“Mate-o com a arma dele”: Polícia descreve o caos no Capitólio

“As pessoas ficarão chocadas com alguns dos contatos diretos e flagrantes que aconteceram no Capitólio”, disse o procurador dos EUA em exercício Michael Sherwin

Manifestantes pró-Trump invadem Capitólio
Manifestantes pró-Trump invadem Capitólio Foto: Leah Millis/Reuters

Mark Morales,

da CNN, em São Paulo

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O oficial da Polícia Metropolitana de DC Michael Fanone estava deitado no chão no prédio do Capitólio dos EUA, atordoado e ferido, e sabia que um grupo de desordeiros estava tirando seu equipamento. Eles pegaram munição sobressalente, arrancaram o rádio da polícia de seu peito e até roubaram seu distintivo.

Em seguida, Fanone, que acabara de receber vários choques de tasers na nuca, ouviu algo assustador que o fez entrar em modo de sobrevivência.

“Alguns caras começaram a segurar minha arma e gritaram: ‘Mate-o com a própria arma dele!’”, lembra Fanone, que é policial há quase duas décadas.

Fanone, um dos três policiais que conversaram com a CNN, descreveu sua experiência de luta contra uma multidão de apoiadores do presidente Donald Trump que invadiu o Capitólio em uma insurreição nunca vista na história norte-americana moderna.

 

Autoridades federais disseram que os detalhes da violência que serão divulgados serão aterradores.

“As pessoas ficarão chocadas com alguns dos contatos diretos e flagrantes que aconteceram no Capitólio”, disse o procurador dos EUA em exercício Michael Sherwin na terça-feira (12), em referência a ataques a policiais.

Fanone, um detetive da divisão de narcóticos que trabalha à paisana, ouviu a comoção no Capitólio e pegou seu uniforme de polícia novinho em folha, que estava pendurado no guarda-roupa, vestindo-o pela primeira vez. Ele correu para o prédio com seu parceiro e ajudou os policiais que estavam sendo empurrados pelos arruaceiros.

O policial Michael Fanone
O policial Michael Fanone, que enfrentou multidões na invasão do Capitólio
Foto: Reprodução/CNN

Fanone – que disse que preferia ser baleado a ser puxado para o meio de uma multidão sem controle – de repente se viu no meio de seu maior pesadelo como policial. Nesses poucos momentos, ele pensou em usar força mortal, pegando sua arma. Mas sabia que não tinha poder de fogo suficiente e logo seria dominado novamente, exceto que, desta vez, eles provavelmente usariam sua arma contra ele e teriam todos os motivos para acabar com sua vida.

“Então, a outra opção que pensei foi tentar apelar para a humanidade de alguém. E eu só me lembro de gritar que tenho filhos. E pareceu dar certo”, disse o policial, que tem 40 anos e é pai de quatro filhos.

Um grupo de manifestantes circundou Fanone e o protegeu até a chegada de ajuda, salvando sua vida.

“Obrigado, mas que vocês se f— por estarem lá”, disse Fanone sobre os desordeiros que o protegeram naquele momento.

A raiva e a frustração de Fanone foram sentimentos comuns entre policiais de todo o país, furiosos porque os apoiadores de Trump violaram o Capitólio no mesmo dia que a vitória de Joe Biden foi confirmada pela Câmara e pelo Senado.

 

O dramático encontro de Fanone com os manifestantes que apoiavam Trump foi repetido por todo o Capitólio, enquanto os policiais lutavam para afastá-los. Fanone, um dos vários oficiais feridos na batalha brutal, compartilhou sua história pela primeira vez, ainda sofrendo os efeitos de um leve ataque cardíaco.

Desde a violação do Capitólio, os investigadores têm dissecado todos os aspectos dos eventos daquele dia, desde a resposta da Polícia do Capitólio dos EUA à caça em todo o país das pessoas envolvidas.

Os investigadores perceberam que houve algum nível de planejamento, com evidências suficientes para indicar que não foi apenas um protesto que saiu do controle, fontes oficiais contaram à CNN.

“Certamente algumas coisas que vimos no local deram alguma indicação de que havia alguma coordenação acontecendo, mas acho que, à medida que avançamos na investigação, muito disso será revelado”, afirmou o chefe do MPD em exercício, Robert Contee, na quinta-feira (14).

 

Fanone disse que os manifestantes tinham armas próprias ou tiradas de seus colegas policiais.

“A gente era atacado com sprays de irritantes químicos. Eles tinham bombas tubo e diferentes objetos de metal, bastões, alguns dos quais eu acho que eles tinham tirado de policiais. Atacavam a gente com isso”, disse Fanone, que acrescentou que não conseguiria ficar sentado em uma mesa enquanto uma insurreição estava acontecendo no Capitólio.

“Era um grande número de desordeiros. A força vinha daquele lado”, acrescentou. “Era difícil oferecer qualquer resistência quando a gente tinha apenas 30 homens contra 15 mil”.

Ataque com “spray de urso”

A policial Christina Laury, membro da unidade de recuperação de armas do Departamento de Polícia Metropolitana, chegou ao Capitólio por volta das 12h30 (horário local) e viu os grupos rebeldes ganhando terreno.

Laury, que estava segurando a linha para garantir que não houvesse brechas para alguém passar, foi atingida por um tipo de spray de pimenta muito mais forte, um tipo de material que deveria ser usado apenas em ursos, disse.

“Os indivíduos empurravam policiais, agrediam policiais. Eles jogavam na gente com o que chamamos basicamente de spray de urso, porque só é usado contra ursos”, contou.

 

“Infelizmente, isso te desliga por um tempo. É muito pior do que spray de pimenta”, acrescentou Laury. “Ele sela seus olhos… É preciso borrifar e se encharcar com água. E nesses momentos é assustador porque você não consegue ver nada e tem pessoas que estão lutando para passar”.

Ela teve a sorte de não ser atingida por nada, mas viu outros serem espancados com objetos.

“Eles foram atingidos por objetos de metal. Postes de metal. Lembro-me de ter visto forcados. Eles estão sendo pulverizados, derrubados”, relatou Laury, que acrescentou que os reforços se alternaram para que outros pudessem descansar durante as horas de batalha.

“Era só o tempo de os policiais se recuperarem e novos (reforços) vinham intervindo para chegar à linha de frente. E daí eles caíam e mais policiais entram e os policiais que se feriam iam e voltavam, apenas lutando, porque a questão principal era não deixar ninguém passar”.

“Ele espumava pela boca”

O oficial Daniel Hodges foi um dos policiais que tentaram revidar os desordeiros e acabaram agredidos. Hodges ficou conhecido pelas imagens dele sendo esmagado em uma porta. O policial de 32 anos é visto no vídeo com sangue escorrendo pelos dentes, ofegante, com ar suficiente apenas respirar e poder gritar “Socorro!”.

Hodges correu para o Capitólio para oferecer apoio, como muitos colegas fizeram, e logo se viu sendo atacado por uma multidão de pessoas enfurecidas que, segundo ele, acreditavam ser patriotas.

O oficial da polícia Daniel Hodges
O oficial da polícia Daniel Hodges
Foto: Reprodução/CNN

“Tinha um cara arrancando minha máscara, ele conseguiu puxar meu bastão e me bater com ele”, disse Hodges, que estava preso na porta e acrescentou que seu braço foi torcido antes de arrancarem a arma.

“Ele estava praticamente espumando pela boca, eram pessoas que eram verdadeiros seguidores da pior maneira”.

Hodges acabou sendo resgatado por outros policiais que vieram em seu auxílio.

“A gente sabia que as coisas estavam ruins”, contou Hodges, que milagrosamente saiu andando sem ferimentos graves e pode ter sofrido uma pequena concussão. “Eu implorava por tudo que valia, e um policial atrás de mim conseguiu me dar espaço suficiente para me puxar para fora de lá e me levar para a retaguarda para que eu pudesse me salvar”.

Foi a primeira visita de Hodges ao prédio do Capitólio.

“Eles se sentiram no direito”

Manifestantes invadem o Capitólio, sede do Congresso dos EUA
Manifestantes invadem o Capitólio, sede do Congresso dos EUA
Foto: Stephanie Keith/Reuters

O patrulheiro disse que vinha ouvindo sobre a possibilidade de violência há anos, então não ficou surpreso que os rebeldes invadissem o Capitólio. O que o surpreendeu foi como os rebeldes achavam que a polícia estaria do lado deles.

“Alguns deles sentiram que seríamos amigos rapidamente porque muitos têm falado abertamente sobre isso”, disse Hodges. “Eles dizem coisas como, ‘Sim, temos apoiado você em toda essa questão do Black Lives Matter, então vocês devem nos apoiar’ e eles se sentiram no direito”

Fanone acrescentou: “Eles sentiram que iriam até lá e nos diriam que estavam ali para retomar o Congresso e que concordaríamos com eles e caminharíamos de mãos dadas e simplesmente assumiríamos o controle da nação. Mas obviamente esse não é o caso e nunca será o caso”.

Agora, poucos dias antes da posse de Biden, as autoridades federais estão de olho em outras ameaças que podem surgir.

A prefeita Muriel Bowser alertou publicamente as pessoas para não virem à cidade para a posse.

Hodges ecoou seus sentimentos e queria que não apenas os residentes, mas os apoiadores de Trump e extremistas também ficassem em casa. 

“Fiquem em casa. Parem com isso”, disse Hodges. “Por outro lado, espero que sejam presos. Vamos deixar isso assim”.

(Texto traduzido, leia o original em inglês).

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