Marinha dos EUA usa navio de guerra ‘polêmico’ no turbulento Mar do Sul da China

Enquanto líderes navais dos EUA elogiam a velocidade e agilidade do navio, os críticos mencionam os armamentos limitados e o histórico de avarias mecânicas

O navio de combate litoral USS Gabrielle Giffords
O navio de combate litoral USS Gabrielle Giffords MC2 Brenton Poyser

Análise por Brad Lendonda CNN

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Quando a vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, subiu a bordo do navio de combate litoral USS Tulsa em Singapura na segunda-feira (23), acabou pondo em evidência um dos navios mais polêmicos da frota da Marinha dos EUA.

Dependendo de quem fala, os navios de combate litorais (LCS) são uma ameaça naval capaz de “explodir todas as operações chinesas no Mar do Sul da China” ou um símbolo flutuante dos problemas mais ruinosos da Marinha. Enquanto os líderes navais dos EUA elogiam a velocidade e agilidade do LCS em áreas costeiras rasas, os críticos mencionam os armamentos limitados e o histórico de avarias mecânicas do navio.

“O motivo de estarmos aqui é importante”, declarou Harris à tripulação do Tulsa na noite de segunda-feira. “Nossa presença no Indo-Pacífico tem uma longa história, incluindo a de hoje, de ajudar a garantir paz, segurança, liberdade de comércio, liberdade de navegação e vias navegáveis abertas. A ordem internacional baseada em regras trouxe muita segurança e prosperidade para muitos”.

Os líderes da Marinha dos EUA dizem que o LCS, que é comparável em tamanho à classe de navios corveta, tem um papel fundamental nessa missão.

Eles esperam que o LCS desempenhe um papel ainda maior, à medida que os EUA enfrentam uma presença chinesa mais robusta no Mar do Sul da China, enfatizada pela frota crescente e instalações militares fortificadas construídas pelo governo chinês em ilhas artificiais.

“Pequim continua a coagir, intimidar e reivindicar a maior parte do Mar do Sul da China”, disse a vice-presidente dos EUA em Singapura na terça-feira (24). Ela chamou a ação da China de “ilegal”.

O navio de combate litoral USS Montgomery sai da Base Naval de San Diego para realizar operações de rotina e treinamento no Oceano Pacífico /

“Táticas de letalidade distribuída”

A China reivindica quase todo o Mar do Sul da China, que compreende 3,2 milhões de quilômetros quadrados, como seu território soberano e afirma que a presença de navios de guerra dos EUA ali causa tensões e instabilidade.

Isso não impediu a Marinha dos Estados Unidos de estabelecer sua presença na região, enviando regularmente seus navios para exercícios militares e realizando as operações Liberdade de Navegação, que contestam as reivindicações do governo chinês sobre as ilhas em disputa.

O vice-almirante Bill Merz, que comandou a 7ª Frota da Marinha dos EUA até junho, disse em uma conferência no início deste ano que a Marinha tem planos de colocar até oito LCS no Pacífico Ocidental até o final de 2022, incluindo quatro em uma base em Singapura (onde dois estão baseados agora) até o final deste ano.

Os comentários de Merz vieram depois de um LCS, o USS Gabrielle Giffords, “dominar praticamente o sul do Mar do Sul da China” durante as operações no ano passado.

“O navio continuou batendo forte, explodindo todas as operações chinesas no Mar do Sul da China. Foi um trabalho bastante impressionante”, contou Merz.

Mais tarde, um porta-voz da 7ª Frota esclareceu o que foram as manobras do Giffords nesta área, dizendo à CNN que “nada foi realmente explodido”.

“É um termo comercial para influência”, afirmou o comandante Reann Mommsen. “Sem entrar em detalhes, a presença do USS Gabrielle Giffords influenciou as operações em todo o Mar do Sul da China.”

Oficiais da Marinha dizem que o LCS é ideal para o ambiente do Mar do Sul da China. Descritos pela Marinha dos Estados Unidos como “perfeitos” para ameaças costeiras, esses barcos combatentes de superfície podem mover-se rapidamente entre as ilhas do canal, proteger-se de ameaças e entrar em portos menores inacessíveis aos destróieres que portam mísseis guiados da 7ª Frota, facilitando a cooperação com estados parceiros na região.

USS Gabrielle Giffords conduz operações de rotina perto do navio-sonda de bandeira panamenha West Capella / Petty Officer 2nd Class Brenton Poyser

Os navios, avaliados em cerca de US$ 360 milhões (cerca de R$ 1,88 bilhão) cada, se dividem em duas categorias: a classe Freedom, de 387,6 pés (118,1 metros) de comprimento e a Independence, de 421,5 pés (128,5 metros). Todos podem atingir 40 nós de velocidade.

“Quando eles entram no arquipélago com seu perfil baixo e alta velocidade, nota-se que são difíceis de se tornarem alvo, difíceis de ser atingidos”, resumiu Merz no Simpósio Internacional de Tecnologia de Minas, promovido pela Associação de Guerra contra Minas em maio.

Para tornar o LCS mais incrível, a Marinha norte-americana atualizou o poder de fogo dos navios baseados no Pacífico, armando-os com até oito mísseis de ataque naval, que são artefatos difíceis de ser detectados por radar e que podem manobrar para evitar ataques inimigos.

Merz disse ainda que o novo poder de fogo somado ao projeto original do LCS o torna ideal para o Pacífico. A atualização foi observada pelos militares chineses, de acordo com um artigo de pesquisa do governo chinês de 2020, avaliado pelo US Naval Institute News (USNI).

O “preço barato, a alta velocidade e outras características do LCS permitem que ele se torne uma ferramenta poderosa em táticas de letalidade distribuída no futuro”, segundo o artigo, escrito pelo Instituto de Pesquisa e Design Marinho da China (MARIC).

“Letalidade distribuída” significa dispersar o poder de fogo entre muitas unidades espalhadas, em vez de empregá-lo em um local, como um grupo de ataque de porta-aviões.

Mas os analistas questionam o que o LCS poderia fazer em qualquer conflito com a Marinha do Exército de Libertação do Povo (ELP) da China, que no ano passado ultrapassou a Marinha dos Estados Unidos como a maior frota do mundo.

O LCS “não durará muito se encontrar uma unidade da Marinha do ELP em uma situação de combate. Esse é um ambiente para o qual ele foi construído, e a velocidade não ajuda quando os mísseis estão voando”, disse Carl Schuster, ex-capitão da Marinha dos Estados Unidos e agora instrutor da Universidade Hawaii Pacific.

Blake Herzinger, um bolsista do Fórum do Pacífico em Singapura, questionou se Merz, o comandante da 7a Frota, estava exagerando a eficácia do LCS contra a China.

Ele disse que o registro mecânico do LCS – a classe sofreu uma série de avarias sérias desde a sua introdução em 2008 – tornou-o uma escolha ruim para operações onde poderia entrar em contato próximo com a Marinha do ELP, como ilhas disputadas no Mar do Sul da China, muitas delas reivindicadas pela China como seu território soberano.

“Eu evitaria colocá-lo em posições em que a autodefesa se tornasse um problema”, disse Herzinger. “Se navegarmos com um desses pelas (contestadas) Ilhas de Spratlys e ele quebrar, será um grande problema”.

“Um marcador de posição”

Contrariando as dúvidas dos analistas, a Marinha dos Estados Unidos bota fé no LCS – tem 34 deles na frota ou em vários estágios de produção. O

LCS é produzido nas configurações monocasco e trimarã (com três cascos, o tipo mais comum no Pacífico).

Durante uma teleconferência com repórteres no início deste verão, o capitão da Marinha dos EUA Tom Ogden, comandante do Destroyer Squadron 7, que supervisiona as operações de navios de combate litorais na região, observou que em 2019 e 2020 os LCS fizeram três operações de liberdade de navegação nas ilhas Spratly. Nessas manobras, a Marinha dos EUA contestou o que chama de reivindicações marítimas excessivas de nações estrangeiras.

Ogden também elogiou a presença do Giffords em 2020 no Mar do Sul da China. “Eles às vezes estavam no lugar certo na hora certa, para funcionar de acordo com o que a 7ª Frota designou”

Herzinger, o analista baseado em Singapura, disse que problemas mecânicos limitaram a capacidade do LCS de estar onde e quando é necessário.

“A reputação dos LCS sofreu uma grande surra no Sudeste Asiático”, comentou. “Eles tiveram problemas de manutenção, tiveram exercícios cancelados porque chegavam quebrados”.

Mas, para Herzinger e outros analistas, os LCS podem ser eficazes para mostrar a bandeira dos EUA e liberar plataformas mais capazes, como destróieres e cruzadores, para missões mais vitais.

“A embarcação poderia fornecer suporte simbólico e uma presença militar localizada em águas disputadas e, assim, liberar recursos de ponta para serem empregados mais dinamicamente ou mantidos em alta prontidão para cenários de guerra”, detalhou Sidharth Kaushal, pesquisador de poder marítimo do Royal United Services Institute em Londres. “É um uso eficaz de um ativo do tipo abaixo do ideal”, completou Herzinger.

Kaushal chamou o LCS de “um substituto” no Pacífico, preenchendo uma lacuna até que novas fragatas, a primeira das quais a Marinha encomendou em 2020, comecem a entrar em operação em cinco anos.

As fragatas da classe Constellation, das quais uma frota de 20 está planejada, serão equipadas para conduzir operações de defesa aérea, defesa de superfície, antissubmarino e guerra eletromagnética em ambientes litorâneos e em mar aberto, de acordo com documentos do governo.

Mas, com apenas dois dos navios de guerra de bilhões de dólares encomendados e sua implantação real a anos de distância, a situação da fragata LCS mostra como os recursos da Marinha estão limitados no Pacífico, lembrou Herzinger.

Ele também observou que o orçamento proposto pela Marinha para o próximo ano fiscal tem apenas quatro navios de combate de superfície e uma fragata.

“Isso não é nem o suficiente para manter a situação atual. É uma Marinha que está encolhendo”, disse. No curto prazo, pelo menos, deixa a Marinha sem outro lugar para ir além do LCS.

“É melhor do que atracá-los no cais de San Diego’, disse Herzinger. “Não é o navio de que precisávamos, mas é o navio que temos”.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês aqui).

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