Protestos em Cuba são os maiores em quase três décadas; veja histórico

Manifestações antigoverno são raras na ilha, onde movimentos são reprimidos rapidamente pelo governo

Manifestantes gritam slogans contra o governo cubano durante protesto em Havana
Manifestantes gritam slogans contra o governo cubano durante protesto em Havana Foto: REUTERS/Alexandre Meneghini

Anna Satie*, da CNN, em São Paulo

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Milhares de cubanos foram às ruas no último domingo (11) para protestar por liberdade e melhores condições, em meio à falta de comida e medicamentos durante uma crise econômica agravada pela pandemia da Covid-19 e sanções impostas pelos Estados Unidos. 

Esses foram os maiores atos em quase três décadas, na capital Havana e múltiplas outras cidades. Movimentos como esses são raros desde a Revolução, já que não são permitidos e são reprimidos rapidamente.

As manifestações de domingo começaram por volta das 12h no município de San Antonio de los Baños, na província Artemisa, do lado de Havana. Vídeos publicados nas redes sociais mostram centenas de pessoas pedindo vacinas contra Covid-19, o fim dos apagões diários de energia e a renúncia do presidente Miguel Díaz-Canel

Em 2020, a economia cubana encolheu quase 11% em meio ao ponto mais baixo das relações da ilha com os Estados Unidos. O governo Trump impôs as sanções mais duras em décadas contra o país, e, até o momento, a gestão Biden parece relutante em suspendê-las.

Além disso, o turismo e a importação de itens essenciais caíram drasticamente durante a pandemia. 

Protestos têm acontecido com mais frequência ao longo do último ano, mas nada nessa escala ou simultaneamente em tantos locais. De acordo com o professor-assistente de história da América Latina da Universidade Internacional da Flórida Michael Bustamante, esses foram os maiores desde o verão de 1994. 

“Só que, agora, eles não ficaram limitados à capital; nem começaram lá, pelo que parece”, disse ele. 

‘Maleconazo’

Protesto em Havana, Cuba, em 1994, conhecido como 'Maleconazo'
Protesto em Havana, Cuba, em 1994, conhecido como ‘Maleconazo’
Foto: LHCU/Wikimedia Commons

Bustamante se refere ao levante de quase três décadas atrás, que ficou conhecido como Maleconazo, em referência ao nome de uma esplanada da capital onde os manifestantes se reuniram.

Era o chamado Período Especial na ilha, como ficaram conhecidos os anos após a dissolução da União Soviética, sucedidos por uma grave crise econômica no país da América Central. Com o fim da antiga aliada, as sanções impostas pelos Estados Unidos tiveram forte efeito e o PIB chegou a cair 34%. 

O protesto começou após o governo interceptar embarcações de cubanos rumo aos Estados Unidos. De acordo com relatos publicados na imprensa da época, houve saques e conflitos com a polícia, até que o próprio Fidel Castro foi até o local e controlou a situação.

Ele acusou os Estados Unidos de tentar provocar um “banho de sangue”, e disse que permitiria a saída da ilha de qualquer pessoa que assim desejasse. Esse é considerado o maior protesto desde a Revolução Cubana, em 1959. 

Outros protestos em 2020

Em junho do ano passado, um grupo de opositores, artistas e jornalistas disseram que agentes de segurança do país ficaram de tocaia do lado de fora da casa deles para evitar que eles participassem de protestos contra a morte de um homem negro pela polícia local. 

Ao menos 40 ativistas foram detidos, de acordo com o grupo de direitos de exilados Cubalex. O movimento aconteceu após a morte de Hansel Hernandez, um homem negro de 27 anos que estava desarmado. 

Uma mulher que se identificou como tia de Hernandez denunciou a morte nas redes sociais e pediu por justiça, numa época em que protestos semelhantes aconteciam nos Estados Unidos pela morte de George Floyd. 

Mais tarde, em novembro, um protesto de cerca de 300 pessoas contra a censura e repressão terminou em um acordo sem precedentes, com autoridades concordando em dialogar com os participantes. Eles protestavam contra a prisão de dois artistas, acusados de serem mercenários dos Estados Unidos.

(*Com informações da Reuters e de Patrick Oppman e Tatiana Arias, da CNN Internacional)

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