Por que França está zangada com acordos de submarinos nucleares negociados com EUA e Reino Unido

Esforço para fornecer submarinos com propulsão nuclear à Austrália é parte de uma nova parceria trilateral entre os Estados Unidos, Austrália e Reino Unido

Maegan Vazquezda CNN

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O governo francês diz que foi traído quando a Austrália desistiu de seu acordo de defesa multibilionário, concordando em obter submarinos com propulsão nuclear por meio de um novo acordo com os Estados Unidos e o Reino Unido.

O esforço para fornecer submarinos com propulsão nuclear à Austrália é parte de uma nova parceria trilateral entre os Estados Unidos, Austrália e Reino Unido, apelidada de “AUKUS”. A iniciativa é um grande passo para conter a China no momento em que o presidente dos EUA Joe Biden trabalha para construir apoio internacional para sua abordagem a Pequim.

Autoridades francesas disseram que o acordo com a AUKUS foi uma punhalada nas costas e uma medida que “mostra falta de coerência”.

Em resposta ao acordo trilateral, uma fonte francesa disse à CNN na sexta-feira (17) que a França chamou de volta seu embaixador nos Estados Unidos para uma “consulta” – marcando o que se acredita ser a primeira vez que os franceses recorreram a tal movimento nos tempos modernos.

Segundo a autoridade, o embaixador francês na Austrália também foi chamado de volta.

O governo francês também cancelou uma recepção iminente na Embaixada da França em Washington, DC, e suavizou as celebrações para comemorar uma vitória naval da Guerra Revolucionária pelos franceses que ajudou os EUA a conquistar sua independência.

A irritação da França

A França pode perder o equivalente a US$ 65 bilhões de dólares (cerca de R$ 343 bilhões) com um acordo existente para fornecer à Austrália submarinos convencionais movidos a diesel.

O acordo cancelado com a França, um grande exportador global de armas, deve ter um impacto econômico significativo no setor de defesa francês. A França também pode perder estrategicamente no Indo-Pacífico, onde o país detém interesses significativos.

Na quinta-feira (16), após o anúncio do acordo de submarino com propulsão nuclear com os EUA e o Reino Unido, a Austrália anunciou formalmente que se retiraria de seu contrato anterior de submarinos convencionais com a França.

O negócio com Paris estava em andamento há anos.

A Austrália planejou anteriormente adquirir 12 submarinos convencionais de classe de ataque do construtor naval francês Naval Group, que venceu com sucesso as licitações alemãs e japonesas em 2016.

O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, disse estar “zangado e desgostoso” com o novo acordo de submarino da Austrália.

“Isso não é algo que se faz entre aliados. É realmente uma facada nas costas”, acrescentou.

O ministro das Relações Exteriores da França também dirigiu palavras fortes aos EUA, dizendo: “Esta decisão brutal e unilateral se parece muito com o que Trump faz”.

Le Drian também divulgou um comunicado conjunto com a ministra das Forças Armadas da França, Florence Parly, na quarta-feira (15), dizendo: “A escolha norte-americana de excluir um aliado e parceiro europeu como a França de uma parceria estruturante com a Austrália, em um momento em que enfrentamos desafios sem precedentes em a região Indo-Pacífico, seja em termos de nossos valores ou em termos de respeito ao multilateralismo baseado no Estado de Direito, mostra uma falta de coerência que a França só pode notar e lamentar”.

O chanceler disse que a decisão da Austrália de se retirar do acordo com a França era “contrária à letra e ao espírito da cooperação que prevalecia entre a França e a Austrália”, mas a Austrália sustentou que havia partes do contrato que a permitiam sair do negócio.

A decisão dos Estados Unidos de eliminar um de seus aliados mais fortes, a França, ocorre no momento em que potências globais disputam o poder no Indo-Pacífico – em grande parte contra a ameaça da China.

O anúncio do acordo AUKUS também veio um dia antes de a União Europeia apresentar sua estratégia altamente antecipada para o Indo-Pacífico.

A declaração conjunta com Le Drian chamou a França de “a única nação europeia presente no Indo-Pacífico com quase dois milhões de cidadãos e mais de 7.000 militares”. Além disso, a declaração afirmou que a França é um “parceiro confiável que continuará a cumprir seus compromissos, como sempre fez”. A decisão da Austrália “reforça a necessidade de tornar a questão da autonomia estratégica europeia alto e bom som”.

O acordo do submarino também vem na esteira da retirada confusa do Afeganistão, levando a críticas dos aliados da Otan.

Austrália e EUA veem outro lado

Os norte-americanos e os australianos indicaram que o governo francês não foi pego de surpresa pelo descumprimento do contrato original, dizendo que altos funcionários franceses foram informados da decisão pelo governo australiano.

“Isso foi transmitido diretamente ao presidente, diretamente ao ministro das Relações Exteriores e ao ministro da Defesa”, afirmou o primeiro-ministro australiano Scott Morrison na sexta-feira (17).

Morrison disse que, quando se reuniu com o presidente francês Emmanuel Macron no final de junho, “deixei muito claras – tivemos um longo jantar lá em Paris – as nossas preocupações muito significativas sobre as capacidades dos submarinos convencionais para lidar com a nova estratégia ambiente que enfrentamos. E deixei bem claro que esse é um assunto que a Austrália precisa tomar uma decisão em nosso interesse nacional”.

O ministro da Defesa da Austrália, Peter Dutton, disse em entrevista coletiva na quinta-feira (16) que a decisão de escolher o submarino nuclear norte-americano em vez do submarino a diesel convencional da França “se baseia no que é do melhor interesse de nossa segurança nacional”.

Dutton argumentou que “os franceses têm uma versão que não era superior à operada pelos Estados Unidos e o Reino Unido. E, no final, a decisão que tomamos é baseada no que é melhor para a nossa segurança nacional”.

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, também procurou minimizar a divergência entre os EUA e a França, enfatizando a importância de Paris como “um parceiro vital” no Indo-Pacífico e em todo o mundo.

“Quero enfatizar que não há divisão regional separando os interesses de nossos parceiros do Atlântico e do Pacífico”, Blinken afirmou em declarações no Departamento de Estado na quinta-feira (16).

Blinken disse que os EUA dão as boas-vindas aos “países europeus que desempenham um papel importante no Indo-Pacífico”, acrescentando que “a França, em particular, é um parceiro vital nesta e em muitas outras questões que remontam a gerações anteriores, e queremos encontrar todas as oportunidades para aprofundar nossa cooperação transatlântica no Indo-Pacífico e em todo o mundo”.

Jim Acosta, Angus Watson e Sugam Pokharel da CNN contribuíram para esta reportagem.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês).

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