Primeiro-ministro francês sobrevive a dois votos de desconfiança

Sébastien Lecornu recebeu apoio do Partido Socialista ao prometer suspender a controversa reforma da previdência de Macron até 2027

Da Reuters
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O primeiro-ministro francês Sébastien Lecornu sobreviveu a dois votos de desconfiança no parlamento nesta quinta-feira (16). Ele conquistou o apoio do Partido Socialista graças à sua promessa de suspender a contestada reforma da previdência do presidente Emmanuel Macron.

As duas moções apresentadas pelo França Insubmissa, da esquerda, e pelo RN (Reunião Nacional), da ultradireita, obtiveram apenas 271 e 144 votos respectivamente – bem abaixo dos 289 votos necessários para derrubar o governo recém-formado de Lecornu.

A oferta de Lecornu de congelar a reforma da previdência até depois das eleições presidenciais de 2027 ajudou a convencer os Socialistas, oferecendo uma tábua de salvação ao governo na profundamente fragmentada Assembleia Nacional.

Apesar do alívio, as moções evidenciaram a fragilidade da administração de Macron na metade de seu mandato final.

"Uma maioria costurada através de negociações conseguiu hoje salvar suas posições, às custas do interesse nacional", escreveu o presidente do partido RN, Jordan Bardella, no X.

O mercado de títulos francês permaneceu estável após os votos consecutivos, com a vitória do governo sendo amplamente esperada pelos investidores.

Lecornu enfrenta negociações orçamentárias

Ao colocar a reforma da previdência na berlinda, Lecornu ameaça eliminar um dos principais legados econômicos de Macron em um momento em que as finanças públicas da França estão em estado precário, deixando o presidente com poucos resultados domésticos após oito anos no cargo.

Há 265 parlamentares de partidos que disseram que votariam para derrubar Lecornu, e apenas alguns rebeldes de outros grupos se juntaram à causa.

Se Lecornu tivesse perdido qualquer um dos votos, ele e seus ministros teriam que renunciar imediatamente, e Macron teria ficado sob enorme pressão para convocar eleições parlamentares antecipadas, mergulhando a França em uma crise ainda mais profunda.

Mas apesar do resultado das votações de quinta-feira (16), Lecornu ainda enfrenta semanas de árduas negociações no parlamento para aprovar um orçamento reduzido para 2026, durante as quais ele pode ser derrubado a qualquer momento.

"Os franceses precisam saber que estamos fazendo todo este trabalho... para dar-lhes um orçamento, porque é fundamental para o futuro do nosso país", disse Yael Braun-Pivet, presidente da Assembleia Nacional e aliada de Macron.

"Estou satisfeita em ver que hoje existe uma maioria na Assembleia Nacional que está operando neste espírito: trabalho, busca por compromisso, o melhor esforço possível", acrescentou.

Após conquistar a concessão da previdência, os Socialistas voltaram suas atenções para incluir um imposto sobre bilionários no orçamento de 2026, sublinhando o quão fraca é a posição de Lecornu nas negociações.

Pior crise política em décadas

A França está no meio de sua pior crise política em décadas, com uma sucessão de governos minoritários tentando aprovar orçamentos de redução de déficit em um legislativo truculento dividido em três blocos ideológicos distintos.

Reformar o generoso sistema previdenciário francês tem sido uma kriptonita política desde que o presidente socialista François Mitterrand reduziu a idade de aposentadoria de 65 para 60 anos em 1982.

Na França, a idade média efetiva de aposentadoria é de apenas 60,7 anos, em comparação com a média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) de 64,4 anos.

A reforma de Macron elevou a idade legal de aposentadoria em dois anos, para 64 anos até 2030

Embora essa medida apenas alinhe a política francesa com a de outros estados-membros da União Europeia, ela representa um desgaste em um benefício social histórico muito valorizado pela esquerda.

 

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