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    Ilha no Panamá é esvaziada devido ameaça de elevação do nível do mar

    Primeiros ilhéus indígenas de Gardi Sugdub são forçados a partir

    Vista aérea da ilha Gardi Sugdub em 11 de outubro de 2023
    Vista aérea da ilha Gardi Sugdub em 11 de outubro de 2023 Adri Salido/Getty Images

    Rachel RamirezEdu Poncesda CNN

    Gardi Sugdub, Panamá

    Gardi Sugdub é uma das cerca de 50 ilhas que abrigam o povo indígena Guna, que construiu uma vida dedicada ao oceano, à pesca e ao turismo. Os ilhéus indígenas são a primeira comunidade insular do Panamá solicitada pelo governo a se mudar para o continente nas próximas décadas.

    Os indígenas de Gardi Sugdub  já habitaram florestas e montanhas, em uma área que abrange a Colômbia e o Panamá. Mas foram forçados a fugir há cerca de 300 anos devido aos conquistadores espanhóis e conflitos com outros grupos indígenas.

    Agora, o próprio oceano em que o povo Guna confiava há muito tempo representa uma ameaça à sua existência, à medida que o rápido aquecimento das temperaturas globais aumenta o nível do mar no mundo.

    Depois de muitos anos de planejamento, mais de mil pessoas Guna finalmente receberam as chaves de suas novas casas, e muitos começaram lentamente a se mudar para uma cidade recém-construída chamada Isber Yala, nos últimos dias.

    Os indígenas da região não são legalmente obrigados a se mudar e muitos estão optando por permanecer em suas ilhas natais.

    As pessoas que vivem nas ilhas do arquipélago Guna Yala, que inclui Gardi Sugdub, estão entre os primeiros refugiados climáticos na região.

    Os residentes locais em Gardi Sugdub, no entanto, dizem que também há preocupações de longa data de que a sua ilha esteja ficando lotada. A crise climática acaba acelerando a realocação.

    “O povo Guna e outras comunidades indígenas no Caribe serão afetados pelo aumento do nível do mar na região, então é claro que temos que estar preparados”, disse Blas Lopez, um líder Guna em Gardi Sugdub, que fez parte do comitê de realocação, à CNN.

    “Está na história oral do povo Guna, sempre falamos sobre o que acontece quando sopram os ventos fortes, as comunidades ficam inundadas. As consequências podem acontecer em 30 ou 50 anos. Então, temos que nos organizar, temos que planejar”, acrescenta.

    Mesmo que o mundo reduza drasticamente a poluição que provoca o aquecimento do planeta e causa as alterações climáticas, os cientistas dizem que uma certa elevação do nível do mar já está bloqueada até ao final do século.

    E esse aumento não acontecerá de maneira uniforme em todo o mundo. Ilhas pequenas e baixas nos trópicos, como as do arquipélago de Guna Yala, sofrerão o impacto. Nestas regiões, a elevação é existencial.

    “Dentro de 40 a 80 anos – dependendo da altura das ilhas e da taxa de aumento do nível do mar – a maioria, se não todas as ilhas habitadas, estarão literalmente submersas”, alertou Steven Paton, diretor do programa de monitoramento físico do Smithsonian Institution no Panamá.

    Uma mulher vestindo roupas tradicionais Kuna prepara o jantar em sua cozinha em 11 de outubro de 2023 em Gardi Sugdub, Panamá.
    Uma mulher vestindo roupas tradicionais Kuna prepara o jantar em sua cozinha em 11 de outubro de 2023 em Gardi Sugdub, Panamá. / Adri Salido/Getty Images

    Vivendo lado a lado

    Nadin Morales, uma jovem residente Guna de Gardi Sugdub, disse que está ansiosa para começar uma nova vida no continente do Panamá. A nova cidade possui mais de 300 casas de dois quartos, estradas pavimentadas, iluminação pública e uma grande escola.

    É um nítido contraste com as condições de vida na ilha, onde mora em uma casa superlotada com quatro famílias diferentes. Como muitas residências ali, as condições tornaram-se desafiadoras devido à superpopulação.

    A pequena ilha tem problemas de superlotação. Muitas casas foram construídas com muito pouco espaço entre elas. Como resultado, as pessoas também são forçadas a viver lado a lado dentro de suas próprias casas.

    “Em uma das casas, vimos que havia 17 pessoas morando nelas”, disse à CNN Ana Spalding, cientista social, também do Smithsonian Tropical Research Institute que mora no Panamá.

    “A partir de conversas com líderes comunitários, eles sentiam há muito tempo que, além das mudanças que estavam vendo no clima, eram pessoas demais”, a cientista relatou.

    A superlotação teve consequências para a saúde dos Gunas, o acesso à água e a educação das crianças, disse Lopez, o líder Guna.

    Esses problemas tornam-se ainda mais desafiantes quando os fortes ventos e chuvas de uma tempestade atingem as ilhas ou inundam as casas das pessoas.

    As alterações climáticas estão atingindo o povo Guna em muitas frentes.

    Não só grande parte da água proveniente do derretimento do gelo em locais como a Groenlândia acaba nos trópicos, como o excesso de calor também está causando o inchaço dos oceanos do mundo, elevando ainda mais o nível do mar.

    Esse calor também está intensificando as tempestades tropicais e tornando-as mais destrutivas.

    Mas os Guna estão acostumados a encontrar seus próprios meios de proteção.

    Os moradores extraem corais do oceano e os empilham com pedras para construir barreiras entre suas casas e a água. Eles funcionam por um tempo, mas são, na melhor das hipóteses, um paliativo.

    As opiniões entre o povo Guna sobre se a crise climática é responsável pela sua realocação são divergentes e muitas vezes a divisão é geracional.

    Victor Peretz, um residente de Guna Yala, de 34 anos, que trabalha na indústria do turismo, disse que seu pai, de 60 anos, lhe diz que as mudanças climáticas são normais e sazonais.

    Peretz, por outro lado, acredita que a crise climática poderá trazer mudanças para a ilha nas próximas décadas.

    “A mudança climática é grave”, disse o residente à CNN. Mas ele afirmou que era a superlotação que tornava a realocação mais urgente.

    “A realidade é que se trata mais de superpopulação, porque as famílias estão crescendo”, relatou Peretz.

    Spalding, a cientista social, disse que a divisão geracional também pode determinar quem permanece na ilha e quem sai. “Os mais jovens, como as famílias jovens, vão se mudar”, disse ela.

    Desconectado do mar

    A cidade de Isber Yala, construída pelo governo, não poderia ser mais diferente das casas do povo Guna na ilha.

    Fileiras de casas pré-fabricadas de dois quartos ladeiam estradas de asfalto. Cada moradia é idêntica: estruturas térreas creme empoeiradas com telhados laranja-avermelhados, muito longe da mistura de cabanas e casas da ilha.

    Mas há preocupações crescentes de que a mudança tenha sido apressada. A cidade ainda não tem acesso à água e nenhum centro de saúde funcional.

    Lopez, o líder Guna, disse que embora as pessoas estivessem prontas para se mudar, não havia luzes funcionando e serviços básicos como coleta de lixo não foram planejados.

    “Há falta de planeamento a nível social, a nível económico, a nível ambiental e a nível ecológico”, afirmou.

    Algumas pessoas Guna estão decepcionadas porque as novas casas não respeitam o seu modo de vida tradicional. A sua nova cidade foi construída no interior, desligada do mar. Mas Lopez destacou que o povo Guna já se adaptou uma vez.

    “Há muitos anos, o povo Guna chegou às costas insulares do Mar do Caribe, mas somos originários das montanhas, dos rios e das florestas”, disse à CNN.

    Voltar para terra é necessário para “melhorar a qualidade de vida, especialmente das crianças”, acrescentou o líder indígena.

    Existem também problemas logísticos. Embora o governo tenha financiado a construção das casas, ainda é necessário descobrir como o povo Guna irá pagar ou ter acesso às necessidades básicas, como eletricidade e água.

    Aqueles que ficaram para trás em Gardi Sugdub e nas outras ilhas Guna Yala estão observando com grande interesse, disse Lopez, e podem seguir se as realocações iniciais forem um sucesso.

    O povo Guna estará mais longe de perigos no continente, mas em um mundo em rápido aquecimento, não há lugar seguro.

    E há uma clara injustiça nisso, disse a cientista social, Spalding.

    Tal como muitos grupos indígenas em todo o mundo, os Guna Yala contribuíram com uma quantia insignificante para a crise climática, mas estão presos na linha da frente.

    Paton, diretor do programa de monitoramento físico do Smithsonian Institution no Panamá, dá palestras regulares sobre ciências climáticas em algumas das ilhas Guna Yala.

    O especialista relembrou um episódio recente, quando membros da comunidade expressaram a sua frustração com o mundo.

    “Porque para os Guna era muito simples”, disse ele, “basta parar de danificar a Mãe Terra”.

    Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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