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    Irmãs que fugiram do Afeganistão em busca de segurança temem guerra na Ucrânia

    Jovens de 24 e 26 anos eram comissárias de bordo e agora vivem em micro apartamento, em Kiev, enquanto aguardam decisão de pedidos de asilo

    Fazila Haidary e sua irmã Shagufa fugiram do Afeganistão em agosto de 2021. Elas buscam asilo na Ucrânia, mas temem pelo futuro de sua pátria adotiva
    Fazila Haidary e sua irmã Shagufa fugiram do Afeganistão em agosto de 2021. Elas buscam asilo na Ucrânia, mas temem pelo futuro de sua pátria adotiva Timothy Fadek/CNN

    Mick Kreverda CNN

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    As irmãs Fazila e Shagufa Haidary já viajaram o mundo como comissárias de bordo, atendendo políticos e estrelas do pop.

    Agora, elas convivem juntas em um pequeno apartamento nos arredores de Kiev, capital da Ucrânia, navegando pelo TikTok para se manterem ocupadas.

    Após fugirem do Talibã e de décadas de guerra no seu país natal, o Afeganistão, as irmãs agora correm o risco de terem que enfrentar outro conflito em seu lar adotivo, a Ucrânia.

    “Agora, estamos no meio do nada”, diz Shagufa. “Acabamos de sair de um trauma único, e acho que vamos ter que enfrentar outro trauma”.

    A dupla está dividida entre o anseio pelo passado, os entes queridos que deixaram para trás e seus medos de um futuro profundamente incerto.

    Fazila, 26, e Shagufa, 24, são as irmãs mais novas de uma grande família. Membros da minoria étnica hazara, suas raízes estão em Bamyan, na região central do Afeganistão.

    Apesar das provações e tribulações da vida cotidiana no Afeganistão, as irmãs descrevem a vida que tinham antes da retomada do Talibã, no ano passado, como “os dias dourados”.

    Elas estavam matriculadas na universidade e seus empregos como comissárias de bordo as permitiam viajar amplamente. No trabalho, Fazila diz que conheceu todo mundo, desde o ex-presidente afegão Hamid Karzai até a estrela pop afegã Aryana Sayeed.

    Shagufa, à esquerda, e Fazila trabalhavam como comissários de bordo no Afeganistão / Arquivo pessoal

    Quando o Talibã assumiu o controle em Cabul no dia 15 de agosto de 2021, elas sentiram que não tinham outra escolha a não ser sair de lá.

    “Não tínhamos outra opção”, lembra Shagufa. “Tivemos que pegar um voo e fugir. E foi isso. Se tivéssemos outra opção, definitivamente escolheríamos outra opção em vez de ser um refugiado ou acabar aqui”.

    As irmãs pretendiam ir para Islamabad, no Paquistão, mas chegaram tarde demais ao aeroporto de Cabul. Elas se viram presas no caos de milhares de pessoas tentando sair do país.

    “A sensação naquela época era horrível”, diz Shagufa, descrevendo a enorme multidão de afegãos, todos desesperados para fugir. “Estávamos todos aterrorizados e sem noção, porque não sabíamos para onde estávamos indo.”

    As irmãs contam que, junto com alguns colegas de trabalho, foram até um avião estacionado em uma parte remota da pista. Elas não tinham ideia para onde o avião estava indo até minutos antes da decolagem.

    “Estávamos esperançosos. É como, ‘Ah, finalmente! Conseguimos’”, diz Shagufa, suspirando e abaixando a cabeça como fez na época.

    Mas o alívio de escapar do perigo logo deu lugar à dura realidade da vida como um requerente de asilo em um país estranho.

    Uma nova vida na Ucrânia

    Fazila e Shagufa estavam entre um grupo de 370 afegãos que chegaram à Ucrânia em voos de evacuação em agosto de 2021, segundo o Serviço de Migração do Estado da Ucrânia. Números definitivos são difíceis de obter, mas ativistas estimam que cerca de 5 mil afegãos vivem na Ucrânia.

    Ao chegarem no país – onde elas nunca haviam estado antes – as irmãs dizem que as autoridades as levaram para um alojamento de imigrantes a cerca de duas horas ao norte de Kiev, perto da fronteira com Belarus.

    Duas semanas depois, graças à ajuda de um amigo que trabalha para uma companhia aérea ucraniana, elas conseguiram se mudar para um apartamento mobiliado em um prédio modesto nos arredores da capital, Kiev.

    Mas as irmãs dizem que agora duvidam se deixar o Afeganistão foi a decisão certa.

    “Se eu soubesse que viver a vida aqui, (que) seria um desafio tão grande e tão difícil, eu não escolheria ser (uma) refugiada. Acredite em mim. Nunca”, diz Shagufa.

    As irmãs pediram asilo na Ucrânia e esperam por uma decisão dentro de semanas.

    As irmãs dizem que esperam uma decisão sobre seu pedido de asilo em breve / Timothy Fadek/CNN

    Mas com os pedidos ainda pendentes, elas dizem que têm lutado para encontrar trabalho em seu campo – apesar de terem documentação ucraniana que lhes permite conseguir empregos.

    Além de uma doação inicial de 3.200 hryvnias ucraniana (cerca de US$ 112 ou R$ 580) quando chegaram à Ucrânia, elas dizem que enfrentaram uma indiferença consistente da Agência da ONU para Refugiados, o ACNUR.

    “Eles estão fingindo que estão nos ajudando”, disse Shagufa. “Mas, na realidade, não é nada. Quando você quer ir até eles ou […] quando você quer falar com eles […] é totalmente diferente”.

    Em nota à CNN, Victoria Andrievska, porta-voz do ACNUR Ucrânia, disse que “fornece assistência jurídica a cerca de 300 requerentes de asilo afegãos e também fornece apoio financeiro na forma de um subsídio concedido aos recém-chegados requerentes de asilo”.

    O ACNUR também esclareceu que, embora expresse “solidariedade” com os países que receberam afegãos no ano passado, “não esteve envolvido na evacuação de cidadãos afegãos que ajudaram governos estrangeiros ou forças militares no Afeganistão” e que não foi responsável pela organização da emissão de vistos.

    E, no entanto, apesar das dificuldades, os sinais de alegria – e a força que as irmãs dão uma à outra – permanecem.

    Quando, no início de nossa visita, Fazila se apresenta e diz que mora em Cabul, as irmãs caem em risos incontroláveis. Shagufa a cutuca com prazer: “Você mora em Cabul?!”

    Incertezas em meio a tensões com a Rússia

    Agora, as irmãs enfrentam a mesma incerteza de todos em Kiev. No momento, as coisas estão calmas e a vida continua como sempre, mas a possibilidade de uma guerra iminente está crescendo – pelo menos de acordo com líderes estrangeiros.

    O presidente dos EUA, Joe Biden, disse na terça-feira que a Rússia tem mais de 150 mil soldados concentrados em três lados da Ucrânia.

    A Rússia nega que esteja planejando atacar, mas os Estados Unidos acreditam que uma invasão pode estar em andamento antes mesmo que os Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim terminem no final desta semana.

    Informações recentes dos EUA e seus aliados sugerem que Kiev pode estar entre os alvos da Rússia.

    “A pior parte disso é (como) lidar com nossa família em Cabul”, diz Fazila. “Eles também estão tendo seus próprios problemas em Cabul. Mas dói mais que eles pensem que estamos seguras aqui.”

    Para impedir que sua mãe, uma viúva, se preocupe com elas, seus irmãos instituíram um “protocolo familiar” impedindo-a de assistir ao noticiário.

    “Só meus irmãos sabem o que está acontecendo aqui”, diz Shagufa. “Mas minha mãe, não. Estamos fingindo que está tudo bem, está tudo certo. Claro, ela é mãe. Ela tem seus próprios medos em relação a nós, especialmente por suas duas filhas.”

    “Estávamos preocupadas com eles”, diz Fazila. “E agora estamos preocupadas com eles e também com nós mesmas”.

    Se a invasão acontecer, elas não têm planos de fuga. Elas dizem que estão com muito medo de tentar atravessar a fronteira para a Polônia ou outro país próximo.

    “Não somos corajosas o suficiente para cruzar a fronteira, caso contrário adoraríamos ir até lá”, diz Shagufa.

    As irmãs dizem que não tiveram garantias de ajuda da ONU.

    O ACNUR disse à CNN que reconhece a “ansiedade” das irmãs Haidary, juntamente com a de outros ucranianos; disse que estava instando o governo ucraniano a incluir refugiados em seu planejamento de contingência.

    Quando fugiram de Cabul, as irmãs pensaram que estavam entre os poucos sortudos. Agora elas não têm tanta certeza.

    “Não estou pronta para passar por isso novamente”, diz Shugufa.

     

    A jornalista Olga Voitovych contribuiu com esta reportagem.

    Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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