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    Líder de gangue procurado pelo FBI afirma libertar o Haiti após tirar governo

    CNN entrou no território das gangues do Haiti para entrevistar Vitel'homme Innocent, líder do grupo armado Kraze Baryé e um dos fugitivos na lista dos “Dez Mais Procurados” do FBI por mergulhar o país em uma crise de ilegalidades

    Líder de gangue Vitel'homme Innocent falando à CNN em Tabarre, Porto Príncipe, Haiti, em 18 de abril de 2024
    Líder de gangue Vitel'homme Innocent falando à CNN em Tabarre, Porto Príncipe, Haiti, em 18 de abril de 2024 Evelio Contreras/CNN

    Evelio ContrerasCaitlin Stephen HuDavid Culverda CNN* Porto Príncipe, Haiti

    A fotografia de Vitel’homme Innocent na lista de fugitivos dos “Dez Mais Procurados” do FBI sugere um homem enlouquecido – olhos arregalados e selvagens, dentes à mostra. É a foto que se poderia esperar de um líder de gangue acusado de desestabilizar uma nação, que afirma estar sob proteção divina e que tem uma recompensa de US$ 2 milhões pela sua cabeça por supostos sequestros.

    Pessoalmente, ele projeta uma imagem diferente, pelo menos para os convidados. Poderoso, sim, rodeado de ajudantes armados que o obedecem só pelo olhar – mas também cuidadosamente solícito, com uma geladeira cheia de sanduíches para os visitantes e uma tendência a filosofar nas conversas.

    Após semanas de negociações, a CNN entrou no território das gangues do Haiti no início desse mês para falar com Innocent, cujo grupo armado Kraze Baryé está entre os grupos aliados que mergulharam o Haiti em uma crise de ilegalidade. Ele é uma voz influente entre a liderança das gangues do país e acredita que a paz deve ser restaurada. Mas em que condições?

    Nos limites do distrito de Tabarre, na capital do Haiti, Porto Príncipe, na semana passada, um caminhão nos conduziu através de um labirinto de estradas de terra sinuosas, passando por postos de controle controlados por guardas armados usando balaclavas e máscaras de Halloween. Esbarramos no que antes era um bairro abastado; buganvílias cor-de-rosa ainda se espalhavam por muros altos e um campo de futebol verde se abria para vistas gloriosas da cidade abaixo.

    Agora, é quase uma cidade fantasma. Carros e motos começaram a seguir nosso carro, os motoristas mascarados, armas longas apontadas para fora das janelas. Alguns veículos ostentavam bandeiras haitianas vermelhas e azuis como um comboio diplomático desorganizado.

    Após cerca de 45 minutos, um carro dourado parou na frente. O próprio Innocent saiu. Ele era franzino e aparentemente desarmado, vestindo um terno batik listrado de cores vivas e mocassins macios, com um emaranhado de correntes de ouro e uma cruz pendurada no pescoço. Ele mostrou o caminho para uma mansão rococó, onde elaboradas cadeiras e sofás de veludo dourado, cristais e arranjos de flores de plástico sugeriam as preferências dos proprietários anteriores.

    Nos sentamos, tirando os ursinhos de pelúcia dos assentos para abrir espaço, e conversamos sobre o futuro.

    “O Haiti que tínhamos, o Haiti, a pérola das Antilhas onde crescemos, ainda pode voltar a ser o mais bonito”, disse Innocent, falando suavemente em crioulo haitiano. “Um dia, alguém poderá sentar no Champ de Mars e tomar um sorvete”.

    Hoje, o icônico parque Champ de Mars da capital é uma zona de guerra entre gangues e a polícia. Após anos de turbulência política, negligência institucional e uma série de desastres naturais brutais, a má sorte do Haiti foi levada ao seu ponto mais baixo no mês passado com uma onda sem precedentes de violência de gangues que efetivamente fechou Porto Príncipe.

    Membro da gangue Kraze Baryé em Porto Príncipe, Haiti, em 18 de abril de 2024 / Evelio Contreras/CNN

    O principal porto e aeroporto da cidade estão escuros. Os ministérios do governo foram assumidos por refugiados que fogem dos ataques de gangues. Os corpos jazem entre o lixo não recolhido nas ruas e os bairros ainda livres do controle de gangues têm visto o aumento de vigilantes cheios de medo, que matam e queimam pessoas suspeitas.

    Os sinais da disfunção da cidade eram evidentes no reduto de Kraze Baryé. Dentro da ampla casa de Innocent, o ar estava parado e quente; seus soldados de infantaria trabalharam para fazer funcionar um gerador para alimentar o ar-condicionado ou um ventilador. Ninguém se preocupou em remover o carro destruído que ainda estava ao lado da piscina, com as janelas quebradas e quatro pneus furados.

    Mas o homem no sofá dourado preferiu falar sobre um futuro melhor – um futuro que, segundo ele, as gangues do Haiti estão preparadas para introduzir.

    Reunir-se com um dos líderes de gangues do Haiti é controverso no país, dado o sofrimento e o terror que os grupos armados há muito semeiam. Incêndio criminoso e estupro coletivo são táticas preferidas de gangues para subjugar civis, dizem os especialistas, e as Nações Unidas registraram assassinatos ligados a gangues de pelo menos 1.660 pessoas e sequestros de pelo menos 438 pessoas – incluindo 21 crianças – apenas nos primeiros 90 dias do ano.

    O próprio Innocent está sob sanção das Nações Unidas por extensos abusos dos direitos humanos cometidos pela Kraze Baryé sob sua liderança e é procurado pela Polícia Nacional do Haiti por sequestrar para pedir resgate, assassinato, estupro, estupro à mão armada, roubo de veículos, roubo e destruição de propriedade. Sabe-se que o seu grupo tem como alvo direto a Polícia Nacional do Haiti e tem procurado tomar alguns dos bairros mais ricos de Porto Príncipe.

    Na sua primeira entrevista à imprensa estrangeira, Innocent não negou as mortes, os incêndios criminosos, os estupros ou os sequestros cometidos pelas gangues aliadas da cidade, e disse à CNN que cometeu alguns erros. Mas ele enquadrou os últimos meses de violência mortal nas ruas como danos colaterais.

    As mortes, tanto acidentais como extrajudiciais, também têm sido causadas pela polícia, salienta, alegando que esta se recusa a dialogar. Seu único arrependimento, disse ele, é ter se envolvido com política.

    As gangues e os oligarcas

    Innocent, de 37 anos, retrata a ampla aliança de gangues que atacam as instituições do Haiti como um empreendimento progressista. “Nosso sonho é nos livrarmos dos oligarcas que impedem o progresso do país”, disse ele sobre a coalizão de gangues que se autodenomina Viv Ansanm ou “Viver Juntos”.

    Em fevereiro, Viv Ansanm lançou um ataque sem precedentes ao estado haitiano, atacando delegacias de polícia, prisídios, edifícios governamentais, hospitais, o palácio nacional, a biblioteca nacional, navios de carga e a empresa pública de eletricidade. Os ataques coincidiram com uma visita do então primeiro-ministro Ariel Henry a Nairobi para conversações sobre o Quênia liderar uma força de segurança multinacional para reforçar a Polícia Nacional do Haiti.

    Henry acabou renunciando, como Viv Ansanm exigiu – mas Innocent diz que as gangues agora se opõem ao conselho de governo de transição criado para substituí-lo. A solução de Innocent: “Sente-se e ouça o Viv Ansanm”. Então, sugeriu ele, “haverá uma resolução o mais rápido possível”.

    Ele critica o conselho governamental como sendo mais do mesmo e diz que é hora das velhas elites políticas partirem – uma opinião defendida por muitos no Haiti. Mas as gangues têm há muito tempo uma relação simbiótica com os governantes do país, que usaram grupos armados para exercer pressão sobre os rivais por meio de raptos e outros ataques.

    A relação continua até hoje – embora as gangues do Haiti estejam cada vez mais agindo de forma independente para acumular dinheiro e poder, de acordo com especialistas.

    Carros abandonados na estrada entre a Embaixada dos EUA e o reduto da gangue Kraze Baryé em Porto Príncipe, Haiti, em 28 de abril de 2024 / Evelio Contreras/CNN

    “Sim, tenho um grupo armado. Eu os dirijo”, disse Innocent, quando questionado sobre o envolvimento da Kraze Baryé em sequestros. “Mas quando você realmente pensa sobre isso, será que esses caras realmente teriam alguma ideia de quem sequestrar e quem não sequestrar? De jeito nenhum”.

    “São realmente as mesmas pessoas que participam da (organização regional) CARICOM para representar o país. Se você optar por bloqueá-los, eles nos ligarão e dirão: ‘Eu tenho tal e tal trabalho… Resolva para nós’. E então você ouve que fulano de tal foi sequestrado. Ou fulano foi feito refém”, diz ele.

    São os funcionários corruptos que hoje canalizam armas e munições para as gangues, disse ele. “Vamos dar um exemplo claro. Não podemos viajar. Não conseguimos importar. Não podemos exportar. No entanto, sempre há armas chegando. Sempre há balas. E não temos representantes na fronteira. Não temos representantes na alfândega. No entanto, todos esses materiais passam exatamente por esses canais. Como eles chegam até nós?”, diz ele.

    A corrupção que ele descreve não é segredo. O Haiti ocupa atualmente a 172ª posição entre 180 países no Índice Mundial de Percepção da Corrupção. Ao longo do ano passado, as sanções impostas pelo Canadá e pelos Estados Unidos acusaram ex-primeiros-ministros e presidentes do Haiti – entre dezenas de outros haitianos influentes – de corrupção e de financiamento das gangues do país, entre outros crimes.

    Levando a CNN pelo seu território, Innocent disse que se lembra dos idosos locais que cultivavam em Tabarre durante sua juventude nas décadas de 1980 e 1990. “É claro que conseguimos colher naquela época”, lembra ele. Hoje, ele culpa a dependência do Haiti de alimentos importados como mais um sinal de como o país tem sido mal gerido pela classe alta, roubando às pessoas comuns todas as oportunidades econômicas.

    Antes de pegar em armas, afirma ele, os seus próprios negócios legítimos, incluindo uma empresa de construção, um hotel e uma empresa de aluguel de automóveis, foram destruídos por poderosos interesses comerciais na área.

    “Por que atacar pessoas comuns se você está tentando defendê-las?”

    Marie-Lucie Bonhomme Opont, de 55 anos, uma conhecida jornalista de rádio e televisão que já morou em Tabarre, tem uma visão diferente do que transformou o bairro no lugar desolado que é hoje.

    Ela foi roubada por membros da Kraze Baryé em junho do ano passado, diz ela, depois sequestrada e levada para conhecer o próprio Innocent. “Era meio da noite e eu estava dormindo quando de repente ouvi uma tremenda comoção lá embaixo”, lembra ela. “Cerca de 30 pessoas armadas invadiram minha casa e começaram a saqueá-la, levando coisas, até comida da cozinha”.

    Os ladrões exigiram dinheiro e depois, aparentemente insatisfeitos, levaram ela consigo. Eles dirigiram por cerca de 45 minutos, segundo Opont.

    “Fiquei com muito medo, bandidos entrando na minha casa. Chocada que isso pudesse acontecer em minha própria casa. Eu sei que eles são estupradores, cometeram estupros atrozes e outros crimes”, diz ela.

    Por fim, eles pararam no escuro. Opont disse à CNN que o próprio Innocent foi até o carro dela e perguntou se ela reconhecia a voz dele. “Claro que sim”, diz ela. “Ele costumava dar coletivas de imprensa e era muito ativo nas redes sociais”.

    Ele pareceu reconhecê-la também, dirigindo-se a Opont pelo nome. “É claro que ele sabia quem eu era”, diz ela. “Todo mundo na vizinhança sabe que aquela é a nossa casa. Mas por que eles me levaram, eu não sei. Eu ainda me pergunto”. Ela foi liberada na manhã seguinte sem explicação.

    Dentro do território da gangue Kraze Baryé em Porto Príncipe, Haiti, em 18 de abril de 2024 / Evelio Contreras/CNN

    O marido dela, sequestrado uma semana depois, não foi tratado tão bem. Detido à força durante vários dias sem medicação, Pierre-Louis Opont só foi libertado pela Kraze Baryé depois de terem obtido um pesado pagamento de resgate da sua família, diz ela.

    Eles saíram de Tabarre imediatamente. “É o que chamamos no Haiti de territoire perdue”, diz ela sobre o seu antigo bairro – um território perdido.

    “É uma zona vermelha”, elabora Opont. “Poucos dias depois do sequestro do meu marido, membros de gangues se instalaram em uma casa perto da estrada principal e atiravam contra os veículos que passavam”.

    Ela não tem paciência com as afirmações dos líderes de gangues de que estão lutando para libertar o Haiti.

    “Por que atacar pessoas comuns se você está tentando defendê-las?”, ela pergunta. “Todo o bairro é constantemente aterrorizado por bandidos armados. Como podem as gangues dizer que trabalham para o bem do país quando também cometem raptos, quando tantas mulheres foram vítimas de estupros brutais?”.

    “Predador e protetor”

    Vários colegas de Innocent estabeleceram personalidades públicas através da imprensa e das redes sociais. O ex-policial Jimmy Chérizier, conhecido como Barbeque (Churrasco, na tradução livre), se autodenomina uma figura do tipo Robin Hood.

    Izo, da gangue “Five Second” que atua próximo ao principal porto do país, também é músico e compartilha clipes online. E Lanmo Sanjou, líder dos 400 Mawozo (400 Idiotas, na tradução livre), foi recentemente fotografado fumando charutos com um influenciador de rede social.

    Embora sejam aliados, às vezes reunidos por videoconferência, a aliança Viv Ansanm não significa necessariamente amizade. Acompanhando a CNN até o limite de seu território, Innocent nos mostrou um amplo leito de rio e uma exuberante paisagem arborizada. Mas ele advertiu repetidamente que não deveríamos demorar muito, enquanto suas tropas se espalhavam de tênis e chinelos, com uma variedade heterogênea de armas em punho.

    Mais tarde saberíamos que do outro lado do leito do rio estava o território de 400 Mawozo, que supostamente cooperou com a Kraze Baryé em sequestros e também tentou matar Innocent por causa de uma disputa de terras, segundo dois especialistas em segurança do país.

    Em outras partes do seu bairro, Innocent fez questão de mostrar a sua liderança junto da população local – uma postura que corresponde ao papel de “predador e protetor” que os especialistas da ONU descrevem dos líderes de gangues haitianos, que funcionam como autoridades locais e ao mesmo tempo extorquem dinheiro das empresas locais para fazer a folha de pagamento.

    A Kraze Baryé emprega cerca de 100 homens e mulheres, segundo o tenente e primo de Innocent, Dezod Augustin, um jovem de 34 anos com cabelo descolorido. No dia da visita da CNN, vários membros de gangue usavam camisetas personalizadas com ursinhos de pelúcia na frente e letras nas costas que diziam “Unidade de Segurança da Área de Tabarre”.

    Caminhando lentamente por uma rua não pavimentada cheia de vendedores, Innocent parecia qualquer político em campanha local, parando para massagear o pé machucado de uma senhora idosa do mercado e apresentando a CNN a dois homens cegos que ele havia tomado sob sua proteção, culpando o estado haitiano por não cuidar deles.

    Com vista para o leito de um rio em direção ao território da gangue haitiana 400 Mawozo, em Porto Príncipe, Haiti, em 18 de abril de 2024 / Evelio Contreras/CNN

    Mas à medida que o toque de recolher noturno se aproximava, garrafas de cerveja e licor começaram a aparecer nas mãos de nossa comitiva. Innocent parou nossa procissão em uma barraca de comida à beira da estrada e pediu pilhas de carne de porco cozida e banana frita para compartilhar. O vendedor, um homem de meia-idade, obedeceu silenciosamente, não demonstrando nenhuma reação aos ajudantes armados de Innocent ou aos visitantes estrangeiros.

    Especialistas em direitos humanos no Haiti alertam contra a valorização aparente das demonstrações de liderança comunitária.

    “Os líderes de gangues falam sobre libertação e representação do povo para atrair o apoio popular”, adverte Gedeon Jean, analista de direitos humanos em Porto Príncipe que acompanha há anos o aumento dos sequestros cometidos por gangues. “Mas tudo o que eles querem é mais poder e um estado que acomode o seu crime”.

    Uma ilha americana na terra das gangues

    A menos de um quilômetro e meio de tudo isso fica a Embaixada dos EUA, com soldados posicionados no seu telhado para examinar constantemente o matagal que a rodeia. Na semana passada, membros da Kraze Baryé atacaram um bairro próximo, expulsando cerca de 150 pessoas das suas casas no escuro e disparando contra um homem no peito, segundo uma testemunha.

    Sendo uma ilha dentro do território de Innocent, o complexo diplomático é uma inversão da relação do Haiti com os próprios EUA; aqui, Kraze Baryé é a temível potência regional, dominando os bairros Torcell, Tabarre e Delmas através dos quais os americanos devem atravessar para chegar à sua embaixada.

    Essa geografia desconfortável também significa que Innocent está no caminho entre o resto das gangues do Haiti e Washington, cuja capacidade e apetite para intervenção militar no caos encharcado de sangue do país são objeto de constante especulação.

    Um vendedor ambulante que mora no território da gangue Kraze Baryé, é abordado por Innocent, em Porto Príncipe, Haiti, em 18 de abril de 2024 / Evelio Contreras/CNN

    Até agora, os EUA têm procurado evitar qualquer envolvimento militar no Haiti. Em vez disso, o secretário de Estado, Antony Blinken, anunciou em março que os EUA contribuiriam com US$ 300 milhões para uma missão multinacional de apoio à segurança no país.

    Mas até agora, apenas US$ 18 milhões foram depositados em um Fundo Fiduciário gerido pela ONU para a missão, sendo US$ 8,7 milhões fornecidos pelo Canadá, US$ 3,2 milhões fornecidos pela França e US$ 6 milhões fornecidos pelos Estados Unidos.

    A missão liderada pelo Quênia, que incluiria também pessoal das Bahamas, Bangladesh, Barbados, Benim, Chade e Jamaica, está atualmente suspensa devido a preocupações com a instabilidade política do Haiti.

    E apesar – ou talvez por causa – do seu status de “Mais Procurado”, Innocent parece interessado em manter o relacionamento da Kraze Baryé com a vizinhança da embaixada. “É uma honra quando um país tem a sua embaixada nas nossas proximidades, é porque quer colaborar connosco”, disse Innocent.

    No mês passado, dezenas de helicópteros realizaram uma série de voos de evacuação de emergência para cidadãos dos EUA, pousando e decolando perto do edifício da embaixada – uma operação de alto risco que teria sido fácil para qualquer membro da Kraze Baryé derrubar com alguns tiros. Mas os voos vieram e partiram sem incidentes.

    Innocent desvia quando questionado sobre as alegações das autoridades dos EUA de que esteve envolvido no sequestro de mais de uma dúzia de missionários dos EUA e do Canadá em 2021, incluindo crianças pequenas, que foram mantidos em cativeiro durante semanas; e em um ataque em 2022 à casa de um casal de idosos americanos que deixou uma mulher morta e o marido feito refém para pedir resgate antes da sua eventual libertação.

    Vitel’homme Innocent, líder de gangue em Porto Príncipe, Haiti, está em os 10 mais procurados pelo FBI / FBI (Federal Bureau of Investigation)

    Innocent diz simplesmente que o sistema judicial não lhe deu a oportunidade de responder às alegações dos EUA, mas que estaria disposto a se defender em tribunal.

    “Acreditamos na lei. Queremos fazer a melhor escolha, consultar a assessoria jurídica e fazer o devido processo”, afirma.

    No Haiti, diz ele, estaria disposto a enfrentar o sistema judicial, desde que a elite corrupta também o fizesse. “Temos que nos livrar do sistema dos oligarcas e também estamos prontos para responder ao sistema de justiça do nosso país, para que possamos ver onde o pior mal estava escondido”.

    O Departamento de Estado não respondeu aos pedidos da CNN para comentar ou falar com o embaixador dos EUA no Haiti, Dennis Hankins.

    O que seria necessário para largar as armas

    Apesar de todas as suas demonstrações de força, o controle que as gangues do Haiti têm é tênue e os seus soldados geralmente são mal disciplinados e treinados, dizem os especialistas.

    Muitos observadores de longa data, incluindo o ex-embaixador dos EUA, Rick Barton, acreditam que seria necessária apenas uma pequena força de combate especializada – digamos, algumas centenas de fuzileiros navais – para deter toda a crise e criar as condições adequadas para a chegada de uma missão de segurança multinacional maior e começar a ajudar a polícia do Haiti.

    O Haiti tem agora um governo de transição, empossado na quinta-feira (25). Ainda estão por vir as tarefas de nomeação de um novo chefe de governo e de um gabinete; coordenar a chegada de uma força de segurança multinacional para recuperar a capital; e, eventualmente, realizar eleições há muito esperadas.

    Mas as gangues do Haiti afirmam que merecem um lugar na mesa de negociações. Se não conseguirem, o Viv Ansanm exercerá a sua palavra por outros meios, adverte Innocent.

    “Você entenderá isso quando perceber que os aviões não podem voar. Quando você vê que os investidores não podem entrar. Quando você analisa que tem um monte de estrangeiros que já estavam no país com projetos que foram obrigados a fugir para seus países para esperar a estabilidade”, afirma ele.

    Jean, o especialista em direitos humanos, diz que a renúncia do ex-primeiro-ministro Henry, em março, a pedido da comunidade internacional, foi um grande erro que colocou Innocent e outros em um caminho impossível.

    A renúncia de Henry pareceu validar as alegações das gangues de que são atores políticos legítimos; hoje, eles sentem que não receberam o devido crédito, diz Jean. “Eles pensam: ‘Fizemos Henry renunciar, então deveríamos estar envolvidos na transição política’”, diz ele. “Mas dar a eles isso apenas os validaria ainda mais”.

    Entre as suas exigências, as gangues querem anistia sob qualquer futuro governo, diz Innocent, e um plano para o futuro dos muitos jovens que atualmente seguem as suas ordens – ambas questões que também foram levantadas por membros do conselho governamental.

    “Quando largarmos as nossas armas, devemos saber que temos um estado que trará uma estrutura para o futuro. Posso dizer a alguém para largar a arma e pegar uma pedra para comer? De jeito nenhum”, diz Innocent.

    *Com informações de Rachel Clarke, da CNN em Atlanta.

    Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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