Nobel da Paz vai para jornalistas Maria Ressa e Dmitry Muratov

Ressa e Muratov foram laureados 'por seus esforços para salvaguardar a liberdade de expressão'; Nobel de Economia será revelado na segunda-feira (11)

Rafaela LaraNathallia Fonsecada CNN

em São Paulo

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O Comitê Norueguês do Nobel concedeu nesta sexta-feira (8) o Prêmio Nobel da Paz de 2021 aos jornalistas Maria Ressa e Dmitry Muratov.

A dupla foi premiada por “seus esforços para salvaguardar a liberdade de expressão, que é uma pré-condição para a democracia e a paz duradoura”.

Ressa, a primeira mulher neste ano a receber um Nobel, é CEO da Rappler, uma agência de notícias que critica o regime do presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte. Já Muratov dirige o jornal russo independente Novaya Gazeta.

“O jornalismo livre, independente e baseado em fatos serve para proteger contra o abuso de poder, mentiras e propaganda de guerra”, disse Berit Reiss-Andersen, presidente do Comitê Norueguês do Nobel, ao anunciar o prêmio em Oslo nesta sexta.

Ela disse que a escolha do comitê “tem como objetivo sublinhar a importância de proteger e defender esses direitos fundamentais”.

Ressa atuou como a principal repórter investigativa da CNN no Sudeste da Ásia durante quase duas décadas.

Ela tem se envolvido em batalhas jurídicas nos últimos anos por causa dos reportagens críticos de sua agência de notícias sobre Duterte. A jornalista nasceu em Manila, nas Filipinas, e tem 57 anos. O russo Muratov, de 60 anos, nasceu em Kuybyshev – atualmente, a cidade de Samara.

“Em uma democracia, precisamos alertar todas as pessoas”, disse Ressa à CNN em 2019 sobre sua luta pela liberdade de expressão. “Essas liberdades estão sendo corroídas diante de nossos olhos. Se você não tem fatos, não pode ter a verdade.”

Esta é a 102ª vez que o prêmio é concedido. Os vencedores anteriores incluem Nelson Mandela, Martin Luther King Jr., o dissidente polonês Lech Walesa, o último líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev, e quatro presidentes dos Estados Unidos. No ano passado, o Programa Mundial de Alimentos da ONU reivindicou o prêmio.

Neste ano, o comitê norueguês recebeu 329 candidatos ao Prêmio Nobel da Paz – 234 pessoas e 95 organizações. É o terceiro maior número de candidatos da história do Nobel. O recorde de 376 candidatos foi alcançado em 2016.

Os nomes dos indicados ao Nobel da Paz não podem ser divulgados antes de decorridos 50 anos das indicações.

Organizações de liberdade de imprensa repercutem Nobel da Paz a jornalistas

Organizações internacionais de liberdade de imprensa repercutiram o Nobel da Paz dividido entre os dois jornalistas. Ressa e Muratov receberam felicitações das principais organizações de imprensa no mundo.

A Repórteres Sem Fronteiras (RSF) afirmou que “o jornalismo está sob ameaça” e o Nobel da Paz deste ano “lança luz sobre a emergência para defender aqueles que trabalham para nos fornecer informações independentes e confiáveis”.

A organização anticorrupção Transparency International disse que o prêmio desta sexta reconhece “o papel crucial dos jornalistas investigativos na melhoria de nossas sociedades”.

O Comitê para a Proteção de Jornalistas e a Federação Internacional de Jornalistas (IFJ) também parabenizaram os profissionais e destacaram o simbolismo do mais importante prêmio pela paz. “Parabenizamos vocês dois pelo trabalho incansável para defender a liberdade de imprensa”, disse a IFJ.

Grandes nomes premiados com o Nobel da Paz

Ao longo da vida, o sueco Alfred Nobel demonstrou grande interesse pelas questões sociais e se engajou no movimento pela paz.

A paz foi a quinta e última área de premiação que Nobel mencionou em seu testamento que concede a maior parte de sua fortuna a uma série de prêmios, no que passou a ser conhecido como Prêmios Nobel. O Prêmio Nobel da Paz é concedido por um comitê eleito pelo Parlamento norueguês.

Segundo o comitê do Nobel, a láurea da Paz deve ser concedida “a pessoa que tenha feito mais ou melhor trabalho pela fraternidade entre as nações, pela abolição ou redução dos exércitos permanentes e pela realização e promoção de congressos de paz”.

Desde 1901 até hoje o Prêmio Nobel da Paz foi concedido 102 vezes – e em 19 ocasiões não houve a entrega desta láurea.

Malala Yousafzai recebeu o Nobel da Paz, em 2014, aos 17 anos – e se tornou a mais jovem ganhadora do prêmio.

A ativista, que sobreviveu após atingida por um tiro na cabeça disparado por membros do Talibã, recebeu o Nobel da Paz por “por sua luta contra a repressão de crianças e jovens e pelo direito de todas as crianças à educação”.

Madre Teresa recebeu o Nobel da Paz em 1979 “por seu trabalho para levar ajuda à humanidade que sofre”.

A última mulher a receber a láurea da Paz foi a iraquiana Nadia Murad por “seus esforços para acabar com o uso da violência sexual como arma de guerra”.

A União Europeia (UE) também já recebeu um Nobel da Paz sob a justificativa de que “por mais de seis décadas contribuiu para o avanço da paz e reconciliação, democracia e direitos humanos na Europa”.

Em 2009, o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, foi um dos laureados na categoria por “seus extraordinários esforços para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos ”.

Por sua luta não violenta pelos direitos civis da população afro-americana, Martin Luther King Jr. levou o prêmio em 1964.

Malala – Nobel
Malala Yousafzai discursa durante cerimônia do prêmio Nobel da Paz, em 10 de dezembro de 2014, em Oslo, na Noruega / Getty Images

Nobel da Paz: Curiosidades e números

Aos 87 anos, o polonês Joseph Rotblat tornou-se o mais velho premiado com o Nobel da Paz “por seus esforços para diminuir o papel desempenhado pelas armas nucleares na política internacional e, a longo prazo, para eliminar essas armas.”

Rotblat se posicionou contra armas nucleares e fez trabalhou pela causa da paz, do diálogo e do desarmamento por meio do movimento Pugwash, com o qual dividiu o prêmio em 1995.

O Nobel da Paz foi concedido apenas a 17 mulheres desde 1901 – a primeira vez foi em 1905, para a baronesa Bertha von Suttner.

O trabalho do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) recebeu três vezes o Nobel da Paz. O fundador do CICV, Henry Dunant, foi quem recebeu a primeira láurea da Paz, em 1901.

Ao longo da história, apenas um premiado recusou o Nobel da Paz. Em 1973, o político vietnamita Le Duc Tho foi premiado – juntamente com o Secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger –, no entanto, recusou a honraria.

Ambos receberam o prêmio por negociar o acordo de paz do Vietnã, mas Le Duc Tho disse que não estava em posição de aceitar o Nobel da Paz, citando como motivo a situação no Vietnã.

*Com informações de Rob Pichetta, da CNN

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