência de notícias Associated Press cortou-a de uma foto para a qual ela posou ao lado de Greta Thunberg e outros jovens ativistas brancos no Fórum Econômico Mundial em Davos.

Sally Buzbee, a editora executiva da AP na época, desculpou-se pelo erro. “Lamentamos publicar uma foto esta manhã que cortou a ativista do clima Vanessa Nakate, de Uganda, a única pessoa não branca na foto”, declarou Buzbee. “Como uma organização de notícias, nos preocupamos profundamente em representar com precisão o mundo que cobrimos”.

Mas isso desencadeou uma conversa mais ampla sobre as desigualdades dentro do movimento climático e o papel que os jovens negros estão desempenhando. “Você não apenas apagou uma foto”, Nakate tuitou em resposta. “Você apagou um continente”.

O momento foi uma virada para seu ativismo, mas Nakate tem feito um trabalho em seu país que mostra que ela é mais do que a ativista que foi cortada de uma foto.

Seu livro “The Bigger Picture” (“O Quadro Mais Amplo”, sem edição no Brasil) descreve seu envolvimento em protestos em Uganda, seu trabalho em rede com jovens ativistas em todo o mundo e a instalação de painéis solares e fogões com eficiência energética para escolas em comunidades rurais de Uganda.

Ela diz que percebeu que, já que os governos não tomam medidas concretas para uma transição justa dos combustíveis fósseis e o fim do desmatamento desenfreado, ela precisava de uma abordagem mais holística para lidar com as várias crised que Uganda tem enfrentado, como as condições inseguras de aprendizagem, a pobreza energética e a desigualdade de gênero.

“Se os jovens podem criar e concretizar esses projetos e transformar a vida das pessoas, o que dizer desses governos que têm todos os recursos, todo o dinheiro e toda a infraestrutura ou as conexões de que precisam para fazer essas coisas acontecerem?”, questionou a ativista.

Isso é o que Aji Piper, agora com 21, diz que vem perguntando desde os 12 anos.

Violação de direitos dos jovens à vida, à liberdade e à propriedade

Em 2015, Piper e 20 outros jovens ativistas do clima processaram o governo dos EUA no caso chamado Juliana x Estados Unidos, no qual a parte queixosa argumentou que o papel do governo em causar e perpetuar a crise climática viola os direitos constitucionais dos jovens à vida, à liberdade e à propriedade.

Recentemente, eles pediram a um juiz federal no estado do Oregon que ouvisse uma versão com emendas da ação depois que o 9º Tribunal de Recursos dos Estados Unidos rejeitou o caso em 2020.

Piper disse que o processo foi estressante para ele. Convencer os adultos no poder, disse ele, sempre foi o aspecto mais desafiador.

“Eles de fato subestimam nossa inteligência”, desabafou Piper à CNN. “Não consigo descrever quantas vezes a resposta que recebi das pessoas foi tipo, ‘Ah, pobre menino trabalhando na pauta dos adultos’”.

O jovem ativista Aji Piper ao lado do senador norte-americano Ed Markey
O jovem ativista Aji Piper ao lado do senador norte-americano Ed Markey / Foto: Twitter/Ed Markey

“Essa foi a coisa mais difícil de superar, a de que os adultos realmente me viam como uma criança – falando palavras de adulto entre eles – em vez de um jovem preocupado com meu futuro, entendendo o problema e tentando convencê-los a enxergar o meu ponto de vista”, acrescentou.

O processo inspirou outros esforços jurídicos liderados por jovens sobre o clima em todo o mundo. Em 2019, 15 jovens ativistas, incluindo Thunberg, apresentaram uma queixa à ONU dizendo que a inação sobre a mudança climática é uma violação dos direitos das crianças e adolescentes.

Em outubro, o Comitê das Nações Unidas para os Direitos da Criança disse que não poderia decidir imediatamente sobre o caso. Litokne Kabua, um ativista climático de 18 anos da República das Ilhas Marshall, estava entre os 15 que apresentaram a queixa na ONU.

As ilhas onde vive são assoladas pelo legado de contaminação militar e injustiça ambiental. Em 2019, pesquisadores descobriram que as Ilhas Marshall eram mais radioativas do que Chernobyl e Fukushima. Os ilhéus enfrentaram os impactos na saúde do lixo nuclear, espremido numa cúpula de 85 mil metros cúbicos, agora ameaçada pela elevação do mar.

De forma preocupante, as Ilhas Marshall pagam um preço alto pelo fracasso de outros países em se livrar dos combustíveis fósseis.

“Acredito que nós, os jovens, entendemos que enfrentaremos desafios muito mais sérios do que os que vemos agora”, disse Kabua à CNN, “mas alguns da geração mais velha ainda parecem desaprovar esse tipo de declaração”.

Mitzi Jonelle Tan, organizadora de justiça climática da Youth Advocates for Climate Action das Filipinas, é uma testemunha da crise. Ela cresceu assistindo a fortes tempestades, inundações e deslizamentos de terra em seu país natal, principalmente em comunidades de baixa renda ao longo da costa. Em 2013, o tufão Haiyan atingiu as Filipinas e matou mais de seis mil pessoas.

“Nossa ansiedade, especialmente para as pessoas no Sul Global, vem do trauma climático”, afirmou Tan à CNN. “Sabemos que nossos países serão os mais impactados, aliás já são os mais impactados, e sabemos como é essa situação. Já conhecemos o medo de que isso nos traz e sabemos que o quadro vai piorar se tudo continuar como está”.

Jovens defensores do clima na COP26, em Glasgow
Jovens defensores do clima na COP26, em Glasgow / Foto: UNFCC/COP26

Proporcionar conhecimento sobre a questão climática e transformá-lo em ação ainda é um desafio

Em países em desenvolvimento como Filipinas e Uganda, a injustiça ambiental adiciona outra camada ao desafio de conter a crise climática. Conforme a mudança climática reduz os recursos naturais, estudos elaborados por organizações mostram que as Filipinas, bem como os países da África e da América do Sul, estão entre as nações mais mortíferas para pessoas que tentam defender seu meio ambiente.

A luta para impedir a poluição por combustíveis fósseis é pessoal para Tan, que sofre com uma doença pulmonar. Mas, devido à falta de educação sobre a mudança climática nas Filipinas, a maioria das pessoas não tem consciência de como o clima está relacionado a outras questões, como saúde pública.

Para resolver essa lacuna, Tan e outros ativistas do YACAP entregaram planos de aula sobre o clima para comunidades vulneráveis e estão em negociações com o Ministério da Educação para institucionalizar a aprendizagem sobre o clima no currículo.

“Com certeza há uma lacuna de conhecimento, porque mesmo olhando para a ciência do clima disponível, está tudo em inglês”, disse Tan à CNN. “Essa barreira do idioma é uma algo enorme. São essas pequenas coisas que achamos que não são tão importantes, mas na verdade são e são muito, que é ter uma linguagem que as pessoas entendam sobre a crise climática para que elas recebam conhecimento e possam transformar em ação”.

Carta de jovens ativistas é assinada por mais de 1,5 milhão de pessoas

À medida que a crise climática se intensifica, o mesmo acontece com o movimento jovem. Com o início da COP26 em Glasgow, Nakate e Tan lançaram um carta aberta que apela urgentemente aos líderes mundiais para “enfrentar a emergência climática”.

A carta, que inclui um plano de cinco pontos, já foi assinada por mais de 1,5 milhão de pessoas em todo o mundo, em outro exemplo de juventude liderando o caminho.

“A mudança climática é mais do que apenas clima, é mais do que uma estatística, ela diz respeito às pessoas – e as pessoas estão sendo impactadas agora”, afirmou Nakate. “Os jovens ativistas sabem que podemos transformar este mundo. É hora de olhar para a mudança climática além do que temos visto, é hora de olhar o quadro mais amplo”.

(Este texto é uma tradução. Para ler o original, em inglês, clique aqui).

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