Imaginava-se que conflitos seriam marginalizados, diz filósofo
Marcelo Consentino, doutor em Filosofia da Religião, reflete sobre o ressurgimento de conflitos armados após a Guerra Fria, contrariando expectativas de que o comércio e democracia os eliminariam
Após a Segunda Guerra Mundial, havia uma expectativa generalizada de que os conflitos armados seriam gradualmente marginalizados pela expansão do comércio internacional, pelo fortalecimento da democracia e pelo desenvolvimento de instituições multilaterais. Esta perspectiva foi reforçada com o fim da Guerra Fria, período em que, como o próprio nome sugere, as tensões entre potências mundiais estavam congeladas em uma situação de rivalidade, mas sem confronto direto.
Marcelo Consentino, doutor em Filosofia da Religião pela PUC-SP, observa que essa visão otimista ganhou notoriedade com o famoso livro "O Fim da História", de Francis Fukuyama, publicado logo após o término da Guerra Fria. No entanto, a realidade seguiu um caminho diferente: "E, de repente, pouco depois, tem atentados terroristas, jihadistas ali em Nova Iorque. Agora, a guerra retorna para a Europa, depois de 80 anos de Segunda Guerra. E, de fato, a gente vive hoje um novo momento de perplexidade", explica.
Raízes do conflito e a natureza humana
Ao abordar as causas fundamentais dos conflitos, Consentino apresenta uma resposta direta: "Por que existe a guerra? Acho que a resposta curta é porque existe o egoísmo. Existe o egoísmo em coração humano. Se a gente for falar em termos religiosos, existe o pecado, existe a ganância, existe o orgulho. Tudo isso está aí".
O filósofo contextualiza essa realidade no âmbito das relações internacionais que, segundo ele, citando o professor Rosenfield, são "necessariamente anárquicas", uma vez que não existe um poder supranacional efetivo sobre os Estados nacionais. Esta ausência de autoridade superior cria um ambiente propício para o ressurgimento de conflitos quando interesses divergentes se chocam.
Apesar do atual cenário de guerra na Europa com a invasão da Ucrânia pela Rússia, Consentino reconhece que houve, de fato, uma redução na letalidade dos conflitos durante a segunda metade do século XX: "O que não quer dizer que, de fato, aquela ideia de fim da história hoje é um pouco caricata, mas tinha a sua razão de ser. Houve realmente uma diminuição da letalidade da guerra na segunda metade do século XX".
Ele observa também uma mudança no padrão dos conflitos nas décadas recentes: "Os conflitos se tornaram menos entre estados e mais, às vezes, dentro de estados contra milícias ou entre milícias, mas agora retorna e a gente tem que lidar com esse problema". Esta constatação evidencia o retorno de uma forma de conflito que se acreditava superada – guerras entre Estados nacionais em território europeu – representando um desafio para as teorias que previam a progressiva pacificação das relações internacionais.
WW Especial
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