Meta de Kamala Harris no debate: concentrar-se em Trump, não em Pence

Coronavírus e Donald Trump devem ser assuntos de destaque na discussão entre Pence e Harris

A candidata à vice-presidência dos EUA Kamala Harris
A candidata à vice-presidência dos EUA Kamala Harris Foto: Carlos Barria/Reuters (12.ago.2020)

Dan Merica, Kyung Lah, MJ Lee e Jasmine Wright,

da CNN

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A senadora Kamala Harris e o vice-presidente dos Estados Unidos Mike Pence serão os dois candidatos no palco do debate em Utah na quarta-feira (7) à noite, mas o objetivo dela será colocar toda a atenção sobre o homem ausente no palco: o presidente Donald Trump.

De acordo com vários democratas familiarizados com sua estratégia de debate, Harris está se preparando para o momento de maior destaque em sua carreira política estudando as posições anteriores de Trump e Pence, falando com pessoas que conhecem bem Pence ou já debateram com ele no passado e se preparando para um vice-presidente que, ao contrário de seu chefe, não demonstra muita emoção no palco do debate.

Mas o objetivo, disseram as fontes, é fazer o debate ir além de Pence e focar a conversa no manejo incorreto da pandemia de coronavírus por Trump, a mesma estratégia que Biden tentou na semana passada.

“Embora seja um debate entre candidatos a vice presidente, ele vai ser sobre Donald Trump e Joe Biden”, disse um assessor de campanha de Biden. “E é tudo uma questão de justificar por que precisamos de Joe Biden neste momento e por que Donald Trump falhou”.

Harris fará história como a primeira mulher negra e com origens no sul da Ásia a participar de um debate sobre a eleição geral.

O debate ocorre poucos dias depois de Trump deixar o hospital militar no subúrbio de Washington, após o teste positivo para o coronavírus, e de vários assessores da Casa Branca receberam o mesmo resultado para o vírus que se tornou a questão central na campanha de 2020.

A senadora, segundo as fontes, prepara-se para que Pence a ataque como liberal e destaque as áreas onde ela está mais à esquerda do que Biden. Eles também estão se preparando para que o vice-presidente investigue o histórico da ex-procuradora-geral da Califórnia em relação à temática criminal, algo que Trump tentou fazer com Biden na semana passada e uma questão que surgiu repetidamente durante a candidatura de Harris nas primárias do Partido Democrata.

Karen Dunn, uma experiente militante democrata especializada em debates, está liderando os preparativos de Harris.

A equipe inclui também a assessora de longa data de Harris, Rohini Kosoglu; a assessora sênior de Biden, Anita Dunn; a porta-voz de Harris, Liz Allen; e a assessora de Biden Symone Sanders, segundo uma fonte familiarizada com os preparativos. Ron Klain, o assessor democrata que preparou Biden, está envolvido nas sessões de debate, mas não na sala, acrescentou a fonte.

A equipe de Harris vê Pence como um debatedor totalmente oposto a Trump, que mostrou sua raiva e frustração frequentemente no palco de debates com Biden na semana passada. Segundo as fontes, Pence é muito “mais suave” e controlado do que o presidente, raramente deixando sua emoção transparecer ou irritando-se com uma pergunta ou ataque.

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Coronavírus domina

A ameaça do coronavírus pairará sobre o debate tanto retoricamente quanto fisicamente. Após vários casos positivos confirmados na Casa Branca de Trump, incluindo o próprio diagnóstico do presidente, a Comissão de Debates Presidenciais decidiu separar Pence e Harris em quase 4 metros de distância e colocar barreiras de acrílico entre os dois candidatos e a moderadora.

Assim como fazia antes dos debates das primárias democratas, a senadora viajou para Salt Lake City dias antes para começar a se preparar para seu confronto. Em uma tentativa de entender Pence, Harris teria chamado o ex-candidato democrata Pete Buttigieg, que é de Indiana e conhece bem o ex-governador, para interpretar o vice-presidente na preparação do debate.

Buttigieg e seu marido, Chasten, foram vistos em Salt Lake City na segunda-feira (5), mas vários assessores se recusaram a comentar se ele estava se fazendo de Pence na preparação.

Harris também procurou a única outra pessoa a debater Pence no cenário nacional: o senador da Virgínia Tim Kaine, que, como companheiro de chapa de Hillary Clinton, debateu com ele em 2016. Os dois senadores, de acordo com um porta-voz de Kaine, falaram sobre os detalhes do debate sobre Pence.

Para John Gregg, um democrata que debateu com o ex-governador de Indiana algumas vezes durante sua campanha estadual em 2012, o maior problema de debater com Pence é sua capacidade de fugir de uma pergunta para a qual ele não quer dar a resposta e entregar uma mensagem que quer.

“Mike está muito, muito focado. Ele é provavelmente um dos candidatos mais disciplinados que já conheci”, contou Gregg. “Ele se sairá melhor do que qualquer jogador de basquete de um time do Big 10 para fazer um comentário e voltar já com uma mensagem”.

Gregg acrescentou que o maior erro que as pessoas cometem sobre Pence é subestimá-lo, já que ele geralmente não responde com ataques.

“Ele pega (um comentário) e gira em torno de seu ponto de discussão” e não agirá como o presidente. “Ele será muito educado.”

Kamala Harris nega veementemente que esteja levando o embate com Pence de forma leviana. Em setembro, ela disse num evento de arrecadação de fundos que o vice-presidente é “um bom debatedor”.

“Ele é um debatedor muito bom. Portanto, com certeza vou me preparar para este debate como fiz para os anteriores”, falou a senadora. “Levo esse debate muito a sério. E acho que podemos esperar que ele seja muito bom”.

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Evite Pence, concentre-se em Trump

Ainda assim, Harris espera evitar ser puxada para uma luta de boxe com Pence a respeito de seu histórico como promotora e como política e, em vez disso, se concentrar em Trump.

Um assessor de Joe Biden, que se recusou a divulgar detalhes sobre os preparativos para o debate de Harris, disse que a campanha vê o confronto da mesma forma que enxergou o primeiro debate presidencial entre Trump e Biden: uma oportunidade de apresentar uma proposta afirmativa de por que a passagem Biden-Harris seria mais bem qualificada para lidar com a pandemia de coronavírus.

Segundo esse assessor, assim como o indicado democrata fez repetidamente durante o debate da semana passada contra Trump, Harris também deve falar diretamente aos eleitores norte-americanos na noite de quarta-feira, embora não esteja claro se isso se manifestará na senadora da Califórnia falando diretamente para câmera, como Biden fez.

Assessores disseram ter visto como a campanha de Trump tentou classificá-la como “desagradável” ou “nervosa”, ataques que se enquadram em expressões de cunho racial, e esperam que eles continuem após o debate de quarta-feira.

Outra aliada de Harris, familiarizada com a maneira como ela se preparava para debates anteriores, disse que a senadora era uma “aprendiz presencial”, alguém que gosta de ser informada e questionada sobre possíveis questões de debate e cenários pessoalmente por assessores.

No entanto, Kamala Harris fez algumas mudanças notáveis após suas apresentações no debate das primárias.

A senadora da Califórnia planeja evitar contar com frases de efeito e prontas, algo que foi bastante ridicularizado durante as primárias democratas, disse uma fonte.

E, ao contrário do que aconteceu nos debates das primárias, as diferenças entre Pence e Harris serão mais gritantes dessa vez. Nas primárias democratas, os debates geralmente se baseavam em divergências políticas entre os candidatos. Já agora, segundo um aliado de Harris, o forte contraste entre as propostas republicanas e democratas nas eleições significará menos risco de tropeços relacionados a políticas para Harris.

“Para se destacar (nas primárias), era preciso marcar as diferenças e isso não contribuiu para o melhor desempenho nos debates”, disse o aliado. “Agora, a diferença entre o programa Trump-Pence e o programa Biden-Harris é incrivelmente clara, e isso funciona a favor dela”.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).

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