Novo ataque dos EUA contra o Irã poderia derrubar o regime dos aiatolás?

Donald Trump chegou a dizer que país do Oriente Médio precisa de uma nova liderança; especialistas avaliam possibilidades

Tiago Tortella, da CNN Brasil, em São Paulo
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Em meio à crescente tensão com o Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a afirmar que é hora de uma nova liderança assumir o controle do país do Oriente Médio.

O regime dos aiatolás foi instituído em 1979 com a Revolução Islâmica, uma revolta que acabou com a dinastia dos Xás -- que contava com apoio dos americanos.

O atual líder iraniano é Ali Khamenei, que chamou Trump de criminoso por incentivar protestos antigovernamentais no Irã no início deste ano.

Regime dos aiatolás pode cair com um novo ataque dos EUA?

Professores de Relações Internacionais ouvidos pela reportagem avaliam que é necessário um alinhamento de fatores para a queda do regime dos aiatolás.

Isso incluiria desde uma possível intervenção prolongada das tropas americanas no Irã até atuação de forças do próprio regime iraniano e maior integração e articulação dos grupos de oposição ao governo.

Assim, os especialistas consultados concordam que seria improvável que "apenas" um ataque dos Estados Unidos derrube o regime dos aiatolás.

Rodrigo Amaral, professor de Relações Internacionais da PUC-SP, afirma que uma ofensiva para mudar a liderança do Irã precisaria incluir uma intervenção "ativa", com envio de tropas, e não apenas ataques aéreos.

De toda forma, pondera que isso seria improvável devido à grande capacidade militar iraniana e ao custo que isso geraria aos EUA.

"Com Trump nós não devemos duvidar de nada, mas o custo de uma guerra contra o Irã é muito alto. E nós não estamos falando dos Estados Unidos no seu auge, pelo contrário, falamos dos Estados Unidos extremamente tensionados e questionado", comenta.

Além disso, o Irã possui uma proteção geográfica "natural", que dificultaria invasões e até ataques aéreos, conforme destaca Sidney Leite, professor de Relações Internacionais da Universidade Rio Branco.

"Além de ser cercado por montanhas na maior parte do território, as partes que não são cercadas por montanhas dão acesso a um terreno lamacento e posteriormente a áreas de deserto", explica.

Tendo em vista as dificuldades para operações militares prolongadas e em maior escala, o professor pondera que dificilmente o regime iraniano cairá sem uma ação "forte, incisiva e armada de forças internas".

"Lembremos que o conselho dos aiatolás, o aiatolá Ali Khamenei, ele tem o apoio não só das Forças Armadas tradicionais, mas da Guarda Revolucionária. Enquanto essas forças forem leais a Ali Khamenei, ao conselho dos aiatolás, dificilmente o regime cairá, mesmo com uma ação aérea dos Estados Unidos", adiciona.

A Guarda Revolucionária do Irã é uma unidade de elite das Forças Armadas iranianas. Ela conta com mais de 150 mil soldados e tem papel central nas operações militares iranianas na região, de acordo com o think tank Conselho de Relações Exteriores.

Com isso, os especialistas reforçam a necessidade de uma articulação da oposição iraniana.

"Nenhum regime é derrubado por forças que não têm lideranças, que se articulam em torno de um projeto comum que é derrubar o governo. Enquanto isso não acontecer, enquanto não houver uma liderança ou lideranças capazes de articular os movimentos de rua, dificilmente o regime dos aiatolás será derrubado", pondera Sidney Leite.

Porém, o desafio está exatamente na união entre os grupos contrários ao regime dos aiatolás dentro do país -- e, até, na presença de possíveis líderes dessas correntes dentro do território iraniano.

Do lado dos monarquistas, o principal expoente é Reza Pahlavi, herdeiro do regime dos Xás -- que caiu em 1979 com a revolução islâmica. Entretanto, Pahlavi está exilado nos Estados Unidos, não tendo muito controle da articulação dentro do Irã.

Ele chegou a convocar mais protestos antigovernamentais no final do ano passado e início deste ano. Ainda assim, é visto com desconfiança por parte da população, especialmente devido ao fato de estar longe do país há muito tempo, não estando "conectado" com as necessidades e vontades do povo.

Por fim, Amaral pontua que seria necessária uma ruptura com a elite iraniana. "Qual que seria a possibilidade [de derrubar o regime]? Seria você conseguir quebrar o regime por dentro, você encontrar pessoas dispostas a querer transformar a estrutura de poder", diz.