“O som das bombas é algo que nunca vou esquecer”, diz repórter da CNN em Kiev

Mathias Brotero, da CNN Brasil, conta como foram os momentos que antecederam os primeiros bombardeios da Rússia e como a população local está lidando com a guerra

Mathias Brotero, correspondente da CNN Brasil em Kiev, Ucrânia
Mathias Brotero, correspondente da CNN Brasil em Kiev, Ucrânia Reprodução/CNN

Mathias Broteroda CNN

Em Kiev

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Cheguei na Ucrânia dia 20 de fevereiro vindo justamente da Rússia, onde acompanhei a visita do presidente Jair Bolsonaro ao presidente russo Vladimir Putin. Eu tinha saído do Brasil dia 11 de fevereiro com previsão de volta dia 18, quando decidiram estender minha permanência devido à situação até então política que se agravava.

Fiz uma pequena escala na Alemanha e, na chegada à Ucrânia, tive o primeiro contato mais pessoal com a realidade quando os policiais da imigração não queriam liberar a minha entrada porque eu estava vindo da Rússia e tinha o visto russo. Não queriam ninguém com qualquer ligação com os russos entrando em território ucraniano, mesmo um repórter brasileiro.

Passado esse primeiro momento, minha estadia em Kiev era tranquila. Mais do que em Moscou, onde eu tinha dificuldades para fazer as entradas ao vivo da rua. Aqui não. As pessoas e os policiais foram sempre simpáticos, apesar da tensão que se agravava.

O que eu podia perceber e o que eu ouvia das pessoas era uma tentativa de continuar a vida, continuar as suas rotinas. Claro que a conversa de um ataque existia, mas as pessoas me pareciam tentar acreditar que nada de grave aconteceria em Kiev ou mesmo na Ucrânia como um todo.

Minha rotina aqui na Ucrânia vinha sendo basicamente a mesma desde que eu cheguei. Acordava por volta das oito horas, encontrava com a produtora que tem me ajudado aqui, fazia um planejamento de onde ir, o que fazer e saía para a rua para registrar imagens e depoimentos.

Fazia as entradas ao vivo para todos os jornais, voltava para o hotel, lia algumas coisas, estudava alguns possíveis assuntos e me programava para fazer alguma reportagem no dia seguinte, conversa com alguma autoridade ou personagem importante.

Toda cobertura internacional é tensa, mas essa, por motivos óbvios, era mais. Eu estava no meu quarto, estudando para o dia seguinte, me programando quando decidi tentar descansar um pouco. Como as notícias se intensificavam, as coisas pareciam mais tensas eu estava um pouco apreensivo, com aquela sensação estranha. Não conseguia dormir. Umas duas horas depois que adormeci aconteceu.

Posso dizer que o som das bombas é algo que eu nunca ouvi e nem imaginei que seria dessa maneira. Eu já vinha me preparando, mas o som é assustador. Marca mesmo a gente.

Logo que eu ouvi as quatro explosões, minha reação foi olhar pela janela. Em seguida, liguei meu celular, liguei meus equipamentos e já comecei a fazer as entradas ao vivo. Olhei para a avenida, vi algumas pessoas e senti que deveria ir até lá, ver o que eles estavam sentindo, o que achavam do que estava acontecendo. Fui para as ruas, vi muitos carros deixando a cidade, depois fui até as estações de metrô carregando os equipamentos e os meus documentos pessoais.

Como a maioria das coisas está fechada, não tenho muitas opções para comer e acabo aproveitando as oportunidades. Em uma das estações de metrô que estive encontrei uma senhora vendendo alguns salgados, algo típico que eu não sei o que são. Ela não falava outra língua que não cirílico, não conseguia me comunicar.

Um senhor grande que estava ao lado dela falava inglês e me ajudou. Perguntaram se eu era americano por causa do microfone da CNN e ficaram estranhamente contentes quando souberam que eu era brasileiro. Ele me sugeriu comprar algo da senhora, disse que tinha do sabor de maçã e cereja. Escolhi maçã, veio cereja. Mas tudo bem. Era gostoso apesar de ainda não saber exatamente o que eu comi. Teve um outro, acho que de carne, que tive que jogar fora de tão ruim.

Por segurança, decidi trocar de hotel. Ir para um mais central, onde estão concentrados diversos jornalistas de todo o mundo. Como não existe transporte, andei por volta de cinco quilômetros de um ponto ao outro. Ainda bem que gosto de fazer caminhadas longas e estou acostumado a carregar o equipamento de vídeo repórter no dia a dia.

Depois de instalado no novo hotel, voltei para as ruas e sigo andando pela cidade e conversando com as pessoas, que mostram um carinho grande pelo Brasil quando me identifico. O que é muito bom já que estou há dois dias acordado e esse contato com as pessoas me dá um pouco de forças.

Preciso agradecer todos os amigos, conhecidos e todos aqueles que me mandaram mensagens pelas redes sociais. Não sou muito bom com esses aplicativos, mas consegui ler muita coisa. Tenho um plano de emergência caso tenha algum problema e tenho cuidado da minha segurança.

E como eu falei para a minha mãe e meu pai: estou bem, apenas sem tempo para responder. Tem uma história que preciso contar.

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