Populistas da Europa ensaiam distanciamento de Vladimir Putin

Líder russo buscou se aproximar de figuras políticas que promovem agenda contra o Ocidente e minam confiança na política europeia convencional, explica analista

Presidente da Rússia, Vladimir Putin
Presidente da Rússia, Vladimir Putin Reuters

Luke McGeeda CNN

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O presidente russo, Vladimir Putin, há anos desfrutou da vida como uma figura política influente em muitos estados membros da União Europeia.

Mesmo em países que adotaram uma linha firme anti-Kremlin desde a anexação ilegal da Crimeia pela Rússia em 2014, Putin buscou oportunidades para se unir a movimentos políticos populistas que promovem uma agenda contra o Ocidente e minam a confiança na política europeia convencional.

Putin se associou repetidamente a figuras proeminentes da oposição “Eurocética”, como Marine Le Pen, da França, Matteo Salvini, da Itália, Geert Wilders, da Holanda e, talvez o mais prejudicial para a União Europeia, Viktor Orban, primeiro-ministro da Hungria.

Seja esse apoio por meio de visitas simbólicas de e para Moscou ou por meio de financiamento direto, populistas desordeiros que minimizam a ameaça da Rússia desempenharam um papel no objetivo de Putin de dividir a Europa e de impedi-la de tomar medidas significativas contra uma Rússia beligerante.

A invasão da Ucrânia por Putin fez com que muitos daqueles que anteriormente se aproximavam dele, agora procurando se distanciar do Kremlin.

No início desta semana, o político italiano de extrema-direita, Salvini, um oponente ferrenho de longa data da migração em massa, visitou Przemysl, uma cidade na Polônia que faz fronteira com a Ucrânia, supostamente para mostrar seu apoio à Ucrânia, Polônia e aos refugiados forçados a fugir de suas casas.

Quando ele chegou, o prefeito de Przemysl disse a Salvini para “ver o que seu amigo Putin fez”, enquanto chacoalhava uma camiseta com o rosto do presidente russo. Em 2014, Salvini foi visto vestindo uma camiseta idêntica enquanto visitava Moscou.

Enquanto isso, a candidata presidencial francesa Le Pen teve que andar na corda bamba, defendendo seus laços anteriores com Putin, que envolviam apoio financeiro de bancos russos.

Seu partido tem defendido historicamente a associação com Putin, mas a própria Le Pen foi obrigada a admitir que ele dirigia um “regime autoritário” e que a invasão da Ucrânia é uma “clara violação do direito internacional e absolutamente indefensável”.

A invasão russa forçou Orban, da Hungria, a “condenar a ofensiva armada da Rússia” e permitir que tropas e armas da Otan passassem pela Hungria, embora ele tenha tentado mitigar a reação da Rússia, impedindo que armas viajassem diretamente da Hungria para a Ucrânia.

Agenda conservadora

O comportamento agressivo de Putin não é novidade. Todas essas figuras políticas viram o que a Rússia fez em 2014 e ainda mantiveram relações com o Kremlin. O que eles estavam ganhando fazendo amizade com um autocrata?

A resposta para isso é mais complicada do que uma simples transação financeira. É claro que, no caso dos empréstimos de Le Pen provenientes de bancos russos e do financiamento de Orban para uma usina nuclear, a Rússia apresentou uma oportunidade de investimento que ambos teriam dificuldade de encontrar em outro lugar.

Katalin Cseh, uma membro húngara do Parlamento Europeu, explica que nos últimos anos o dinheiro europeu veio com restrições – como obedecer às regras da UE sobre direitos humanos e liberdade de expressão.

“Há um benefício financeiro muito claro em lidar com Putin, especialmente no momento em que o dinheiro europeu vem com questões sobre liberdade de mídia, direitos humanos e corrupção, com as quais Putin não se importa”, disse ela à CNN.

No entanto, é mais do que apenas dinheiro que muitos desses grupos veem em Putin. Ele também representa um tipo de liderança política que contrasta diretamente com o que muitos europeus conservadores veem como a agenda liberal de Bruxelas – a qual eles dizem promover a inclusão que ameaça a Europa dos valores tradicionais judaico-cristãos.

Andrius Kubilius, ex-primeiro-ministro da Lituânia e atual membro do Parlamento Europeu, disse à CNN que o objetivo de Putin nesse sentido sempre foi transparente.

“A estratégia de Putin era encontrar pessoas dentro da União Europeia que apoiassem algumas de suas ideias políticas e sociais domésticas mais radicais. Ele entendeu muito bem que é assim que nos divide politicamente, dividindo o Conselho Europeu e o Parlamento para que não pudéssemos tomar fortes posições unificadas contra ele”, disse Kubilius.

Essas ideias políticas e sociais incluem coisas como leis anti-LGBT, minando o judiciário independente e reprimindo a imprensa livre.

“Muitos dos grupos liberais no Parlamento Europeu odeiam o tipo de conservadorismo tradicional que veem na Rússia”, disse Gunnar Beck, deputado do Parlamento Europeu do partido populista de direita alemão Alternative fur Deutschland.

Sobre seu partido e seus parceiros no Parlamento Europeu, Beck disse à CNN que “muitos de nós se opõem às tendências sociais da moda do nosso tempo, algumas das quais são promovidas com dinheiro público. Olhamos para a Rússia e vemos um país europeu onde essas questões não foram longe demais, como vemos”.

Embora Beck tenha dito que a invasão de Putin é uma “clara violação da lei internacional”, ele e outros como ele ainda sentem que a raiva do Ocidente pelo comportamento da Rússia é às vezes “profundamente hipócrita”, e veem Putin como um exemplo de líder que defende a “herança e os valores” de seu país.

Nesse sentido, as palavras amáveis que fluem dos populistas da Europa para Moscou e vice-versa alimentam uma narrativa política particular que é conveniente para todos os lados.

Para os europeus “Eurocéticos”, a Rússia de Putin é um país que não tolera coisas que eles acreditam corroer a fibra social e moral do país, como direitos LGBT e imigração em massa.

Eles não veem nenhuma dissonância cognitiva em condenar a guerra de Putin e ao mesmo tempo aplaudir sua resistência aos valores liberais e modernos.

Para Putin, esses líderes de torcida europeus apresentam uma oportunidade de semear a desunião tanto na União Europeia, quanto na aliança ocidental de forma mais ampla.

“A ferramenta de Putin foi semear incerteza na Europa, promovendo um conjunto de valores muito diferente dos nossos. Durante anos, o Kremlin usou a desinformação para explorar as pessoas e maximizar as divisões na sociedade”, disse a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola.

No entanto, ela acredita que “a guerra mudou tudo” de tais maneiras que “provavelmente vão durar por muito tempo”.

“Ele subestimou a determinação da Europa e a importância que os europeus dão à liberdade e à democracia, assim como subestimou a resiliência e a resistência do povo ucraniano”, disse Metsola.

É provável que as ações de Putin o tenham tornado tão pária, que o mapa de segurança da Europa tenha mudado para sempre. Diplomatas seniores europeus e da Otan disseram anteriormente à CNN que a invasão da Ucrânia avançou em anos-luz o pensamento em torno da segurança.

Historicamente, tem sido muito difícil obter um acordo da UE sobre qualquer questão de política externa; agora eles estão assinando pacotes de sanções e aumentando os gastos com defesa a uma taxa impensável apenas algumas semanas atrás.

A violência impiedosa de Putin também afetará a política doméstica daqueles que antes estavam ao lado dele.

É provável que Le Pen fique relutante em reforçar seus laços com o presidente russo antes das eleições francesas, em abril. Cseh observa que a eleição da Hungria, também em abril, forçará Orban a andar na corda bamba de seus eleitores tradicionais, a quem, segundo Cseh, ele diz há anos que “a UE é o inimigo e Putin é um cara legal”.

A invasão de Putin já lhe custou caro, em termos de seu relacionamento complicado, mas em última análise, benéfico com o resto da Europa.

E à medida que a guerra continua, é provável que, além da dor econômica e das perdas de pessoal, ele viva o resto de sua vida como uma “persona non grata” com alguns dos indivíduos que o ajudaram a crescer a sua – e a da Rússia – riqueza e status como uma peça global com a qual o resto do mundo estava disposta a trabalhar.

 

Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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