Professor: Ataques dependem de como Israel vê a permanência do cessar-fogo
Marcus Vinícius de Freitas afirma que Israel pode estar buscando causar danos máximos ao Líbano visando dificultar futura reconstrução ou tentando sabotar acordo com Irã
Israel continua lançando ataques contra o Líbano com intensidade ainda maior, mesmo após o cessar-fogo estabelecido entre Estados Unidos e Irã. Este aparente paradoxo levanta questões sobre os objetivos do governo israelense neste momento delicado das negociações de paz na região.
Em entrevista ao CNN Prime Time, Marcus Vinícius de Freitas, professor de Relações Internacionais da China Foreign Affairs, explicou que as ações de Israel dependem fundamentalmente da percepção do governo sobre a permanência do cessar-fogo. "Tudo depende do quanto o governo Netanyahu acredita que esse cessar-fogo será permanente porque, se for permanente e a perspectiva é de que isso tenha uma longa duração, obviamente que nós observamos que tem sido uma característica em muitas ocasiões de se buscar realizar o máximo possível de dano neste momento final", afirmou.
O especialista identificou duas possíveis motivações para os intensos bombardeios israelenses: "Justamente na expectativa de que a possibilidade de reconstrução fique muito mais difícil. Então nós já observamos ao longo da história que muito cessar-fogo existia sempre o problema da comunicação, mas isso não é mais verdade hoje em dia, porque a comunicação é muito mais rápida, mas é aquela tentativa de deixar um cenário de terra arrasada justamente na expectativa de que isto dê a mensagem final, o momento final da guerra".
Possível sabotagem do acordo
Uma segunda possibilidade apontada pelo professor é que Netanyahu esteja tentando inviabilizar o próprio acordo de cessar-fogo: "O grande problema que existe também, e essa que também é a dúvida, é se Netanyahu não faz isso para, de alguma forma, impedir que o cessar-fogo seja definitivo. Ou seja, pode ser duas coisas, se nós pensávamos e fôssemos avaliar: uma varredura final neste processo que ele tem tido de guerra contra o Hezbollah ou uma tentativa de frustrar a continuidade de um acordo com o Irã".
Quanto às negociações previstas para ocorrer em Islamabad, no Paquistão, Freitas destacou a complexidade da delegação americana. De um lado, estão representantes com posições favoráveis a Israel, e de outro, figuras como o vice-presidente JD Vance, que se declara contrário à ação militar. "Nós temos aí, na mesma delegação, objetivos diferentes. Nós temos ali os dois que têm uma perspectiva mais sionista com relação ao apoio de Israel e todos os ganhos derivados disso. E, por outro lado, temos JD Vance pensando também no seu próprio calendário eleitoral", explicou o professor.
Impactos regionais e internacionais
O conflito atual, segundo Freitas, fortaleceu o Irã regionalmente, já que o país restringiu suas ações militares às bases norte-americanas, demonstrando uma estratégia calculada. "O Irã também comprovou nesta situação toda que as bases militares existentes dos Estados Unidos têm uma função básica não de proteger contra o Irã, como se afirmava e como se foi sempre revelado e conversado a respeito, mas as bases norte-americanas existem efetivamente para a proteção do Estado de Israel", analisou.
O professor também destacou como o conflito deteriorou a imagem dos Estados Unidos na região, especialmente entre os países do Golfo: "Eles descobriram aí que os Estados Unidos, como parceiro, e como dizia Kissinger, ser amigo dos Estados Unidos pode ser fatal. O que eles descobriram é que Donald Trump, quando acuado sobre a questão, falou para os outros países comprarem o petróleo dos Estados Unidos".
A situação atual no Oriente Médio permanece extremamente volátil, com as ações de Israel no Líbano potencialmente comprometendo esforços diplomáticos para um cessar-fogo mais amplo e duradouro na região.


