Por que os EUA têm tantos casos de COVID-19?

País registra cerca de 1,1 mil mortes pela doença e o número aumenta rapidamente

Jeffrey Sachs

Da CNN

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Coronavírus EUA
Os EUA passaram a China em número de casos da COVID-19, segundo a universidade Johns Hopkins
Foto: Yara Nardi – 16.nov.2019/ Reuters

Um divisor de águas sombrio surgiu nessa quinta-feira (26), em meio à pandemia do novo coronavírus. Os Estados Unidos superaram a Itália e a China, e é o país com o maior número de casos confirmados de COVID-19 no mundo, segundo a Universidade de Medicina Johns Hopkins. Essa é uma crise terrível e uma grande falha do presidente Donald Trump.

Os norte-americanos estão sofrendo e morrendo porque o governo do republicano falhou em agir de forma rápida e decisiva para evitar a disseminação do vírus. Os EUA, até o momento, registram cerca de 1,1 mil mortes, e o número aumenta rapidamente.

Com o novo balanço da Johns Hopkins, o país viu uma alta de mais de 15 mil casos em apenas um dia – um número chocante, que pode ser explicado tanto pela disseminação do vírus quanto pelo aumento da realização de testes para detectar a doença, após semanas de escassez de material para diagnóstico–, elevando o total para cerca de 85 mil. A China, em comparação, tem 81 mil.

Diferença entre China e EUA

Há uma diferença fundamental entre esses dois países. A China conseguiu romper a corrente de transmissão da COVID-19 com um isolamento total iniciado em Wuhan  – onde o vírus se originou no dia 23 de janeiro –, que agora está sendo afrouxado aos poucos. O país registra apenas alguns casos novos por dia, sendo a maioria deles aparentemente importados. 

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Os EUA não quebraram esse ciclo da pandemia. E se Trump tem o seu jeito de lidar com a situação, falando que o isolamento durará somente até a Páscoa, não será possível parar a doença no país e milhões de pessoas serão infectadas. Mesmo com mais controle ativo, cerca de 81 mil norte-americanos podem morrer até julho, de acordo com uma nova análise do Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde da Universidade de Washington, em Seattle.

A transferência do vírus, que pode ter se originado em morcegos, para humanos foi um acontecimento imprevisível. A resposta a isso tem sido determinada pela política de cada país. 

Em 31 de dezembro, o governo de Wuhan confirmou que lidava com dezenas de casos de uma misteriosa nova pneumonia; no dia 7 de janeiro, autoridades identificaram o novo coronavírus como causa do surto. O primeiro caso confirmado no Japão foi registrado em meados de janeiro, seguido por Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e Estados Unidos nos dias que se seguiram.

Os países do leste asiático entraram em ação. Muitos deles tiveram de lidar com o surto da Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) em 2003 e contavam com equipes de saúde pública em alerta para novas epidemias. 

Mais de dois meses depois, o número de casos confirmados nos EUA disparou, com mais de 250 a cada 1 milhão de pessoas, muito mais alto do que a China, que tem aproximadamente 57 casos a cada 1 milhão de habitantes; Hong Kong, com 60; Taiwan, com 11; Singapura, com 117; Japão, com 11; e Coreia do Sul, com 180.

Despreparo

Trump tem responsabilidade direta pelo despreparo e pela fracassada resposta dos EUA à pandemia. Desde que o magnata assumiu a presidência, ele tem sistematicamente desmontado o sistema de saúde pública do país. 

A unidade para pandemia do Conselho de Segurança Nacional foi desativada em 2018, sob a supervisão de Trump. Ele cortou as equipes de controle de epidemias do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC, em inglês) em 39 países, incluindo a China. E quando a COVID-19 chegou, o presidente a ignorou, minimizando o poder da doença e fazendo repetidas afirmações falsas.

Mesmo agora, ele fala coisas sem sentido sobre restaurar a economia até a Páscoa, enquanto os especialistas em saúde pública dizem que a ameaça irá persistir por muito mais tempo.

Trump é culpado, mas não é a única razão para a situação sombria vivida pelos EUA. O sistema de saúde norte-americano, com fins lucrativos, arrecada dinheiro com doenças, não com a saúde. Em vez disso, o país conta com um sistema que trabalha para os ricos e não para todos.

A população cruza os EUA na tentativa de sobreviver, enquanto Trump age como se estivesse mais interessado em salvar a economia. O país ainda pode tentar controlar o vírus, como no leste asiático e conseguir resgatar a economia. É preciso ações decisivas nos estados e municípios. Hoje, a liderança é vista nos governadores, prefeitos e nos corajosos profissionais de saúde que estão na linha de frente no combate ao novo coronavírus.

 

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