‘Nada mais poderia ser feito’: o último telefonema de Trump a Woodward

CNN teve acesso a trechos de áudio; presidente dos EUA estava mais focado na economia que na crise de saúde pública causada pela Covid-19

Capa do livro 'Rage', do jornalista Bob Woodward
Capa do livro 'Rage', do jornalista Bob Woodward Foto: Divulgação/Simon & Schuster (9.set.2020)

Jamie Gangel, Jeremy Herb e Elizabeth Stuart, da CNN

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Em 14 de agosto, a pandemia do novo coronavírus estava a todo vapor nos Estados Unidos. Mais de 168 mil americanos haviam morrido, 1.300 só naquele dia.

Mas quando o presidente Donald Trumo ligou para o jornalista Bob Woodward, foi para descobrir uma coisa: ao saber que o novo livro de Woodward, ‘Rage’ (Ira, em tradução livre), havia sido finalizado e seria publicado em setembro, queria descobrir como foi retratado na publicação. 

Foi a 19ª conversa entre eles, após as 18 entevistas que formam o componente-chave do livro de Woodward. Trump havia dito a Woodward, em fevereiro, que sabia detalhes sobre quanto o novo coronavírus era fatal e, em março, admitiu estar minimizando-o. 

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Em 14 de agosto, Trump questionou o jornalista vencedor de dois prêmios Pulitzer sobre o livro e o que exatamente estava nele.

A CNN obteve trechos da conversa de 10 minutos, que mostra que Trump estava mais focado na economia do que na crise de saúde pública. Quando os dois debatiam a resposta de Trump à pandemia, o presidente perguntou: “Então você acha que o vírus totalmente suplanta a economia?”

“Ah, claro. Mas eles estão relacionados, como você sabe”, respondeu Woodward.

“Um pouquinho, sim”, respondeu Trump.

“Ah, um pouco?”, perguntou Woodward. 

“Eu quero dizer, mais que um pouquinho. Mas a economia está… olha, estamos próximos de um recorde na bolsa de valores”, disse Trump. 

A pergunta de Trump a Woodward realça a atitude do presidente em relação ao vírus.

Após os especialistas passarem seis meses tentando convencer Trump de que os dois temas estavam conectados — que uma recuperação econômica depende de, primeiramente, parar o vírus —, Trump ainda está focado na bolsa e na economia porque ele acredita que essas são as chaves para sua reeleição.

Em outra parte do diálogo, Woodward diz a Trump que há partes do livro que ele não irá gostar. “É um livro duro”, disse, acrescentando que “chega perto do osso”. 

“Você sabe que o mercado está voltando muito forte, você sabe disso”, respondeu Trump a Woodward.

“Sim, é claro”, fala Woodward.

“Você cobre isso no livro?”, pergunta Trump. 

‘Eu agi cedo’

Woodward e Trump continuaram a debater a resposta de Trump à pandemia e como seria de importância crítica para a eleição presidencial. Quando Woodward disse a Trump que o pleito seria um concurso entre ele, o ex-vice-presidente Joe Biden e o vírus, Trump insiste, “Nada mais poderia ser feito. Eu agi cedo”. 

Desde a revelação de que Trump escondeu detalhes importantes sobre o vírus, o presidente tem tentado reverter o assunto. 

“Se Bob Woodward achou que o que eu disse era ruim, então ele deveria ter imediatamente, logo depois que eu disse, ido às autoridades para que eles pudessem se preparar e estar informados”, disse ele na última quinta-feira (10).

“Mas ele não achou ruim. Ele disse que ele não achou ruim. Ele realmente disse que não achava que era ruim”. 

Woodward disse à CNN que nunca disse algo assim ao presidente.

Ele afirmou que quando ouviu Trump falando em fevereiro que o novo coronavírus era transmitido pelo ar e mais mortal do que uma gripe, primeiro tinha que descobrir se aquilo era verdade, uma vez que tão pouco era conhecido sobre o vírus e sua transmissão na época. 

Trump mencionou ter conversado com o líder chinês Xi Jinping em 6 de fevereiro, e Woodward se perguntou se o presidente saberia desses detalhes através dele. Por meses, disse Woodward, ele procurou uma transcrição daquela ligação.

Foi no começo de maio, quando Woodward ficou sabendo de uma reunião ultraconfidencial da Inteligência que Trump teve com a equipe de segurança nacional, que Woodward começou a juntar os pedaços da história.

Naquele encontro, o conselheiro de segurança nacional de Trump, Robert O’Brien, disse a  Trump que o coronavírus seria “a maior ameaça à segurança nacional” de seu mandato, e seu assistente, Matthew Pottinger, alertou sobre a transmissão assintomática e entre humanos. 

Trump também disse, na semana passada, que as ligações com Woodward haviam sido curtas, não longas. Na verdade, as 18 entrevistas somam quase 10 horas. Em mais de seis casos, foi Trump quem ligou para Woodward inesperadamente, às vezes, tarde da noite da residência da Casa Branca. 

Como a CNN reportou na semana passada, muitas dessas ligações foram feitas sem o conhecimento dos funcionários da Casa Branca.

Ao longo das 18 entrevistas para o livro, Trump buscou a aprovação de Woodward, perguntando repetidamente se ele escreveria um “bom livro”.

A tentativa de lobby continuou na última conversa deles, quando Woodward notou uma das conquistas de Trump depois que o livro já havia ido para impressão — o acordo para normalizar as relações entre Israel e os Emirados Árabes — que havia conseguido um elogio raro à Trump do colunista do jornal The New York Times Thomas Friedman, um crítico contumaz do presidente.

“Tom Friedman? Isso é legal”, disse Trump. 

“Não é interessante?”, respondeu Woodward.

“Ele evoluiu muito. O próximo que preciso é você”, disse Trump. “Mas parece que não consegui nesse livro, mas vamos conseguir você alguma hora mais tarde, acho”. 

(Texto traduzido, leia o original em inglês)

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