O que o roteiro revisado para Gaza diz sobre o desarmamento do Hamas?
Novo plano contém menos pontos do que a proposta inicial de 20 pontos apresentada por Trump no ano passado

O Conselho de Paz apoiado pelos EUA, encarregado de supervisionar um acordo de paz de longo prazo em Gaza, divulgou nesta sexta-feira (31) um roteiro revisado de 15 pontos para o cessar-fogo.
O novo plano contém menos pontos do que a proposta inicial de 20 pontos apresentada pelo presidente americano, Donald Trump, no ano passado — proposta que passou por várias alterações desde então.
O novo roteiro oferece novos detalhes sobre o desarmamento do Hamas e como ele poderia funcionar:
- Segundo o roteiro, todas as armas policiais deverão ser transferidas para o controle do NCAG (Comitê Nacional para a Administração de Gaza) — um órgão palestino encarregado de governar o território — após a entrada do comitê na região;
- Armas de uso pessoal estarão sujeitas às leis palestinas pertinentes, sob a supervisão do NCAG, conforme estabelece o plano;
- Por sua vez, as armas pertencentes a milícias que não forem integradas às novas forças policiais ou de segurança de Gaza deverão ser "desativadas e armazenadas sob a autoridade do NCAG";
- Um "processo" para desativar e armazenar armas pesadas, locais de produção militar e túneis terá início em Gaza após a entrada do NCAG no território e o envio de uma Força Internacional de Estabilização, entre outras condições previstas no plano;
- Esse processo deverá estar "vinculado a uma retirada israelense, realizada em fases, das áreas sob seu controle em Gaza", afirmou o roteiro;
- Nenhuma arma poderá ser transferida ou entregue a Israel ou a partes não palestinas e, ao final do processo, apenas o NCAG armazenará e controlará as armas em Gaza, segundo o plano;
No entanto, antes que qualquer etapa desse roteiro revisado possa ser concretizada, vários passos precisam ser cumpridos. Todas as partes devem reafirmar seu compromisso com o plano de Trump que, segundo o roteiro, visa garantir a retirada total de Israel da Faixa de Gaza e viabilizar a governança, a reconstrução, a segurança, a recuperação e o desenvolvimento econômico palestinos.
Para avançar para a segunda fase do acordo, todos os requisitos da primeira fase devem ter sido cumpridos e verificados, e um cronograma para a implementação da segunda fase deve ter sido acordado, conforme a proposta. Somente então o NCAG poderá entrar na Faixa de Gaza e "assumir suas responsabilidades".
Desarmamento do Hamas
O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou na quinta-feira (30) que o Conselho de Paz chegou a um acordo "histórico" para o desarmamento do Hamas e outros grupos armados de Gaza.
Em publicação na rede social Truth Social, Trump disse que a medida é um "passo crucial" para que Gaza seja governada por uma nova administração palestina que deve trabalhar em colaboração com o grupo fundado pelo presidente americano.
Segundo Trump, o desarmamento do grupo faz parte de um plano de 20 pontos elaborado por ele mesmo.
Ainda de acordo com a publicação, o acordo será executado em fases, incluindo a remoção das Forças israelenses do território e a implementação da Força Internacional de Estabilização que deve trabalhar em conjunto com uma "nova força policial palestina".
A declaração ainda cita a reconstrução de Gaza, que deve ser supervisionada pelo próprio conselho. O cronograma de implementação das fases do plano ainda vai ser definido, informou o grupo.
O presidente americano acrescentou que a medida foi mediada por autoridades de Egito, Catar e Turquia.
Hamas concorda com o plano, mas com ressalvas
O alto funcionário do Hamas, Ghazi Hamad, confirmou à CNN que o grupo palestino chegou a um acordo com o Conselho de Paz para entregar suas armas, condicionado ao envio de uma Força Internacional de Estabilização para Gaza e ao cumprimento, por parte de Israel, das obrigações previstas no acordo de cessar-fogo de outubro.
“O acordo é um pacote completo”, disse Hamad. “Não iniciaremos nenhuma ação relacionada a armas até que Israel cumpra esses compromissos. Francamente, se Israel não os cumprir, não prosseguiremos.”
Hamad afirmou que Israel deve primeiro cessar os ataques, interromper todos os assassinatos seletivos em Gaza, retirar suas tropas para a Linha Amarela e permitir um aumento da ajuda humanitária, em conformidade com o acordo de cessar-fogo de outubro.
O CNAG (Comitê Nacional para a Administração de Gaza, na sigla em inglês), um comitê tecnocrático palestino nomeado pelo Conselho de Paz, também deve entrar em Gaza e assumir o governo da Faixa.
O CNAG assumirá o controle das armas pertencentes à força policial do Hamas em Gaza, explicou Hamad.
O oficial foi enfático ao afirmar que o armamento pesado do Hamas não será desativado nem destruído, mas sim “armazenado sob a supervisão do Comitê Nacional”.
No entanto, Hamad reiterou que nada disso acontecerá se Israel não cumprir suas obrigações.
“Nossa experiência com a primeira fase foi muito ruim. Israel não cumpriu o acordo e houve centenas ou milhares de violações. Agora, o desafio é para os garantes — Estados Unidos, Catar, Turquia e Egito — assegurarem que Israel honrará e implementará integralmente todos os itens do acordo”, expressou ele. “Espero que Israel o aprove — ainda estamos aguardando.”
Entenda o que é o Conselho de Paz
Trump propôs pela primeira vez a criação do Conselho de Paz em setembro de 2025, quando anunciou seu plano para encerrar a guerra em Gaza. Posteriormente, o líder americano deixou claro que a atuação do conselho seria expandida para além de Gaza, abrangendo outros conflitos ao redor do mundo.
O conselho tem a missão de promover a paz em todo o mundo e trabalhar para resolver conflitos, de acordo com uma cópia da minuta da carta constitutiva vista pela agência Reuters.
O presidente dos EUA chegou a sugerir que o grupo "poderia" substituir a ONU, o que agravou preocupações de especialistas.
De acordo com a carta constitutiva, os países integrantes teriam mandatos limitados a três anos, a menos que paguem US$ 1 bilhão.
Segundo apuração da correspondente da CNN Brasil Priscila Yazbek, um funcionário do governo dos Estados Unidos garantiu, sob condição de anonimato, que esse montante seria apenas para conseguir um assento permanente no grupo, pontuando que a entrada no conselho não exige alguma compensação.


