Por que ataques a mesquitas no Afeganistão às sextas têm se tornado recorrentes

Em um mês, ao menos três atentados em locais de culto de seguidores da fé islâmica ocorreram em uma sexta-feira, dia sagrado para os muçulmanos

Lourival Sant’Anna, analista internacional da CNN, explica que às sextas-feiras são dias sagrados para os muçulmanos, pois são o equivalente ao domingo na semana muçulmana
Lourival Sant’Anna, analista internacional da CNN, explica que às sextas-feiras são dias sagrados para os muçulmanos, pois são o equivalente ao domingo na semana muçulmana Foto: Majdi Fathi/NurPhoto via Getty Images

João de Marida CNN

Em São Paulo

Ouvir notícia

O Afeganistão sofre com uma série de atentados a mesquitas desde o retorno do Talibã ao poder, em agosto deste ano, contrariando a alegação do governo de ter restaurado a segurança após décadas de guerra.

Nesta sexta-feira (12), uma explosão atingiu uma mesquita no distrito de Spin Ghar, na província de Nangarhar, no leste do país, ferindo ao menos 12 pessoas. Até a publicação desta reportagem, ninguém havia assumido a autoria da explosão.

Os ataques em locais de culto dos seguidores da fé islâmica, no entanto, têm sido reivindicados pelo Estado Islâmico-K, grupo terrorista rival do Talibã. A maioria dos atentados ocorreu às sextas-feiras.

Lourival Sant’Anna, analista internacional da CNN, explica que as sextas-feiras são dias sagrados para os muçulmanos, pois são o equivalente ao domingo na semana muçulmana.

“Sexta é o dia de descanso dos muçulmanos, e o dia em que eles enchem as mesquitas na oração do meio-dia, que, na verdade, ocorre por volta das 13h”, afirma.

Segundo relatos de moradores, a explosão de hoje ocorreu por volta das 13h30 (no horário local), quando explosivos aparentemente localizados no interior da mesquita foram detonados.

“Para os afegãos e outros povos muçulmanos, não poder ir tranquilamente rezar às sextas-feiras nas mesquitas, que é um dever religioso, causa grande ansiedade”, destaca Sant’Anna. “A explicação é essa: os ataques acontecem quando as mesquitas estão cheias”.

Instabilidade, medo e descontentamento com Talibã

A mesquita atacada nesta sexta-feira (12) era frequentada por muçulmanos sunitas. Ataques anteriores desde a tomada do Talibã atingiram mesquitas xiitas. Ambos são muçulmanos, mas têm teologias e rituais diferentes.

Apesar disso, Sant’Anna avalia que não se pode considerar uma “retaliação” ao Estado Islâmico, que é sunita, pois o Talibã também pertence ao mesmo grupo islâmico.

“O atentado foi obra do Estado Islâmico. É para gerar instabilidade, medo e descontentamento com as condições de segurança sob o regime do Talibã. Nangarhar é o principal reduto do Estado Islâmico, porque eles têm bases na Área Tribal Autônoma e no Paquistão, que fazem fronteira com a província”, explicou o analista da CNN.

Lourival Sant’Anna destaca, porém, que para atingir o objetivo de desestabilizar o governo do Talibã, o Estado Islâmico ataca inclusive sunitas. “Eles não atacam só alvos xiitas”.

Outros ataques em mesquitas

Na sexta-feira do dia 8 de outubro, mais de 100 pessoas ficaram feridas após explosão em uma mesquita na cidade de Kunduz, no nordeste do Afeganistão.

Em 15 de outubro, outra explosão em uma mesquita, dessa vez em Kandahar, a segunda maior cidade do país, matou ao menos 32 pessoas.

Nesta sexta-feira (12), no mesmo dia da explosão que feriu ao menos 12 pessoas, o chanceler do regime do Talibã, Amir Khan Muttaqi, estava no Paquistão. Em evento, ele afirmou que o Talibã trouxe estabilidade ao Afeganistão.

Assim como o Talibã, o Estado Islâmico-K também pertence ao chamado “Islã radical sunita”. Porém, as organizações disputam o mesmo espaço no Oriente Médio.

“O talibã tem ideologia nacional, querem governar o Afeganistão, não querem inimigos externos e nunca quiseram provocar outros países. São um movimento nacional para governar o país”, diz Sant’Anna.

“Já o Estado Islâmico K é multinacionalista, querem atuar em todos os países que hajam muçulmanos. Eles recrutam muçulmanos no mundo todo para desestabilizar quem não segue a visão do islã”.

Mais Recentes da CNN