Rússia intensifica ofensiva na Ucrânia enquanto prazo de Trump se aproxima
Moscou avança com uma série de conquistas modestas e investe recursos significativos em novos ataques, o que pode redesenhar o controle da linha de frente

O silêncio da noite é quebrado apenas pelo zumbido de um drone russo acima. Dmytro ainda não recebeu nenhum paciente em seu pequeno hospital de campanha com duas camas perto de Pokrovsk, e isso deixou de ser um bom sinal.
O amanhecer começa a surgir, momento em que a saída da feridos da linha de frente é mais segura, mas ainda assim ninguém chega, enquanto os drones inimigos continuam girando incessantemente no céu. “Temos uma situação muito difícil pela necessidade de retirada”, disse Dmytro. “Muitos feridos precisam esperar dias. Para os pilotos de drone russos, é uma honra matar socorristas e feridos.”
Nesta noite, os feridos da linha de frente não chegam. O excesso de drones de Moscou provavelmente tornou impossível até mesmo que veículos blindados resgatem os feridos em segurança.
Mais adiante na estrada, o combate segue intenso pela cidade estratégica de Pokrovsk, que está na mira do Kremlin há meses e agora corre o risco de ser cercada.
Estratégia de Moscou
Em todo o leste da Ucrânia, os pequenos avanços russos estão se acumulando. A Rússia está capitalizando sobre uma série de conquistas modestas e investe recursos significativos em uma ofensiva de verão emergente, que pode redesenhar o controle da linha de frente.
Durante quatro dias de reportagem em vilarejos atrás de Kostiantynivka e Pokrovsk, duas das cidades ucranianas mais atingidas na região de Donetsk, a CNN testemunhou rápidas mudanças no controle territorial.
Drones russos conseguiram penetrar profundamente em áreas antes consideradas seguras pelas forças de Kiev, e as tropas ucranianas enfrentaram dificuldades para encontrar pessoal e recursos para conter o avanço persistente do inimigo.
O impulso russo ocorre no momento em que o presidente dos EUA, Donald Trump, reduz drasticamente seu prazo para que o presidente russo, Vladimir Putin, aceite a paz, de 50 para até 12 dias.
Trump disse estar “muito desapontado” com Putin e sugeriu que o líder do Kremlin já decidiu não aceitar o cessar-fogo exigido pelos EUA e seus aliados europeus há meses.
Reação da Ucrânia
O prazo reduzido foi bem recebido por Kiev e pode provocar uma sensação maior de urgência nos governos ocidentais quanto ao apoio diplomático ou militar à Ucrânia.
Mas é improvável que mude o rumo de Moscou, cuja superioridade numérica, tolerância a baixas e vasta capacidade de produção militar começam a dar resultados.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse na semana passada que as forças russas “não estão avançando”, mas reconheceu que as circunstâncias na linha de frente são “difíceis”.
A sensação de uma crise em evolução era mais aguda ao redor de Pokrovsk, cidade que Moscou tenta conquistar há meses, com enorme custo de vidas russas. Um comandante ucraniano que atua perto da cidade descreveu um “cenário muito ruim”, no qual tropas na cidade vizinha de Myrnohrad corriam risco de “ser cercadas”.
O ritmo do avanço de Moscou, ou pelo menos a crescente penetração de drones de ataque em áreas civis, foi testemunhado pela CNN na cidade de Dobropilia, no leste, na terça-feira.
A cidade foi alvo de ataques contínuos de drones russos duas semanas atrás, atingindo múltiplos alvos civis. Moradores, que aguardavam com medo por evacuação policial, olhavam ansiosos para o céu e disseram que a ameaça dos drones aumentou rapidamente nos últimos dias.
Um policial expressou surpresa com a rápida perda de controle ucraniano e disse à CNN que o serviço de ônibus para a cidade foi interrompido abruptamente na segunda-feira, devido à situação de segurança, restando aos moradores apenas a saída em vans blindadas da polícia ou com seus próprios veículos.
Rússia avança sobre territórios da Ucrânia
Kiev também enfrenta um desafio agudo na cidade de Kostiantynivka, onde suas forças observaram avanços russos rápidos na última semana ao sudeste e sudoeste. Drones russos de ataque do tipo FPV conseguem atingir com facilidade veículos dentro da cidade, e mataram o motorista de uma van civil no domingo, apesar do explosivo não ter detonado.
Vasyl, um comandante da 93ª Brigada Mecanizada, disse que não recebe novos soldados há oito meses e é forçado a abastecer posições da linha de frente com apenas dois homens, usando drones para transportar comida, água e munição.
“Ninguém quer lutar”, disse ele. “Restaram apenas os veteranos, que estão cansados e querem ser substituídos, mas ninguém vem para substituí-los.” Ele culpou oficiais ucranianos por repassar relatórios imprecisos da linha de frente a seus superiores.
“Muita coisa não é comunicada e fica escondida”, disse. “Não comunicamos muitas coisas ao nosso Estado. E o Estado também não comunica muitas coisas ao povo.”
Mais ao norte, perto de Kupiansk, cerca de 100 km a leste da segunda maior cidade da Ucrânia, Kharkiv, tropas russas avançaram rapidamente pelo norte da cidade, ameaçando uma rota de abastecimento crucial para as forças ucranianas a oeste.
Eles tomaram a vila de Radkivka, cidade descrita por uma fonte como “muito dinâmica”. Analistas russos disseram que suas forças já estão nos arredores da cidade.
O efeito acumulado da crise de pessoal da Ucrânia, das turbulências na relação com a Casa Branca sob Trump e do fornecimento incerto de armamentos formam uma tempestade perfeita.
O momento colide com o vigor e a persistência da ofensiva de verão russa, cujo progresso deixou de ser incremental e está remodelando o conflito, aproximando Putin rapidamente de alguns de seus objetivos.


