Quais as principais diferenças entre Brasil e Argentina durante a pandemia

O país vizinho tem dez vezes menos mortos pelo novo coronavírus

Em dois meses, o Brasil tem dez vezes mais mortos registrados por Covid-19 do que a Argentina
Em dois meses, o Brasil tem dez vezes mais mortos registrados por Covid-19 do que a Argentina Foto: REDMASON/Shutterstock

Stephanie Bevilaqua

Da CNN, em São Paulo

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A Argentina, com uma população de cerca de 45 milhões de habitantes, tem nesta terça-feira (25) o total de 471 mortos pela Covid-19, de acordo com dados da Universidade norte-americana Johns Hopkins. Já o Brasil, com uma população de cerca de 210 milhões de habitantes, tem 23.473 vítimas fatais.
 
O país vizinho registra até o momento 12.628 infectados pelo o novo coronavírus. No último dia 22, o Brasil ultrapassou a Rússia e tornou-se o segundo país mais infectado do mundo, com 374.898 casos de Covid-19. 

Proporcionalmente às suas populações, o Brasil tem pelo menos dez vezes mais vítimas fatais da doença do que a Argentina: enquanto o país vizinho contabiliza aproximadamente dez mortes a cada milhão de habitantes, o Brasil este índice é de 110 óbitos a cada um milhão de pessoas. 

A diferença estatística entre os países vizinhos se repete em relação às medidas de combate ao novo coronavírus. Veja a seguir como cada país lida com a pandemia. 

Quarentena rígida

 
O presidente da Argentina, Alberto Fernández, prorrogou o lockdown na capital Buenos Aires até o dia 7 de junho. O isolamento social obrigatório está em vigor desde 20 de março. Lá, as pessoas só podem circular com autorização, que não é cedida para aqueles que estão no grupo de risco. 
 
O presidente argentino, Alberto Fernández repete sempre que “está muito preocupado” porque “o governo brasileiro não enfrenta o problema com a seriedade que o caso requer”. 

Bolsonaro disse recentemente que a Argentina se encaminha ao socialismo e que a razão para a maior quantidade de mortos no Brasil é a quantidade de habitantes.

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No Brasil, cabe a cada estado decidir as medidas de isolamento social a serem adotadas. Bolsonaro, entretanto, tem criticado os governadores que adotam medidas de restrição de circulação, alegando que os impactos econômicos da quarentena são piores do que os efeitos da doença — o presidente defende o isolamento apenas dos grupos de risco, como idosos e pessoas com comorbidades.

A brasileira Helena Barros Santana, 37 anos, é jornalista de formação e cursa um mestrado em cinema há dois anos em Buenos Aires e diz que se sente segura na Argentina.  “Há duas semanas foi liberado levar as crianças para passearem. Eu tenho um filho de um ano e meio e fazia dois meses que ela e o filho não saiam de casa”, explica em relação ao rodízio de documentos que a capital adotou.

“A família do meu marido mora em Manaus. Assistindo às notícias, ver o sistema público em colapso, é muito triste. Por outro lado, ficamos contentes por a curva de casos aqui estar sob controle. mas em comparação com o Brasil, é muito preocupante”. 

Bloqueio de fronteiras

No dia 28 de abril, o governo argentino prorrogou a proibição de voos comerciais no país até setembro, sejam internos ou externos, medida que começou a ser adotada na terceira semana de março, quando a Argentina passou a proibir a entrada de não residentes no país. 
 
No dia 23 de março o Brasil também restringiu a entrada de estrangeiros, no entanto, restrita somente a passageiros vindos da China, de países-membros da União Europeia, da Islândia, da Noruega, da Suíça, do Reino Unido e da Irlanda do Norte, da Austrália, do Japão, da Malásia e da Coreia do Sul.

Já na noite desta sexta-feira (22) foi publicada uma portaria que proíbe a entrada de estrangeiros de qualquer nacionalidade no Brasil por via aérea, terrestre ou aquaviária por 30 dias para conter a transmissão do novo coronavírus.
 
O governo federal também tentou fechar fronteiras terrestre do Brasil com países vizinhos da América do Sul, com exceções aos brasileiros ou imigrantes com autorização prévia ou com residência definitiva em território brasileiro. No último dia 15, o governo prorrogou uso da Força Nacional nas fronteiras por mais seis meses – a fim de apoiar a Polícia Federal nas atividades de prevenção e repressão aos delitos nas fronteiras nacionais.
 
Lucas Nemerski e Valeska Patraska são brasileiros e possuem residência permanente na Argentina há cerca de cinco anos. O casal optou por vir de carro para o Brasil em março alegando a vontade de estar perto da família durante a pandemia. No entanto, voltaram para o país vizinho na última quinta-feira (21).
 
“A nossa ideia era passar esse período de quarentena com a família, pois tínhamos medo de acontecer alguma coisa e estarmos longe dos nossos familiares. Saímos de Buenos Aires no dia 20 de março de carro, já que os aeroportos, portos e terminais rodoviários estavam fechados na Argentina. O que a gente percebeu é que dentro do território argentino existiam várias barreiras de segurança para tirar a nossa temperatura e saber para onde estávamos indo e porquê estávamos circulando. Quando chegamos no território brasileiro, a única força que se interessou por nós foi a Receita Federal que revisou todo o nosso carro, provavelmente procurando algo de valor que pudéssemos estar levando para o Brasil”, conta Lucas. 
 
Eles afirmam que o cenário é “completamente diferente” entre os dois países: “Aqui [na Argentina] as pessoas são obrigadas a ficarem em casa, mesmo aqueles que não querem, você precisa tirar uma permissão para circular. Quando a gente entrou na fronteira, em Uruguaina, tivemos salvo-conduto de apenas um dia para sair de uma província para outra, um estado para outro, no caso. Chegando em Buenos Aires a gente vê que os controles adotados são muito diferentes. Na própria fronteira eles nos pediram para que ‘por favor não saíssemos de nossas casas’. Nos colocaram como grupo de risco por estar vindo do Brasil e nos explicaram que essas medias são para evitar mais contágios”. 
 
Por outro lado, Lucas identificou um maior número de roubos em Buenos Aires. “Tem muito assalto na rua, ladrões em moto… As pessoas aqui não têm mais renda, empresas estão falindo”, relata e ainda assim acredita que algumas das restrições argentinas deveriam ser adotadas no Brasil. “Quem aqui gostaria de ter um ente querido morto por essa doença?”.
 
O casal, proprietário de uma agência de turismo, também sente os efeitos econômicos da pandemia. “Em março, tínhamos muitos passeios agendados para este ano e tivemos que devolver o dinheiro para os nossos clientes. E a previsão agora de retorno às atividades turísticas é só para em março de 2021”, diz Valeska que explica que, enquanto enquanto aguardam o retorno do turismo, o casal deve buscar outra fonte de renda na Argentina. 

Sistema de saúde

O Sistema Único de Saúde (SUS) é um dos maiores e mais complexos sistemas de saúde pública do mundo que visa garantir acesso integral, universal e gratuito para toda a população no Brasil. E mesmo diante da sua organização, enfrenta colapsos em muitas regiões diante de internações e falta de aparelhos como respiradores e itens básicos de proteção. 

A Argentina também tem um sistema público de saúde formado por clínicas e hospitais. No entanto, o mais utilizado é o chamado “obra social”, que é um sistema misto, com investimentos públicos, dos trabalhadores, dos empregadores, dos pensionistas e dos aposentados. É usado por cerca de 52% da população. Quando um trabalhador registrado necessita um serviço de saúde, o Estado paga parte e o trabalhador paga outra parte, seja a clínica pública ou privada. 

No entanto, como a Argentina tem apenas 40% do sistema de saúde ocupado, com mais da metade dos leitos de unidade de terapia intensiva vazios. De acordo com os dados oficiais, desde o início da pandemia, foram acrescentados 1,5 mil leitos de UTI e 21 mil gerais ao sistema de saúde argentino.

O Ministério da Saúde argentino já recebeu cerca de 440mil kits doados por um grupo farmacêutico local e passou a testar pessoas que voluntariamente concordaram em se submeter ao exame. Os testes são oferecidos nas proximidades de estações de metrô e trens de Constitución, a maior de Buenos Aires, e depois foram estendidos para outras regiões.

Impactos econômicos

Até o dia 12 de maio, o Brasil realizava 482.743 testes moleculares para o coronavírus, o que representa 2% dos 24 milhões de exames prometidos pelo governo para enfrentar a pandemia de Covid-19.
 

A Argentina deixou de fazer nesta sexta-feira (22) pagamentos de cerca de US$ 500 milhões em cupons de bônus já atrasados, disseram credores e uma agência de classificação de risco, marcando o nono default soberano do país em meio a negociações de reestruturação com credores.

A inadimplência em três títulos ocorreu no momento em que as negociações para dar nova cara a cerca de US$ 65 bilhões em dívida externa se intensificaram, com o ministro da Economia, Martín Guzmán, dizendo que as negociações estavam em um curso positivo, apesar da “distância importante” até um acordo.

No Brasil, a crise política também influencia nos índices econômicos, além da pandemia. O Ministério da Economia estima que o resultado do setor público consolidado sobe para déficit R$ 708,7 bilhões, equivalente a 9,9% do PIB.

Já o déficit primário esperado para o governo central, que contabiliza apenas as contas do Tesouro Nacional, do Banco Central e da Previdência Social, deve ser de R$ 540,5 bilhões neste ano. Os dois números levam em conta uma recessão econômica de 4,7%. Caso confirmado, o déficit será o maior na história do país. 

No início de abril, o Poder Executivo abriu crédito de R$ 98,2 bilhões para o Ministério da Cidadania. Os recursos vieram da realocação de verbas que seriam destinadas ao pagamento da dívida pública interna.

Apelidado de “coronavoucher”, o auxílio emergencial é repassado a desempregados, trabalhadores informais, intermitentes e microempreendedores individuais. O valor pode chegar a R$ 1.200 em famílias chefiadas por mulheres. 

O governo da Argentina também anunciou medidas adicionais para ajudar empregadores e trabalhadores de pequenas e médias empresas. O pacote inclui o pagamento de uma complementação no salário dos trabalhadores do setor privado.

O presidente Alberto Fernández decidiu que, entre as medidas adotadas por causa da pandemia de coronavírus, está o adiamento ou a redução em até 95% do pagamento das contribuições patronais para o Sistema Integrado Previdenciário Argentino.

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