Governo Trump vai à Justiça contra publicação de livro escrito por ex-assessor

Casa Branca acusa John Bolton de divulgar informações sigilosas; defesa do ex-advogado vê governo tentando impedir livro desfavorável a Trump

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump Foto: Jonathan Ernst/Reuters (14.jun.2020)

Da CNN

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O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ingressou com uma ação na Justiça para impedir a publicação de um livro escrito por John Bolton, ex-assessor de segurança nacional da Casa Branca.

Segundo o processo, a obra expõe informações confidenciais e ameaça a segurança nacional. A ação também diz que Bolton se recusou a submeter o livro a um processo de verificação ao qual ele estaria obrigado por acordos de confidencialidade assinados.

“(Bolton) fechou um acordo com os Estados Unidos, como condição para que fosse empregado em um dos mais sensíveis e importantes cargos da segurança nacional no governo dos Estados Unidos e agora quer renegar aquele acordo para, unilateralmente, decidir que o processo de revisão pré-publicação está completo, decidindo ele mesmo quais informações classificadas devem ser tornadas públicas”, escrevem os procuradores. 

O processo é uma das medidas mais extremas tomadas nos últimos anos pela Casa Branca a fim de impedir um ex-auxiliar de Trump de recontar a sua experiência. Bolton e o governo dos EUA estão travando uma batalha nos últimos meses a respeito da obra, que narraria as resistências internas quanto à política externa do governo americano.

O livro de John Bolton já foi enviado para pontos de distribuição tendo em vista a data prevista para o lançamento. O ex-assessor também gravou uma entrevista com a emissora ABC, prevista para ir ao ar no domingo (21). Uma fonte próxima a Bolton afirma que a intenção dele é publicar o livro na terça-feira que vem, como previsto, o que significa que ele espera lidar com eventuais problemas legais com o governo depois do lançamento, não antes.

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Em comunicado, a editora Simon & Schuster, responsável pela publicação da obra, afirmou que o processo “nada mais é do que o último de uma longa série de esforços feitos pelo governo para barrar a publicação de um livro que consideram desagradável para o presidente”.

“O embaixador Bolton trabalhou em cooperação com o NSC (Conselho de Segurança Nacional, na sigla em inglês) na sua revisão pré-publicação para endereçar suas considerações e a Simon & Schuster apoia totalmente seu direito garantido pela Primeira Emenda de poder contar a história sobre o seu período na Casa Branca ao público americano”, diz a nota.

CNN procurou o advogado de John Bolton para um comentário, mas ainda não obteve resposta. Em uma carta enviada ao assessor jurídico do NSC na semana passada, o advogado do embaixador acusou a Casa Branca de querer impedir a publicação do livro por “razões puramente políticas”, acrescentando que “para efeitos práticos, vem tarde demais”.

Em divulgação nesta semana, a editoria afirma que o livro detalha as negociações de Trump com China, Rússia, Ucrânia, Coreia do Norte, Irã, Reino Unido, França e Alemanha. “Este é o livro que Donald Trump não quer que você leia”, afirmou a editora. “The Room Where It Happened: A White House Memoir”, ainda sem tradução para o Brasil, tem publicação agendada para o próximo dia 23 de junho.

Verificação

A ação protocolada detalha o longo processo de idas e vindas para a verificação das informações contidas no livro. O rascunho original foi submetido à Casa Branca no final do ano passado e recebeu rapidamente a informação de que continha um grande número de informações classificadas, algumas consideradas “Top Secret”.

Após diversas reuniões presenciais e rodadas de edição, Bolton parecia ter concluido o processo de revisão quando a oficial Ellen Knight considerou que a versão de então do manuscrito não tinha mais informações sigilosas.

Menos de uma semana depois, um pedido de Robert O’Brien, que sucedeu Bolton como assessor de segurança nacional, reabriu a análise, agora conduzida por Michael Ellis, diretor sênior de inteligência do NSC. A alegação de O’Brien é que o material continua tendo informação classificada porque “o mesmo governo no qual o autor trabalhou segue em atividade e o manuscrito descreve informações sensíveis sobre assuntos de política externa em andamento”.

No dia 9 de junho, Michael Ellis concluiu seu processo de revisão concordando com a posição de Robert O’Brien, no mesmo momento em que o notícias passaram a revelar a intenção de John Bolton de ir adiante com a publicação do livro neste mês mesmo que não obtivesse a aprovação da Casa Branca.

A assessoria legal do NSC escreve que o manuscrito contém “informações que ele mesmo [Bolton] classificou e estão colocadas para serem desclassificadas apenas depois da passagem de vinte e cinco anos”

O presidente Donald Trump afirmou nesta segunda-feira que Bolton terá “problemas criminais” caso o livro seja publivado como está. O processo que o governo ingressou, no entanto, tem caráter de direito civil e não inclui possíveis penalidades criminais. 

Trump afirmou também, de forma incorreta, que quaisquer conversas que o ex-assessor teve com ele são classificadas e passíveis de ações penais. “Eles estão na justiça ou em breve estarão na justiça”, disse.

(Reportagem de David Shortell, Kaitlan Collins e Jeremy Diamond, da CNN. Leia reportagem original em inglês).

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