Quem sai ganhando com o cessar-fogo entre EUA e Irã? Entenda
Especialista explica que no cenário atual, o Irã pode reivindicar vitória estratégica, enquanto Rússia e China também se beneficiam do conflito no Oriente Médio
O recente acordo de cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã tem gerado debates sobre quem realmente sai fortalecido dessa decisão. Apesar de Donald Trump afirmar que os EUA obtiveram uma "vitória total e completa", uma análise mais aprofundada revela um cenário complexo com múltiplos atores beneficiados.
De acordo com Augusto Teixeira, professor de Defesa e Segurança Internacional entrevistado pela CNN, ainda é cedo para determinar conclusivamente os vencedores, mas já é possível identificar alguns países que se fortalecem com o atual cenário. "No nível sistêmico, a Rússia aparece como um ator que ganha e muito com o conflito na perspectiva de conseguir maior grau de liberdade de ação em relação ao seu conflito com a Ucrânia, tendo o alívio de diversas sanções nas últimas semanas", explicou Teixeira.
A China também emerge como uma potência mais estável e importante na perspectiva de mediação, assumindo um papel de garantidora de mecanismos de concertação internacional que antes eram assegurados pelos Estados Unidos. No nível regional, o Irã pode alegar uma vitória relativa no plano estratégico, segundo o especialista. "Primeiro, o regime ainda existe. Tivemos, no máximo, uma mudança dentro dele, com talvez uma guarda revolucionária iraniana mais forte do que a dimensão política e religiosa da própria teocracia civil-política", destacou.
Capacidade militar iraniana e objetivos não alcançados
Apesar dos ataques sofridos, o Irã mantém sua capacidade retaliatória, especialmente no campo de mísseis e guerra assimétrica com drones. Embora os Estados Unidos e Israel possam se vangloriar da destruição de parte da capacidade de projeção de força regional iraniana, principalmente sua força aérea e marinha, Teixeira ressalta que essas forças já eram consideradas frágeis. "A marinha iraniana era uma marinha essencialmente voltada à guerra assimétrica para a negação de área. E a força aérea iraniana era basicamente inexistente", afirmou.
O que realmente importava para o Irã - o elemento assimétrico de grupos armados irregulares fora do país e sua capacidade de lançamento de mísseis - permanece intacto. Isso dificulta qualquer declaração de vitória por parte dos EUA, especialmente considerando que os objetivos iniciais, como a mudança de regime no Irã, não foram alcançados.
Impacto nas eleições americanas
Para Donald Trump, o cessar-fogo tem implicações diretas em sua posição política doméstica. Segundo Teixeira, o presidente americano sai enfraquecido tanto no cenário internacional quanto no plano doméstico. "A ideia do "taco", ou seja, "Trump's always chickens out" [Trump sempre se acovarda] saiu muito fortalecida", observou o professor.
Existe um histórico de ultimatos que Trump deu ao Irã desde o início do conflito, sempre recuando próximo ao seu término. Isso erode a credibilidade do presidente e do poder militar americano, afetando não apenas a situação no Oriente Médio, mas também a posição dos EUA frente a aliados da OTAN no contexto da competição estratégica com a Rússia.
O especialista avalia que Trump busca uma "saída honrosa" do conflito e a construção de uma narrativa de vitória visando as eleições de novembro. No entanto, os termos da negociação são considerados duros e, segundo Teixeira, "são termos que o Irã apresentaria caso tivesse vencido a guerra". Isso torna difícil para Trump sustentar sua narrativa de vitória completa, especialmente com sua base política dividida em ano eleitoral.


